Não Confundamos Alhos com Bugalhos, nem Virtuosos com Pilantras

O assunto já ficou ultrapassado, especialmente depois que Élio Gaspari, Demétrio Magnoli, Gregório Duvivier e outros colunistas, bem como vários editoriais de jornais, mostraram o escárnio que representa o tal do auxílio-moradia como tem sido usado por nossos  magistrados. Segue, portanto, menos por seu conteúdo-manifesto e mais por questões estilísticas bobas (os blogueiros também têm suas veleidades subliterárias) às quais talvez volte um dia.

Não dá mesmo pra confundir alhos com bugalhos, como bem salientou o colunista Merval Pereira. Uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa completamente diferente. Cada qual, por sua vez, é único na maneira muito particular como encara o que julga como seus direitos, obrigações, deveres, e como reflete isso em suas atitudes. Tem, por isso mesmo, o seu jeito distintivo de ser. Chega-se assim à conclusão de que um virtuoso, um probo, um íntegro ou mesmo um pilantra, um bandido, um impostor, não pode e não deve ser confundido com outro virtuoso, probo, íntegro ou pilantra, bandido, impostor.

Vejamos por exemplo os casos dos senhores Sérgio Fernando Moro e Luiz Inácio Lula da Silva. Cada um deles tem mostrado que é sagaz a seu modo e maneira. Comungam apenas no desejo de recorrer, um, à bolsa da Viúva, e o outro, ao bolso dos associados desta, sem ceremônia, sem constrangimento, sem escrúpulos. Na hora de fazê-lo, no entanto, cada qual age distintamente, aplicando artimanhas singularíssimas. Um é partidário do tapinha nas costas e das conversas de quermesse. Já o outro, não, mais comedido e reservado, se restringe a acompanhar a maioria de seus confrades de toga para fazer valer o que é moralmente condenável.

Assim, no país dos sem-teto, do bolsa família que mal dá pra pagar um almoço, da aposentadoria com valor máximo de 5 mil reais, o juiz Sérgio Moro recebe, só de auxílio-moradia, a irrisória quantia de 4,300 reais, o que lhe é garantido por lei (o direito brasileiro, como se vê, é uma mãe para aqueles que estão ao seu lado). Se empenha essa quantia para outros fins em lugar daqueles aos quais ela é destinada, isto pouco importa. Não cabe, por sinal, ao magistrado, homem da lei, dos direitos, dos deveres, prestar esclarecimentos sobre isso a ninguém, à exceção daquela à qual alguns insistem em chamar de justiça.

Segue, em função disso, com sua missão que é a de fazer com que malfeitores justifiquem seus atos perante a sua pessoa, sem rodeios, sem conversa fiada. Muito sensato, muito lógico. O que nos faz pensar se não caberia ao Lula perguntar se por acaso o senhor Moro teria guardado em casa todos os comprovantes de aluguel de que dispõe.

Quem sempre viveu com bem pouco, deve, imagino, achar que um salário de 30 mil reais, no Brasil de hoje, seja algo por si só estrambótico, esdrúxulo, excêntrico. Com penduricalhos que chegam ao patamar dos 100 mil ou mais em um mês, tudo passa a ser matéria de sonhos tenebrosos de ganância a nos lembrar o Ali Babá e seus 40 ladrões em passagem das “Mil e uma Noites de Pilantragem”. Ao que tudo indica, estes, no entanto, são valores que não assustam uma casta privilegiada da sociedade brasileira.

O país que já contou com exemplos de magistrados como um Raymundo Faoro (por ironia, um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores), autor de um livro belíssimo sobre Machado de Assis entre outras obras fundamentais sobre o Brasil, vive hoje de venerar pessoas extremamente rasas em suas ambições e avaliações sobre o que lhes cabe. Certa vez vi no jornal um texto, muito bem escrito por sinal, do senhor Sérgio Moro. Texto em que ele citava Rui Barbosa. Na minha inocência, fiquei a imaginar que viria algum comentário sobre a tão refinada, ainda que empolada, estilística barbosina. Mas nada disso, ele recorria ao Águia de Haia como mera formalidade para justificar que juízes não podem sofrer sanções por interpretar a lei segundo suas consciências. Foi tudo o que ele conseguiu extrair da retórica do jurista baiano. Espero que o mesmo valha para os julgamentos dos cidadãos brasileiros em sua interpretação sobre as atitudes de juízes, magistrados e demais integrantes da judicatura.

Ao que tudo indica, a razão é que seu interesse acadêmico é mais centrado em saber como se faz para roubar sem ser pego. Por isso, ele esteve na Escola de Direito de Harvard para uma especialização durante um curtíssimo espaço de tempo. Foi conhecer em detalhe como vivem os bandidos e como fazem para esconder fortunas que resultem de falcatruas. Acho que é uma obsessão sua. Tudo, bem entendido, pago com dinheiro do contribuinte. Pois se existe uma classe de privilegiados para darem continuidade aos seus estudos com farta ajuda e paparico do Estado (licença com vencimentos, ajuda-livro, cursos pagos pelo erário), esta classe é a dos magistrados.

Na República dos Bruzundangas, o juiz de Curitiba segue posando com pompa e circunstância como arauto-mor da moralidade. Mas isso é compreensível, já que, como todos sabemos, uma coisa é uma coisa e outra coisa é outra coisa completamente diferente.

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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