
Tenho uma coleção de primas lindas. São as benesses de se vir de uma família grande. Quando pirralho, achava, assim como meus primos, imagino, que era só uma questão de tempo para que namorasse uma delas ou, quem sabe, todas elas. Vivíamos imersos nessa doce ilusão que era alimentada diariamente pela contemplação do desfile de beldades que acontecia em todos as oportunidades em que nos reuníamos. Além das primas, havia também as amigas das primas e das irmãs. Esse, porém, é um assunto que fica para uma postagem futura.
Uma dessas primas tinha um nome que a gente poderia soletrar nabokovianamente. Ân. Ge. La. E lembrava, não a Lolita literária, mas a que povoou o imaginário do planeta a partir da popularização da personagem através dos filmes de Stanley Kubrick e Adrian Lyne. Tem, assim como as protagonistas destes filmes, cabelos e olhos claros, o que sempre chama atenção, e andava aos 16, 17 anos, de short jeans curto, blusa cropped ou amarrada na cintura, sandália rasteira e fumava com um charme só seu. Fazia o maior sucesso entre dez entre dez primos que a paparicavam carregando-a pra cima e pra baixo em passeios de bicicleta, de carro, do que fosse. Pois muito bem. É filha de meu tio Zeca (José Márcio) com minha tia Célia em um grupo nuclear que guarda paralelo com o de meus pais, pois reúne um casal com cinco filhos: três mulheres e dois homens, em escadinha com alternância idêntica. Ângela foi, assim como minha irmã Isabela, a penúltima a nascer. E há a coincidência de ambas, ao contrário de todos os outros irmãos, terem cabelos alourados.
Meu tio Zecamarcio, pai da Ângela, merece ser descrito. Era o tipo que vivia no mundo da lua, ou no seu próprio mundo, o que dá quase no mesmo. No dia de seu casamento com tia Célia, já próximo da hora de estar na igreja, não se conseguia encontrá-lo em lugar algum. Procura daqui, procura dali, e foram achá-lo debaixo do seu carro (não sei se um Citröen preto ou já o Studebacker azul de capota branca; era ainda à época dos automóveis importados) a consertá-lo. Depois do casamento, foi cultivar sua prole na rua Henrique Fleiuss, na Tijuca, bem lá no alto, em uma casa espaçosa em que você podia esbarrar com chocadeiras de ovos na sala de jantar e uma seleção de discos de 75 rotações na garagem.
Pai do VeteriMário, de quem já falei por aqui em outra postagem, tinha um sítio em que criava cavalos de raça e galinhas. Uma outra de suas paixões era a nossa música popular. Sua preferência ficava com Noel Rosa, Carmen Miranda, Almirante, Lamartine Babo, Ary Barroso, especialmente as marchinhas de carnaval. Possuía uma senhora discoteca que tia Célia, muitos anos depois, já não sabendo o que fazer com tanto disco, chamaria o caminhão da Comlurb que passava certo dia na rua, pediria ao motorista para virar a caçamba na direção da garagem, e, em seguida a dar um dinheirinho aos garis, despachar sem piedade tudo pro lixo.
Mas voltemos à Ângela, a pretendida por muitos, fossem primos, amigos, conhecidos. Pois muito bem. Um belo dia veio morar na rua Henrique Fleiuss uma família de imigrantes japoneses. Eram pouco fluentes no idioma brasileirinho, mas não demorou muito para que um dos filhos do casal se enturmasse com a turba de rapazes e moças da vizinhança que se conheciam e andavam como uma grande gangue pra tudo quanto é canto. Chama-se Toshiro Sagae e se integrou completamente com todos apesar da dificuldade com o idioma. O fato de carregar um característico sotaque nipônico em sua fala, sotaque que nunca o deixaria, não foi portanto empecilho para que se sentisse enturmado e à vontade.
Toshiro conheceu a Ângela, começou o namoro e passou a acompanhá-la como parte da família para onde eles fossem. Namoraram, noivaram, casaram e estão juntos até hoje. Tiveram três filhos: Mali, Yuli e Kenji, que, além dos nomes peculiares, não deixam de exibir seus traços orientais evidentes ainda que com toques abrasileirados. Durante a infância era até engraçado ver o japinha Kenji com o ouvido colado em um pequeno gravador que só tocava músicas de carnaval das décadas de 30 e 40. Fazia isso sob o olhar observador de tio Zeca, que, sentado na varanda da casa petropolitana de veraneio da família, tomava o seu whisky com Coca-Cola.
Toshiro acabou indo trabalhar na Vale do Rio Doce. Tinha como missão negociar a venda de minério de ferro para o Japão. Quando os japoneses descobriram que o negociador brasileiro não apenas havia nascido na terra do sol nascente como falava sua língua fluentemente, o adotaram como interlocutor privilegiado. Ascendeu na empresa e se tornou peça tão fundamental que foi designado para ocupar uma posição em um escritório da Vale na Califórnia.
Há uns vinte anos, Toshiro e Ângela moram nos Estados Unidos. Os filhos, todos criados por lá, casaram e lhes deram muitos netos. Tantos e tão distantes que não conheço nenhum deles pessoalmente. Já a paixão em estilo John Lennon de Ângela teve seus seguidores na família. Tenho um primo que está no segundo casamento com uma moça nissei e meu sobrinho mais velho namora na ponte aérea Rio-Tóquio.
Toshiro e Ângela com os netos Dereck, Connor, Ava e Kaylie



Fico demais, como você conseguiu essas fotos. ficou lindo.
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