O assunto poderia ter sido discutido no conjunto de vime composto por um sofá e por quatro poltronas no espaço entre as duas estantes à esquerda de quem adentrava a livraria e casa editorial Garnier, na rua do Ouvidor no centro do Rio de Janeiro, há um século. Os convivas na livraria do editor de Machado de Assis seriam Olavo Bilac, Lima Barreto, João do Rio, Gilka Machado, Coelho Neto e seus muitos amigos e conhecidos. Ele foi, no entanto, inquirido, perscrutado, perquirido, na mais nova filial da Livraria da Travessa que fica em frente às salas de cinematógrafo do antigo cinema Estação Botafogo (agora, Estação Net).
Ao invés de pisarmos a calçada da Ouvidor, com seu ladrilhado vermelho, branco e amarelo, e subirmos os degraus da loja do livreiro Baptiste Louis Garnier (ou, para os maldosos, do Bom Ladrão Garnier), passamos pelo piso quadriculado em verde e branco da entrada da nova livraria da Voluntários da Pátria, vencemos sua vitrine com janelas avermelhadas e percorremos seu sinuoso labirinto. Lá, bem no fundo, no acolhedor recinto dedicado às crianças, nos entregamos a uma tarefa inglória: a de tentarmos entender aquela com a qual convivemos diariamente, estejamos satisfeitos, seduzidos, fascinados ou aborrecidos, chateados, agastados com ela.

De início, procuraram passar a imagem de uma criatura que, ainda que muito conhecida e falada, é simpática, envolvente, simples e fácil no trato, não só com os próximos, mas também com aqueles que se relacionam com ela à distância. Aos poucos porém fomos descobrindo o quanto estes traços aparentemente afáveis, amáveis, amoráveis, afetuosos, podem esconder uma figura geniosa, cheia de caprichos, veleidades, cismas, desvarios. Capaz mesmo de ensejar brigas homéricas. Percebemos, assim, como temos na verdade uma fonte de permanente dissenso entre todos aqueles que a cortejam.
Alguns chegando mesmo a se arvorar a criadores de leis, punições, sanções, multas, para os que tentarem se engraçar com ela. Das discussões genéricas, avançamos sem demora para as considerações pontuais. Nosso espaço de debate ganhou a partir daí ares de tribunal, uma corte comandada pelo escritor Arthur Dapieve e pelo expert em crimes de lesa-língua, bem como autor de livro sobre o tema, em lançamento naquela noite (“Viva a Língua Brasileira!”, Companhia das Letras, 2016), Sérgio Rodrigues. Procedeu-se assim à análise de alguns dos muitos litígios envolvendo a polêmica figura. Comentou-se, por exemplo, sobre a existência de alguns que juravam que ela jamais poderia aceitar ver algum cidadão a “correr risco de vida”. Para estes, ela só poderia vir a testemunhar, sem incorrer em ilogicidade, uma pobre e infeliz pessoa a passar por “risco de morte”.

Da mesa, Sérgio Rodrigues, e, da platéia, Arnaldo Bloch, não deixaram de externar suas contrariedades. O primeiro afirmou que, ainda que aceitável, o “risco de morte” não pode ser admitido como uma forçosa contrapartida à exclusão do “risco de vida”, sem que, com isso, seus adeptos fossem reconhecidos como néscios clamorosos. O segundo foi mais direto na desqualificação de semelhante perspectiva e disse que se alguns autores pensam assim, “problema deles”. Ainda que acompanhemos esta opinião, a defesa intransigente de um Ferreira Gullar ao “risco de morte”, em artigo publicado em jornal, e a adoção em seu mais novo livro, “A Noite do Meu Bem”, desta expressão por um escritor mordaz como Ruy Castro, crítico sempre ferino dos que fazem mau uso de nossa querida companheira, faz vislumbrar por quantos caminhos tortuosos vagueia nossa controvertida musa.
Outro capricho de nossa prima-dona envolve o uso de mais uma expressão que tem deixado insatisfeitos os defensores de sua imperiosa e necessária lógica. Para estes, não poderíamos ter “dois pesos e duas medidas”, mas simplesmente “um peso e duas medidas”. A polêmica poderia ganhar curso, caso a expressão não vicejasse desde tempos imemoriáveis, bíblicos, por assim dizer. Quase recorremos a um especialista em aramaico para afastar pra bem longe este embaraço injustificável.


Encerrada a conversa, inquiri aos que tinham defendido a simplicidade de nossa sábia dama, o porquê de pessoas, que se movem, comunicam e se mostram tão desenvoltas em recorrer a ela para expressar suas ideias, anseios, fascinações, acabarem por tropeçar ao tentar colocar em registro escrito seus inspirados lampejos confabulatórios. Como exemplo, citei o caso do muito falante, articulado e imbatível debatedor de mesas da Flip, Benjamin Moser. O diagnóstico sagaz não tardou a eclodir: levantaram a hipótese de o autor de “Clarice,” ter transitado em excesso pela literatura de sua biografada.


No final do encontro e no frenesi pela busca de um autógrafo para o volume de “Viva a Língua Brasileira!”, belamente ilustrado por Francisco Horta Maranhão e com capa primorosa de Alceu Chiesorin Nunes, acabou faltando tempo para conversar mais com os presentes. Com Pedro Doria, sobre a troca de um iPhone por um celular-android e ainda sobre o tenentismo. Com o quieto Ronaldo Bastos (sinal de que a poesia observa de longe estas discussões), sobre letras e a Nuvem Cigana. Com Fernando Molica, sobre a mais completa falta de decência política de que se tem notícia na história deste país. Com Mànya Millen, sobre os caminhos da literatura contemporânea. Com Heloisa Fischer (conversa que poderia ser compartilhada com o neo-erudito Dapieve) sobre a escolha de repertório de Yo-Yo Ma e Yuja Wang. E de, finalmente, dar os parabéns ao Álvaro Costa e Silva pelas colunas na prestigiada segunda página da Folha de São Paulo.




Lendo me senti lá, deve ter sido ótimo.
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Boa, Kiko. Na sua narrativa, a noite ficou ainda melhor e mais divertida.
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Bravo .Muito bom!
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Ótima crônica sobre uma noite sem igual.
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Veras, que legal a sua visita por aqui. As livrarias deveriam fazer mais este tipo de encontro que é sempre muito simpático. Que bom que você gostou da crônica. Tentei caprichar e pelo visto tudo deu certo. Saudações blogueiras.
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Cuidado, escritores e candidatos: depois dessa noite, Marcos Pedrosa não vai tolerar o menos deslize!
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