Depois de ter se destacado como célebre crítico musical no começo dos anos 1980, momento em pôde presenciar entre outras efemérides capivarescas, o Zigue Zigue Sputnik colocar, nas suas palavras, “o último prego no caixão da música pop”, Pepe Escobar abandonou a crítica musical repentinamente e sumiu. A explicação, viemos a saber depois, era que, apesar de escrever com grande classe e competência, Pepe acabou sendo despachado das redações de jornais como Folha de São Paulo e O Estado de São Paulo e de revistas como a Bizz, por conta da identificação de plágios em alguns de seus artigos. Daniel Piza chefe da área de cultura do Estadão, ao fazer em 2008 uma avaliação sobre os anos 80, época em que identificou “situações de picaretagem explícita”, escolheu o caso do jornalista paulista para exemplificar sua posição e aproveitou para externar o que pensava sobre o escriba: “Pepe Escobar, por exemplo, foi pego em vários plágios, muito mais numerosos que os de Jayson Blair. Na década seguinte, seguramos seu emprego até onde pudemos. Paulo Francis dizia que ele tinha talento e não caráter. Hoje o talento, limitado, sumiu; o caráter continua desaparecido. Esse tipo de jornalismo felizmente já não cola.”
Indesejado nas redações brasileiras, Pepe tratou de se entregar a um périplo pelo mundo vivendo em destinos tão variados quanto Inglaterra, França, Itália, Estados Unidos (Los Angeles e Washington D.C.), China (Hong Kong) e Tailândia (Bangkok). Passou também a se dedicar a fazer reportagens e a escrever artigos sobre um assunto mais sério, geopolítica internacional, mudando completamente sua trajetória dentro do jornalismo. Entrevistou o líder afegão pró-Estados Unidos Ahmad Shah Massoud, pouco antes de seu assassinato pela al-Qaeda, e preparou artigos sobre diplomacia e a situação política em países como Irã, Iraque, China, Rússia, Estados Unidos e em regiões como o Oriente Médio, Ásia Oriental e Central, produzindo peças jornalísticas para sites como Asian Times Online, Sputnik, TomDispatch, OpEdNews e para emissoras como Al-Jazeera e Russia Today. Há alguns anos, vem publicando artigos e participando de coberturas dos sites The Saker e The Cradle. Seus textos também são traduzidos para o brasileiro Brasil247, espaço de propaganda petista disfarçado de canal jornalístico (pra quem sabe fazer conta, 2+4+7 dá 13). Ele aparece ainda nos podcasts do canal petista no YouTube (a TV247), onde comenta sua especialidade corrente: política internacional.
Em suas últimas lives para a TV247, o assunto foi obviamente a “Guerra na Ucrânia”, mais um dos lugares por onde Pepe Escobar peregrinou fazendo reportagens. Não dá para desqualificar por completo suas análises, ao contrário do que Pepe faz com tudo aquilo que segundo ele é produzido pela “sórdida mídia corporativa e hegemônica ocidental”. Pelo contrário, é extremamente pertinente o quadro que delineia sobre os laços da parte mais oriental da Ucrânia com a cultura russa, assim como suas observações sobre a importância de regiões separatistas como Luhansk e Donetsk e de cidades como Mariupol e Odessa (esta última central no desenrolar da Revolução de 1917) para a ex-União Soviética. Pepe também coloca em dúvida a pessoa de Volodymyr Zelensky, que virou um herói na mídia mundial, mas segundo ele é testa de ferro de oligarcas ucranianos e comanda um exército neo-nazista. Zelensky estaria fazendo tudo amparado por informações de inteligência fornecidas por experts americanos e se valendo de tropas mercenárias treinadas pelo Tio Sam.
Como se vê, em suas análises, que podem até ter um fundo de verdade, tudo se perde na caricatura do império do mal estadunidense e no desenho de seu poderio demoníaco fruto da ambição de controlar o mundo. É claro que a petistada delira com tanta fanfarronice. Com relação a Putin, por outro lado, ele não menciona nada sobre a perseguição e prisão de jornalistas, manifestantes, assim como o assassinato de opositores. Para ele, o sempre eficiente exército russo está na Ucrânia apenas respondendo às ambições expansionistas do “Natoquistão” e deveria, de acordo com o primeiro de seus podcasts sobre o assunto, dar cabo da missão em pouquíssimo tempo (a invasão russa já dura 20 dias, é bom lembrar). Na TV247, pelo que se depreende dos comentários, este tipo de defesa das atrocidades de Putin fazem o maior sucesso. É a apologia de um ditador e de uma Rússia que na fantasia de certa ala da esquerda ainda é a União Soviética antes da virada de Iéltsin nos anos 1990 na companhia dele próprio, o novo czar russo na linhagem de Ivã, o Terrível (mais até do que a dos Romanov), Vladimir Putin.
O jornalismo, quando praticado com seriedade, se ressente de pontos de vista divergentes. O MyNews, por exemplo, coloca lado a lado duas visões diferentes sobre a invasão da Ucrânia. Pedro Doria, do Meio, e Filipe Figueiredo, do Xadrez Verbal, têm posições bem distintas sobre as democracias no mundo de hoje e seu papel na briga a que assistimos. Nem por isso, deixam de serem confrontados em um debate construtivo. Mas é claro que para muitos, o MyNews é representante da “sórdida mídia corporativa e hegemônica ocidental”. Vão gostar de clichê assim na China.

