Dia 16 de Junho: Querido por Joyce e por Tantos Outros

Beth Toba Caxambu

Elizabeth e Topche Wester em São Lourenço (circa 1983)

Cada um de nós tem suas datas especiais. Para James Joyce, como todos sabem, era o dia 16 do mês de junho. Data em que conheceu sua mulher Nora Barnacle e dia em que escolheu, em função disso, para que transcorresse toda a ação de seu mais conhecido romance, “Ulysses”. É quando, em reverência a Joyce, se celebra na Irlanda e por todo o mundo o que ficou conhecido como o Bloomsday (o dia de Leopold Bloom, um dos protagonistas do romance). Para mim também é uma ocasião muito significativa porque marca a data de nascimento de minha primeira mulher, Elizabeth Wester, que estaria completando 58 anos de vida este mês. Nasceu na Casa de Saúde São Sebastião no bairro do Catete no Rio de Janeiro, filha de pais de origem polonesa.

O pai, Rachmil Wester, desembarcou no Rio com 20 anos, vindo de Varsóvia, no ano de 1933, como está registrado em seu passaporte de viagem que a família guarda até hoje. A mãe, Topche Tueiv Sperman, nasceu já no Brasil, mas de pais que haviam imigrado também da Polônia. Como além da ascendência polonesa tinham origem judaica, Rachmil e Topche acabaram se casando depois de estreitarem relações ao serem apresentados dentro da comunidade que frequentavam. Tiveram dois filhos, Elizabeth e Alberto, e, como todo imigrante sem muitos recursos, uma vida cercada de dificuldades ainda que menores do que as dos Joyce em Pula e Trieste. Moravam no bloco B de um apartamento pequeno, de quarto e sala apenas, na Tijuca. Rachmil vivia como comerciante de roupas e de trabalhos de alfaiataria.

Como ficaram órfãos do pai bem cedo, os filhos e Topche tiveram que se virar. Beth estudava no Colégio Israelita Brasileiro Scholem Aleichem, próximo de sua casa. Para dar conta de seus estudos no final de sua formação básica, obteve a ajuda daquele que era seu namorado na época, o hoje economista Sérgio Besserman Vianna. Teve uma convivência estreita com os pais e toda a família do Bussunda naquele período e foi graças ao auxílio de Sérgio Besserman, dizia, que passou para a faculdade de medicina da UERJ. Tinha, no entanto, uma missão dentro da Universidade em que ingressara, organizar e divulgar as ações e o pensamento do Partido Comunista Brasileiro a cujas ideias aderira pela proximidade com a família do namorado, toda ela de militantes esquerdistas buscando alternativas políticas durante o período da ditadura militar no Brasil.
Quem já leu Pedro Nava sabe que a aula prática de anatomia em uma faculdade de medicina é o teste de fogo que separa os quem querer ser médicos daqueles que podem de fato ser médicos. Beth foi reprova pela falta de vocação e teve que partir para a faculdade de direito da UFRJ depois de passagem pelo curso de geografia. Foi nesta época que nós nos conhecemos. Namoramos, casamos e tivemos uma vida em comum durante 25 anos até o seu falecimento no ano de 2008, de câncer.
E aqui é importante comentar algo sobre a doença, especialmente para as mulheres. Um pouco depois do falecimento de Linda McCartney, assisti certa noite na TV, o ex-Beatle comentar melancólico: “Se aparecer alguma coisa em um exame que você fizer, por mais diminuta que seja, e seu médico disser que não é nada, não acredite nele”. Alguns meses depois disso fui acompanhar a Beth em um exame em que apareceu a tal coisa diminuta mencionada por McCartney. Fomos juntos, transcorridos alguns dias, à consulta com sua ginecologista que ainda que seja excelente e bem sucedida obstetra, viemos a comprovar, não tinha experiência com ginecologia oncológica.
Quando o assunto é câncer, a questão hereditária é importantíssima como todo mundo sabe. Comentei com a médica que a mãe da Beth havia falecido de câncer de ovário e daí a nossa preocupação. A médica me assegurou que a imagem do exame era um mioma, mioma esse que virou um problema no endométrio e finalmente, três meses depois, chegou-se a conclusão que era um câncer que evoluíra até o estágio III (numa escala de I a IV). Todos ficamos obviamente irados com tamanha inépcia. O mundo veio abaixo, mas Beth era pragmática e passou com a maior bravura por todos os tratamentos, sem nunca reclamar. Além de ter uma personalidade forte, era muito corajosa e enfrentou todo aquele calvário sem em momento algum se fragilizar. Foi muito sofrimento, desde o início de 2003 e até o fim em 2008, por isso compreendo hoje perfeitamente as atitudes radicais de pessoas como Angelina Jolie. 
Houve ocasiões em que se julgava que tudo havia serenado. Numa dessas oportunidades, recebemos para um almoço a visita de Sérgio Besserman. Passamos boa parte da tarde conversando. Besserman estava apaixonado e fascinado com o sucesso de seu irmão humorista, aquela figura iconoclasta, fora dos padrões e divertidíssima com suas tiradas sempre espirituosas. Falou também sobre a amizade com os amigos do irmão e integrantes do programa “Casseta e Planeta” com quem jogava carteado toda semana, pessoas com as quais a Beth também havia convivido. Pouco tempo depois, o Bussunda partiria ainda muito novo. Dois anos em seguida a ele, a Beth nos deixaria. Ficaram os muitos anos de alegria na convivência com uma mulher inteligente, vivaz e batalhadora. Foi quem me ensinou o que é construir por conta própria sua trajetória pessoal desafiando todas as adversidades. Sempre na luta, sem nunca perder a ternura.

BETH E PEDRO copy

Beth com meu sobrinho Pedro Pinto
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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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3 Responses to Dia 16 de Junho: Querido por Joyce e por Tantos Outros

  1. Avatar de ana maria souza ana maria souza disse:

    Linda celebração filho. Muita saudade.

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  2. Avatar de analucia analucia disse:

    Além de tudo era LINDA! Obrigada por compartilhar!

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  3. Avatar de Margarida Margarida disse:

    Linda homenagem, me emocionou. Beios

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