Inclusão Olímpica

daniel-dias-2Para uma sociedade que vive diariamente um sentimento de desprezo absoluto por manifestações mínimas de civilidade, as Paraolimpíadas, que acabam de se encerrar no Rio de Janeiro, se mostraram um evento extremamente educativo. Os jogos cumpriram a simpática missão de mobilizar um número significativo de pessoas e levá-las a um exercício raro de prática inclusiva que, tenho certeza, terá consequências para a elevação do grau de tolerância e de respeito mútuo. Todos aqueles que lidam com a realidade educacional brasileira sabem o quanto isto é importante.

Excluindo os interesses econômicos que movem as disputas esportivas, não consigo compreender a razão de as duas competições não terem ainda se transformado em um único e mesmo acontecimento olímpico. Especialmente quando se sabe que muitos atletas paraolímpicos tiveram desempenho que rivaliza com aquele dos esportistas olímpicos. Além disso, é perfeitamente possível se reduzir o número de baterias seletivas para se ter competições mais enxutas. Seria uma atitude que ajudaria a dar mais importância às provas paraolímpicas e a equiparar em prestígio as duas competições.

Como de costume, acompanhei com atenção especial as provas do parque aquático onde o Brasil teve a chance de festejar o seu maior atleta paraolímpico na pessoa do nadador Daniel Dias. Talvez pareça simples o que o mais destacado medalhista brasileiro faça dentro da piscina. Aos que imaginam se tratar de coisa simplória, desafio a completar apenas 25 metros, ou metade de uma raia olímpica, em nado borboleta.

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Outro nadador que impressionou muito foi o chinês Tao Zheng. Ele vem se distinguindo desde a paraolimpíada de Londres. Enfrentando a limitação que tem como consequência da amputação dos dois braços, ele tira proveito do seu trabalho de pernas, especialmente na impulsão da virada no nado submerso. Consegue com isso trabalhá-las com uma eficiência excepcional, o que o leva a liderar com ampla margem de vantagem suas provas e, na competição dos 100m no estilo costas, o fez bater o recorde paraolímpico durante a competição. Quem pratica este balé dentro d´água que é a natação (por favor, leitores, sem risinhos, sim?), passa a observar estas coisas. Os chineses, tanto na Olimpíada quanto na Paraolimpíada, vêm dominado as competições e liderando o quadro de medalhas a cada edição do evento. Nas disputas aquáticas então nem se fala. A razão, ficamos sabendo, é que todos os seus atletas medalhistas são agraciados com uma pensão vitalícia por seus feitos.

Para um país em que escolas e universidades devotam pouca, ou mesmo nenhuma, atenção às práticas esportivas e em que se olha com desconfiança projetos de mínima justiça social de programas como o Bolsa Família, até que nos saímos melhor do que o esperado. É verdade que desde 2004 houve a criação do Bolsa Atleta, o que foi um primeiro paliativo. Vejamos se ela terá continuidade passada a febre olímpica. Ao fim das competições, nossa colocação geral ultrapassou de longe o desempenho que deveríamos cobrar de nossos atletas. Dos esportistas paraolímpicos nem se fala, já que o investimento nesta categoria ficou bem aquém daquele feito na equipe olímpica.  

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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3 Responses to Inclusão Olímpica

  1. Avatar de analucia analucia disse:

    APOIADO!!!

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  2. Avatar de Margarida Margarida disse:

    Também acho que seria um evento de inclusão muito maior ser feito ao mesmo tempo que as Olimpíadas.

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  3. Avatar de ana maria souza ana maria souza disse:

    Muito bem pensado .Acho que a criação do Parque de Madureira e Deodoro de certo irá familiarizar muito futuros atletas com atividades esportivas.

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