Encontro no MIT com Penrose, Sontag e Wilson
- O artista plástico Paul Thek reclamava muito com a escritora por conta do fato de Sontag querer teorizar sobre qualquer assunto. Um dia não se aguentou e disse: “Susan, pare com isso. Eu sou contra a interpretação”. Sontag adorou, “Contra a Interpretação” virou o título do primeiro livro da ensaísta.
- É fato que Sontag é capaz de discorrer sobre qualquer assunto. Existe até um encontro documentado no MIT em que ela, Roger Penrose e Edward Osborne Wilson são desafiados a falar sobre 5 fotografias aleatórias. Susan se saiu com as ponderações mais inventivas (link na imagem acima). Certamente por isso, Herbert Marcuse, que morou durante o ano de sua chegada aos Estados Unidos na mesma casa em que Susan e seu primeiro e único marido viviam, comentava: “Ela é capaz de criar teoria sobre o ato de descascar batata”.
- No final de sua carreira e antes de voltar ao derradeiro ensaio de “Diante da Dor dos Outros”, Sontag tentou convencer os incautos que sua verdadeira vocação era para a ficção e a tratar seus ensaios como arroubos de juventude. Parece ter ganho o entusiasmo pelo menos de seu mais novo biógrafo. Moser acha que ela produziu boa ficção e ensaios menos inspirados. Ainda bem que temos o direito de discordar.
- Sontag mentia com certa frequência sobre questões pouco relevantes e a biografia revela passagens cômicas por conta desta idiossincrasia da escritora. Aqui em casa corre até o comentário jocoso de que ela era falsa até no nome com que ficou conhecida. Pegou de seu padrasto por achar que Rosenblatt, sobrenome de seu pai, expunha evidentes traços de sua ascendência judaica.
- “Camp” é um termo corriqueiro que até os bem jovens hoje reconhecem. Foi assunto do famoso ensaio “Notas sobre o Camp” de 1964 que é citado insistentemente por Moser em sua biografia. Traz a marca de uma escrita em que a inventividade supera a conceituação. Faz lembrar os ensaios de Ana Cristina Cesar.
- Foram 17.198 trocas de e-mails entre Sontag e seus amigos e conhecidos. Mensagens que, sob autorização, podem ser lidos por pesquisadores como aconteceu com Benjamin Moser. O que leva o fã a se perguntar como eles seriam redigidos. Até 2004, as redes sociais ainda não existiam, ou eram pouco difundidas. Mensagens eletrônicas eram o meio por excelência de troca de conversas digitais. Imagino que Sontag não seguiria o modelo de um amigo que curiosamente redige tudo em letra minúscula e sem acentuar as palavras. Talvez se parecesse mais com a redação de Flora Süssekind, tudo guiado por um autocontrole e rigor impressionantes em sua redação.

