O Pacato Cidadão Hugo Waldemar

Seu Hugo e Rogério

Encerrei o ano de 2017 me despendido de um tio querido. Dia 30, fomos levá-lo à sua última morada. No caminho até o mausoléu dos Sá Freire (lado paterno),  no cemitério de São Francisco Xavier, enquanto nos dirigíamos às aléias onde se encontra o jazigo da família, um primo, Claudio Acir Freire Ferreira (que tem entre nós a alcunha chistosa de Matusalém), fez o comentário pertinente: “Era um tio gente boa”. Não poderia concordar de maneira mais definitiva e inapelável.

Se formou em engenharia elétrica e foi funcionário da Light até que a aposentadoria chegasse. Às vezes, era possível encontrá-lo no meio da tarde em uma das caminhonetes da empresa, parado em alguma rua da Tijuca fazendo reparo na rede elétrica da cidade. Em casa, tinha o seu cantinho em que tratava de consertar os rádios e aparelhos eletrônicos de quem precisasse.

Estava sempre ouvindo sua ópera. Era um apaixonado pela mais célebre música italiana. Não gostava de nenhum outro estilo musical e seu fascínio era sem pose. Ouvia no refúgio do lar e nunca teve o desejo de frequentar casas famosas que prestigiam o canto lírico, como o Theatro Municipal, por exemplo. O Scala então, nem pensar. Aliás, nunca demonstrou interesse em sair do país, nem pra passear, pra nada. Só o futebol o levava ao Maracanã e as corridas de cavalo ao Jockey Club, e assim mesmo sem o gosto extremado de alguns de seus muitos irmãos.

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Como tinha, junto com tia Maria Solange, sua esposa de toda a vida, dois filhos de idade próxima à minha (teriam depois mais uma filha), eles me adotoram como um terceiro integrante do núcleo familiar. Eu era um filho postiço com as regalias e privilégios desta condição. Na hora da bronca, acabava poupado. Meu tio possuía uma paciência de Jó com a gente. Quando penso no que fazíamos, fico pasmo: lutávamos telecatch em cima da cama de casal (era o nosso ringue), jogávamos futebol na sala e, quando estávamos mais calmos, botão em cima da mesa de jantar. Eu teria feito com que todos vissem o “China seco” em dois tempos (“China seco” era o chinelo que meu avô usava, como parte de sua indumentária em par com seu permanente pijama, e com o qual ameaçava as crianças desordeiras).

Haroldo, Rogério e Kiko

Meus pais moravam no número 512 da rua Conde de Bonfim, e meu tio Hugo bem perto, na rua Conde de Itaguaí, no segundo bloco de um prédio de 5 andares. Ficava ao lado do número 22, onde foi um dia o endereço de meus avós paternos. Religiosos, meus avós observaram talvez com um zelo excessivo o preceito do crescei e multiplivai-vos: trouxeram ao mundo nada menos do que 10 rebentos, 8 filhos e duas filhas. Os meus tios que nasciam durante o ano, viam o mundo pela primeira vez nesta residência de dois andares de meu avô Waldemar e a minha avó Glorita (Maria da Glória) na Tijuca. Os que nasciam depois que o calor chegasse, vinham à luz na casa de Petrópolis, residência de veraneio do casal.

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Como o tio Coco (era o seu apelido) nasceu em dezembro, acredito que como meu pai, seja natural de Petrópolis. Todos os tios e seus 28 descendentes, bem como netos e muitos agregados, aproveitaram esta casa enquanto deu. Funcionava como uma colônia de férias servindo café da manhã, almoço e jantar para um mundo de gente. Tinham pessoas responsáveis por cada função: controle da despensa, organização do menu, e até por preparar o cafezinho servido durante a jogatina noturna na casa principal.

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Os tios desciam e subiam todos os dias para trabalhar. Quando chegava mais cedo e a tempo de pegar ainda o banho de piscina no final da tarde, tio Hugo comentava: “Kiko, depois de certa idade, pra se entrar na água, só molhando os pulsos e a nuca antes”, e finalizava o comentário com um glorioso mergulho na muito apreciada piscina. De noite, ficávamos à caça de um sinal de TV para ver o jogo lento e silencioso do Ademir da Guia, ou de outros craques da bola do período.

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Nenhum obra de literária que li foi ambientada nesta residência em Petrópolis. Já vários dos romances de Machado de Assis, não sei bem por qual razão, se passam na minha imaginação na casa que existiu um dia na rua Conde Itaguaí na Tijuca (hoje temos um prédio em seu lugar).  Sei que Bentinho viveu infância e adolescência na rua de Matacavalos (ou do Ricahuelo), na Lapa, mas para o leitor dos romances machadianos que vos digita, o caso com Capitu começou e aconteceu na morada de dois pavimentos de meus avós, com sua escada iluminada por um belíssimo vitral que vazava luz na passagem entre um piso e outro.

Tinha um tanque, um quintal e um terno galinheiro, que, tenho certeza, estão em alguma crônica de Nelson Rodrigues. Assim como minha tia-avó Guiomar (ou tia Guiô), que, solteira por toda sua existência, foi para mim uma personagem das peças míticas rodriguianas. Passava os dias a tricotar sentada em uma cadeira em uma casa conjuminada à de meus avós (esta casa está lá até hoje na esquina com a rua Carlos de Laet).

Ontem tivemos a missa de sétimo dia na Sagrados Corações na Conde de Bonfim. Trata-se da igreja que, pela proximidade, toda a família frequentava. Foi o lugar em que me preparei para a minha primeira comunhão. Posso jurar que tocou a “Ave Maria”, de Gounod, durante a cerimônia.

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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8 Responses to O Pacato Cidadão Hugo Waldemar

  1. Avatar de Margarida Margarida disse:

    Que lindo, chorei muito, ontem antes de ir à missa enquanto tocava piano não consegui conter as lágrimas por esse tio tão querido. Haroldo comentou que a nossa avó ajudou financeira a construir aquele igreja onde ele e outros fizemos a nossa 1a. comunhão. Publica no Facebook tá tão lindo

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  2. Avatar de Isabela Sa Freire Isabela Sa Freire disse:

    Muito lindo o seu texto. Parabéns!

    Isabela Sá Freire Mob: 21 98149-9943

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  3. Avatar de Ana Miccieli Ana Miccieli disse:

    indo texto Kiko! Fiquei muito emocionada!Ticoco é inesquecível….Vc sabia que foi papai quem deu esse apelido pra ele?Ele contava que quando iam para Petrópolis quando crianças,Tio Hugo leu em vez de Bar Tico tico,leu Bar Ticoco é a partir daí papai só chamava Tio Hugo de Ticoco.

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  4. Avatar de Mali Mali disse:

    Que texto lindo! (e também amei as fotos)

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  5. Avatar de Francisco Eduardo Pires de Souza Francisco Eduardo Pires de Souza disse:

    Beleza de texto, Kiko. Adorei!

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  6. Avatar de rogerio souza rogerio souza disse:

    fala kiko , é rogerio , meu telefone é 999131630 , vou escrever um relato acontecido em meados de 1970 , provavelmente entre 73 /74 , decolou um caravelle , que tinha um motor avon jato puro , puro barulho da pista 15 do aeroporto do galeão , apos a decolagem curvou a direita com referencias visuais tomando proa de são paulo SP e passou em cima do apartamento 301 da rua conde de itaguai 16, eram 2200hs e eu e haroldo viamos televisão preto e branco na sala , então o papai sai do quarto e da uma bronca tipo waldemar que a tv estava muito alta , e a desligou , eu e haroldo nos olhamos e fomos durmir como bons filhos obedientes daquela epoca , pagamos o pato do avião que passou em cima de casa a 5000ft .

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  7. Avatar de solange solange disse:

    Adorei querido sobrinho FILHO!!! BeiJoS!!!
    Tia SOLANGE!!!OU ///// tIA Langinha

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