Gripe, febre e cama são a receita perfeita para passar em revista as 26 aulas de Paul Fry apresentadas durante o correr da primavera de 2009 em seu curso de Teoria Literária na Universidade de Yale, em New Haven. Já conhecia estas palestras de Fry, mas descobri que elas foram legendadas em português pela equipe da Univesp TV, um canal de transmissão em IP que divulga aulas e produz entrevistas com vários professores universitários de estabelecimentos de ensino superior de São Paulo. Depois de recomendá-las a colegas que lecionam em classes de terceiro grau, resolvi revê-las. Ainda que o foco seja a literatura, elas valem por um ciclo básico para qualquer segmento de estudo em ciências humanas, esclarecedoras que são de todos os autores fundamentais (de Sócrates/Platão/Aristóteles a Jamenson/Said/Homi Bhabha, esbarramdo com Kant, Hegel, Marx/Engels, Saussure, Freud, Heidegger, Lacan, Foucault, Barthes e Derrida no meio do caminho) nesta vasta e imbricada área de conhecimento.
Ao acompanhar o tour de force de Paul Fry, dá pra ficar imaginando quantos anos de sua vida uma pessoa tem de dedicar a uma poltrona para passear com a fluência com que o professor de Yale o faz pelas idéias de todos estes pensadores. O curso de Fry aconteceu naquele primeiro semestre de 2009 às terças e quintas-feiras e seguia o modelo de aulas em universidades americanas. São sempre apresentadas como palestras (“lectures”). O professor fala por uma hora e os alunos apenas escutam. É uma estrutura padrão no ensino superior norte-americano, mas alguns dos professores de Yale, como se comprova em outros cursos, abrem pequenas exceções – bem pequenas mesmo. A participação do alunado vai se dar apenas com a entrega dos ensaios que têm de redigir ao fim de cada período/semestre (Fry chega a creditar, brincando, a falta de quorum em uma de suas aulas, à depressão que antecipa o deadline de entrega dos papers por parte dos alunos).
Playlist com todas as aulas de Paul Fry
Listagem dos Open Yale Courses
Aos interessados em Saussure a indicação é a oitava aula de Fry, aos entusiastas dos formalistas russos e de Roman Jakobson, a 9a., aos de Freud, a 12a., aos de Lacan, a 13a., aos de Edward Said e Homi Bhabha, a 22a.. Vamos comentar, no entanto, a segunda aula. Aquela em que Paul Fry discute um tema polêmico trabalhado por dois ensaístas brilhantes e complexos. Refiro-me a Roland Barthes e Michel Foucault, o primeiro discutido a partir de seu curto ensaio sobre “A Morte do Autor”, e o segundo comentado a partir de seu texto que problematiza “O que é um Autor?”. Ainda que de perspectivas distintas, os dois pensadores estavam colocando em xeque a figura do escritor de livros literários (foco de Barthes em suas considerações sobre Balzac) e teórico-científicos (assunto principal, mas não exclusivo de Foucault, que fala de Marx e Freud, mas faz menções também a autores ficcionais como Ann Radcliffe), em um momento histórico em que a ideia de autoridade era questionada em amplo senso (estamos próximos do maio de 1968).
As conjecturas de Barthes, mostrando a importância da participação do leitor através de sua intromissão no texto (intromissão essa, que levaria ao apagamento da pessoa do autor), seriam o assunto central do trabalho de Iser Wolfgang (comentado na quarta aula de Fry) em suas considerações sobre o papel sempre muito ativo do fruidor de uma obra. Elas podem ser bem exemplificadas com a entrevista que o pesquisador Bruno Gambarotto concedeu a Ederson Granetto no programa “Literatura Fundamental” da Univesp, em que expõe as conclusões de seus estudos sobre o “Moby Dick”, de Herman Melville (links para a entrevista e a tese de doutorado de Gambarotto, abaixo).
Tese de Gambarotto para download
A leitura de Gambarotto é no mínimo peculiar e mesmo quem conhece bem a obra máxima de Melville vai voltar ao “Moby Dick” e revisitá-lo de uma nova perspectiva. Partindo da clássica frase de abertura do romance, “Trate-me por Ishmael”, o pesquisador da USP afirma, por exemplo, acreditar que alguém que pede a um interlocutor para ser chamado por um nome bíblico pode estar querendo dizer ao seu ouvinte (ou leitor) que este Ishmael não é na verdade sua real identidade. Já li várias edições de “Moby Dick” e ouvi a belíssima leitura de Stewart Wills para o Librivox (clique aqui), sem nunca conjecturar tal hipótese. Talvez por isso e diferentemente da tradução da belíssima edição da Cosac & Naify feita por Irene Hirsch e Alexandre Barbosa de Souza, a velha tradução de Péricles Eugênio da Silva Ramos tenha optado pelo “Chamai-me Ismael” e tenha seguido adotando uma espécie de interlocução impessoal na segunda pessoa do plural, como nas cerimônias litúrgicas. Melville através de Ismael estaria nos convidando como em uma missa a participar de um rito e culto que se espraia em fartas passagens com digressões de ordem filosófica. Outros momentos do livro, como o capítulo 54 e as partes referentes às discussões na área da cetologia, voltariam segundo o pesquisador a marcar esta flutuação da figura do narrador.
Não é a única hipótese inusitada do trabalho de Gambarotto. Ele faz ainda uma leitura sociológica do romance de Melville. Escrito em seguida à guerra pela anexação de território mexicano aos Estados Unidos e antecipando a Guerra de Secessão, o livro marcaria o espírito expansionista norte-americano. A indústria da pesca baleeira, que em breve seria substituída pela indústria do petróleo (com a descoberta de poços do “ouro negro” em território americano), simbolizaria o espírito empreendedor de um país que tentava se firmar no cenário internacional. O vingativo capitão Acab representaria, em sua caça a Moby Dick, a luta pelo controle de uma ordem expansionista desafiada pela baleia branca que se recusa a ser capturada.
Será que Melville estava pensando nisto tudo? Que eu saiba, Acab era apenas um capitão fulo da vida porque Moby Dick havia levado sua perna esquerda. Portanto, certamente não, mas um livro não pertence exclusivamente a seu autor (ainda que tenha sido ele que se deu ao trabalho de sentar para redigir as suas muitas páginas). “Moby Dick” também pertence, diriam Barthes e Foucault, aos seus leitores (e, eu acrescentaria, a seus tradutores) que, com suas muitas leituras, tratam de recriá-lo.
Ps. Fiquei me perguntando: por que ainda não temos um canal de divulgação científica como este da Univesp no Rio de Janeiro e no Brasil? A TV, como já disse Sérgio Augusto, é a maior e mais importante escola do Brasil. Muito interessante também que o banco de tese da USP esteja disponível para download. De novo, as universidades do Rio de Janeiro e do Brasil seguem marcando passo.



Muito gostoso sobre Moby Dick dá vontade de ler de novo agora com novos enfoques
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