Literatura Falada

Captura de tela inteira 04052017 105311Se tenho certa resistência ao livro eletrônico armazenado nos assim chamados dispositivos móveis (computador, celular, tablet), por preferir infinitamente a leitura em papel (em razão do maior conforto para os olhos), consumo vorazmente os tais dos livros falados. Recorro a dois sites para isso: a Audible e a Librivox. Os livros da Audible, braço da gigante Amazon, são pagos e apresentam as novidades com os lançamentos do mercado editorial. Os da Librivox não custam nada ao bolso de ninguém, mas reúnem estritamente livros em domínio público.

Além do atrativo de serem gratuitos, os registros da Librivox apresentam a mais interessante das duas fontes por sua novidade. Trata-se da contrapartida em áudio do Projeto Gutenberg (não sem razão, o Projeto Gutenberg é usado com frequência como guia orientador para a realização das gravações ali disponibilizadas). Criada como espaço colaborativo na Internet, a Librivox guarda atualmente em seus arquivos uma variedade de mais de 11 mil títulos. Por princípio, essas obras devem ser gravadas amadoristicamente por voluntários movidos pelo desejo de divulgá-las e, em seguida ao processo de revisão (revisão também feita por voluntários), entregues ao público. A dedicação e o profissionalismo de alguns dos colaboradores, no entanto, supera em muito as expectativas dos fruidores mais exigentes e o resultado final impressiona por sua qualidade.

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Cito uma das mais primorosas leituras entre aquelas que são oferecidas. Não à toa, é considerada a melhor leitura do site. Refiro-me ao registro de Stewart Wills para a longa narrativa sobre a caçada de Ahab (Acab) à baleia albina de Herman Melville. Wills, um dos colaboradores assíduos do Librivox, é aquele leitor que torna a audição de um livro uma experiência das mais prazerosas. Tem impostação de voz, modulação comedida (e sem afetação na troca de personagens durante os diálogos) e constância de ritmo na realização de uma tarefa difícil como percorrer livros extensos sem perder a fluência (o que um romance como “Moby-Dick” exige). Não é a única contribuição desse extraordinário leitor, há ainda o “Lord Jim”, de Joseph Conrad, em outra certeira interpretação com o crivo interpretativo de Wills.

Diferentemente da grande maioria dos projetos da Librivox, essas são duas iniciativas de um leitor só. A maior parte das leituras, entretanto, é realizada por um grupo numeroso de colaboradores-voluntários que dividem os vários capítulos de cada obra.  O “Dom Quixote, de Cervantes (em tradução para o inglês), e “As viagens de Gulliver”, de Swift (no original), são dois exemplos de projetos de resultados mais modestos e à audição dos quais o ouvinte só se submete pelo prazer de voltar a essas narrativas.

Para quem é adepto de leituras acadêmicas ou precisa com freqüência se servir de obras científicas, a Librivox também guarda arquivos fundamentais. Se você quer vislumbrar as antinomias da razão pura kantiana, saber se Kant, por uma percepção ingênua, caiu mesmo em contradição apresentando tese e antítese como uma única e mesma coisa em suas considerações sobre o começo do mundo, como nos fez crer Stephen Hawking, há disponível para download uma leitura da “Crítica da razão pura”. É a oportunidade de se familiarizar com o texto e escapar às muitas horas de dedicação à uma poltrona que sua obra nos força. Tem-se também a “Crítica da razão prática”, ambas em tradução para o inglês feita por John Miller (tradução igualmente em domínio público). A Librivox disponibiliza ainda textos de Karl Marx (“O Capital”), Sigmund Freud (“A interpretação dos sonhos”), Nietszche (“O antiCristo”, “Além do bem e do mal” e “Assim falou Zaratustra”, entre 15 títulos em alemão e inglês) e mais Voltaire, Rousseau, Diderot, Hobbes, Hume, numa lista grande.

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Há até o momento uma predominância de gravações em língua inglesa (de textos escritos nesse idioma originalmente ou traduzidos), seguidos por registros em língua alemã e em francês, o que se justifica por um lado por ser o Librivox um site criado nos Estados Unidos, mas certamente por ter havido até o momento por parte dos norte-americanos uma maior boa vontade para esse tipo de iniciativa.

Já temos participação brasileira em livros gravados por dois colaboradores empenhados que merecem crédito: Vicente (o leitor se identifica apenas pelo seu primeiro nome), que lê com classe Lima Barreto, e Leni Ribeiro, que se dedica a uma variedade de autores de língua portuguesa. Leni fez também as leituras das traduções de três obras de Machado para o inglês: O enfermeiro (“The attendant´s confession”), “Viver” (“Life”) e “The fortune Teller” (“A cartomante”).

A presença de autores brasileiros, porém, ainda é extremamente acanhada. Os nossos doutos em todas as latitudes escrevem, palestram e comentam com o maior entusiasmo a obra de Euclides da Cunha, por exemplo. Mas faltava alguém, interessado na divulgação de seus escritos, que fizesse por ele o que muitos leitores-voluntários têm feito por autores estrangeiros: proceder a leitura e gravação de um de seus livros em áudio. Leni Ribeiro fez isso para “Os Sertões”. Na íntegra. Foi a única pessoa a se interessar. Intelectual ao que tudo indica não perde seu precioso tempo com essas coisas menores. Nem mesmo aqueles que devem muitas das regalias de que gozam à projeção que a obra de Euclides da Cunha ajudou a dar ao nome do lugar em que batem ponto.

Marcel Proust aparece em francês em “À l’ombre des jeunes filles en fleurs” e com o primeiro tomo da “Rechercheem tradução para o inglês. Pode-se acompanhar os projetos de leitura em andamento e o livro de Proust demorou para ser finalizado, mas já está lá em duas versões. Ninguém teve a boa vontade ainda de ler “Une saison en enfer”, de Rimbaud, ainda que “Illuminations” e alguns de seus poemas apareçam junto com os versos de outros autores nas “Multilingual poetry collections”.

1024px-Hugh_McGuireHospedado como organização não-governamental (www.librivox.org), o site foi inaugurado em agosto de 2005 e estará completando em breve seu 12o aniversário. Enquanto Mark Zuckerberg fez fama criando uma besteira como o Facebook, o pouco falado Hugh McGuire lançou um espaço de troca intelectual infinitamente mais interessante e de importância incontestável. Hoje em lugar de faturar com sua cria e ocupar o posto de mais novo bilionário no clube dos super-ricos, deixa que sua iniciativa ande com as próprias pernas. O entusiasmo foi tanto com a proposta de McGuire que comecei a empregá-la com alunos como técnica instrucional, o que resultou em alguns projetos que podem ser conferidos na aba “Literatura Falada” deste blogue.

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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2 Responses to Literatura Falada

  1. Avatar de Margarida Margarida disse:

    Muito interessante. Me distrai ouvir em vez de ler mas em várias ocasiões é bom, tipo fazendo ginástica. O problema é que tem pouca coisa em português.

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  2. Avatar de Ana mari souza Ana mari souza disse:

    Muito bom como sempre.Altamente esclarecedor

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