
Por Carolina Landi
O musical Lazarus, criado por David Bowie e pelo dramaturgo irlandês Enda Walsh, que estreou em Nova York em temporada off-Broadway com a presença do Cameleão na plateia em dezembro de 2015, pouco tempo antes de ele nos deixar, é inspirado no romance O Homem que Caiu na Terra, de Walter Tevis, e no filme homônimo rodado em 1976 por Nicholas Roeg tendo o próprio Bowie como protagonista.
Dirigida por Felipe Hirsh, a versão brasileira do musical passou por São Paulo no segundo semestre do ano passado e está encerrando sua temporada carioca este final de semana. Lazarus traz o ator Jesuíta Barbosa interpretando o personagem Thomas Jerome Newton, um alienígena procurando uma maneira de voltar a seu planeta de origem. Enquanto isso não acontece, ocupa seus dias consumindo vorazmente gim e preso às lembranças de uma garota (Bruna Guerin), inspirada na Mary Lou (no cinema, vivida pela eterna estrela de American Grafitti, Candy Clark), a terráquea com quem se envolve afetivamente.
A encenação brasileira possui um cuidado técnico apurado que confere status de super produção à montagem, ainda mais se comparada à versão britânica de 2016, como nos mostra esse registro no YouTube. Para entender minimamente o musical, que tem estrutura fragmentária, é preciso conhecer um pouco a história do livro, ou mesmo rever o filme, embora a grande estrela da peça seja realmente sua parte musical que na atual montagem ganhou direção requintada com assinatura de Maria Beraldo e Mariá Portugal.
A dupla recriou com classe 18 músicas de diversas fases da carreira de Bowie, incluindo sucessos como “Life on Mars” e “Rock´n Roll Suicide”, faixas mais obscuras como “It´s no game”, do disco Scary Monsters, de 1980, além de quatro composições do último álbum do artista, Blackstar. Para fãs, categoria na qual me incluo, dá gosto ver essas canções com uma banda ao vivo, em versões muitas vezes nada óbvias, mas igualmente maravilhosas.
O próprio Bowie, para deleite desta que vos digita (e cuja entrada na vida se deve a essa pérola setentista baixada no remoto Kazaa em meados de 2003), aparece em imagens de arquivo no telão, em trecho do documentário Cracked Actor (1974) da BBC de Londres (ouvindo (You make me feel) Like a Natural Woman, de Carole King, no rádio de uma limousine). Encerrando o musical há ainda o clipe original de Heroes com the Thin White Duke atacando com suas costumeiras poses. É velho e conhecido, mas não nos cansamos de ver. Uma escolha especialmente feliz para fechar toda aquela celebração.
Uma crítica publicada na Folha de São Paulo disse que “a melhor maneira de apreciar “Lazarus” (…) é se deixar levar pelas imagens e pela interpretação da música, como num show elaborado, em que cada canção é uma peça fechada em si mesma”. Concordo plenamente. E Hirsh soube se cercar por músicos e cantores extremamente competentes que conseguiram cumprir a difícil tarefa de recriar o repertório de monsieur Boviê (só “Rock´n´Roll Suicide” parece mesmo impossível de ser cantada sem algum constrangimento por outra pessoa).
Outro ponto alto da peça diz respeito a concepção visual da montagem com cenário criado pela insuperável Daniela Thomas e por Felipe Tassara. No palco temos um piso móvel, com espelho ao fundo, no qual se projetam imagens iconográficas e vídeos, como uma miragem da nave que Thomas Newton tanto busca na tentativa de dar fim à sua passagem pela Terra. Ficaram curiosos? Não percam, é só até domingo no Teatro Multiplan do Village Mall, na Barra da Tijuca.


Kiko, que pena!!!! Estou presa em Correas, agora pela quarentena e antes com Alvaro no hospital!
Adoraria ter visto! Obrigada!
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