O Impedimento da Presidenta da República

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Não sei qual o deputado federal do leitor. O meu é o Alessandro Molon. Virei eleitor do Molon quando ele, ainda deputado estadual, durante uma greve de professores da Rede Pública de Ensino do Estado do Rio de Janeiro, veio se juntar ao grupo de docentes que fazia uma manifestação em frente à Alerj. De dentro da Assembléia, ele soubera que estávamos do lado de fora tendo que enfrentar a tropa de choque do governador Sérgio Cabral. Um simpático batalhão de policiais munido de cassetetes, escudos, bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha, uma forma muito cordial encontrada pelo governador para conversar.

Ontem, Molon votou contra o impeachment de Dilma Lana Rousseff e eu confesso que, sem muita convicção, fiquei ao seu lado por solidariedade e por duas outras razões. A primeira é que acho este tal de impeachment, não um golpe, mas um complô muito do vagabundo. A segunda é que, junto com Molon, estavam Chico Alencar, de quem também já fui eleitor (até ele não necessitar mais do meu voto),  Luiza Erundina, Maria do Rosário, Arlindo Chinaglia, entre outros deputados pelos quais tenho apreço e admiração. Olhava para a turma que votaria pelo sim e via Cunha, Bolsonaro-pai, Bolsonaro-filho, Feliciano, Paulinho da Força, me sentia em um filme B de Roger Corman tendo como estrela o nosso Mordomo de Fita de Terror e futuro presidente. Do grupo que votava pelo impeachment, só tinha identificação com Miro Teixeira. Foi dos poucos da ala dos que queriam o impedimento a explicar de forma decente o seu voto como pedia o ritual da votação e não a “dedicá-lo” (acho que os deputados se sentiram em uma cerimônia do Oscar) ao pai, mãe, mulher, filhos, papagaio, totozinho. Uma palhaçada sem fim em momento que exigia seriedade e compostura.

Um outro motivo a mais pelo qual estava apoiando o voto contrário ao impeachment era que sempre fui muito desconfiado sobre a posição do ensaboado PSDB.  Nos jornais de hoje, Aécio vem dizendo que vai exigir um compromisso de Temer com uma pauta específica. Entre os pontos, está o seguimento das investigações da Lava-Jato (corajoso ele que é citado em denúncias). Incriminados no processo, temos que ver qual a posição de Temer e de seu braço direito na operação impeachment, Eduardo Cunha. José Serra já desconsiderou a orientação do partido e saiu correndo dizendo que quer o Ministério da Saúde. Vai ser engraçado assistir a essas negociações.

No final das contas, não sei se gostei, mas aceitei o resultado, porque acho que o Brasil precisa dar um fim a esta briga de torcida e cuidar de assuntos práticos com esta crise recessiva mundial que está deixando pessoas desempregadas ao redor do planeta e que já colocou no olho da rua 10 milhões de brasileiros. A Dilma, em meu entender, não iria também conseguir governar pois viria um pedido de impeachment atrás do outro. Vamos ver agora qual será a qualidade do debate que vai se seguir.

Entre os jornais de hoje, o Globo fez a melhor e mais diversificada cobertura com textos assinados por colunistas com orientações variadas (da opção pró impeachment de Cora Rónai à intransigente defesa de Dilma do Veríssimo, passando pela indiferença de Gaspari), que ajudam de qualquer jeito as discussões. O Estadão destoou com um editorial que tenta satanizar o PT. É uma posição caduca, antiquada e que agride a inteligência do leitor. O Partido dos Trabalhadores ainda tem nomes importantes em seus quadros e o “fora PT” coloca em um mesmo saco pessoas de qualidades bem distintas. Não esqueçam que em outubro, Tarso Genro vai, junto com outros militantes petistas, comandar uma debandada do partido que virou uma legenda podre.

A Folha trouxe uma novidade: a volta do ponto de exclamação nos títulos. Banido há mais de meio século, fez uma inesperada reentré. Mario Sérgio Conti ajudou a dar estofo a uma cobertura que optou quase que exclusivamente pelo factual em um momento em que precisamos de debates. Discussões como a reforma política. É inacreditável que o deputado de um estado pouco populoso como Roraima, eleito com 30 mil votos, tenha peso na votação igual ao de um deputado do Rio de Janeiro, eleito com 190 mil votos. O deputado do Rio representaria uma população mais de 6 vezes maior que o de Roraima.

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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4 Responses to O Impedimento da Presidenta da República

  1. Avatar de analucia analucia disse:

    Kiko, aceito tudo, menos vc chamá-la de presidentA!!!!!

    Nem ao Lula de presidentO!

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  2. Foi uma pilhéria com o leitor e com Machado que usava o termo. E Stendhal, como vai? Bjs

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  3. Avatar de Margarida Margarida disse:

    Apesar de não concordar com você em muitas coisas, também acho que o Molon é um grande político. Não acho que devemos jogar no mesmo saco todos. A camara, para mim, representa a diversidade do país e isso é para ser dessa maneira mesmo. Me identifico com o programa do PSDB e nessa situação toda defini como meu partido, apesar de restrição a muitos de seus integrantes mas nos votos do PSDB (nos deputados) me senti representada. Para mim Bolsonaro e Eduardo Cunha são casos de polícia, de formas diferentes. Também simpatizo muito com Miro Teixeira e Chico Alencar, considero pessoas sérias. Temos também Freixo e outros então essa confusão toda no mínimo serviu para as pessoas se darem conta que a política é uma extensão da vida delas e somos sempre atingida por ela. Acho que vamos ter mais cuidado nas próximas eleições e assim o país vai amadurecendo e abandonando os salvadores da pátria. Dilma Roussef tem zero de autocrítica, é autoritária e sem o menor equilibrio emocional. A maior culpada por essa situação é ela sua postura e a arrogância também do PT que, quando oposição sempre teve uma atitude destrutiva.

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    • Lembro apenas que as muito pertinentes críticas à Dilma se aplicam também ao FHC. Por isso o que se vê é este quadro maravilhoso de políticos do PSDB (Aloysio Nunes, Otávio Leite) que são as pessoas que, com sua empáfia, o Rei Tucano tem atraído para militar em sua legenda. Por que o PSDB prefere trabalhar com o Alckmin em lugar de escolher qualquer outro nome melhorzinho da “perigosa esquerda”? Aliás, é histórica esta briga ridícula dentro do grupo de pessoas com posições que poderiam ajudar a melhorar o país. Vejamos se o playboy PSDBista e seus companheiros vão passar incólumes pelas acusações da Lava-Jato. O tempo dirá.

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