O Lacan da Lapa

           (Mais um conto do falso escritor, do anti-autor, do farsante ficcionista)

           Os amigos o aconselhavam a mudar para Ipanema, mas ele era intransigente e reagia mesmo de forma agressiva quando tocavam no assunto:

– De modo algum. Vocês devem estar todos loucos. Comecei na Lapa e vou terminar meus dias por aqui. É o bairro da bandalha, da esculhambação, da patifaria.

– Pensa bem, Demétrio – replicavam os companheiros. Na Zona Sul você estaria deitando e rolando, ganhando os tubos, botando dinheiro pelo ladrão e trabalhando na santa paz do Senhor. As grã-finas, bem tratadas, bem vestidas, frugais, fariam fila na porta de seu consultório e pagariam até por meia hora de sua atenção.

– Pode até ser, mas não troco a variedade da minha clientela de libertinas e devassas por nada nesse mundo. E de mais a mais, alguém necessita dar continuidade nesta redondeza ao trabalho pioneiro do Lorival Pestana.

            Entre parêntesis: Lorival Pestana era um amigo pederasta e espécie de guru de Demétrio. Já falecido, começara cedo quando a psicanálise dava seus primeiros passos no Brasil. Estabeleceu seu consultório na rua de Matacavalos, quer dizer, do Riachuelo, e chegou a conhecer figuras legendárias como o Madame Satã, ou por extenso como nos cartões de visita: João Francisco dos Santos. Quem esteve em seu consultório durante uma passagem pelo Rio de Janeiro foi ninguém menos que o filósofo Michel Foucault. Lorival iria revelar ao mundo um detalhe importantíssimo que consta da biografia do iminente pensador francês. Seu gosto pelas cuecas de oncinha. Fecha parêntesis.

          Por estas e outras, seguia o nosso charlacanista com suas convicções inabaláveis. Antes de clinicar, se dedicou a fundo ao estudo da psicanálise. Possuía diplomas de cursos com carimbo de tudo quanto é canto: Viena, Paris, Zurique. Todos feitos por correspondência, bem entendido. Em sua prática, tinha predileção exclusiva por atender ao sexo feminino. Quando aparecia algum homem querendo marcar uma consulta, recomendava logo que procurasse um de seus muitos colegas renomados.

            No bar com os amigos, ele compartilhava, sem cerimônia alguma, suas aventuras vividas em anos de dedicação à sua clínica só para mulheres. Como um caso inesperado com o qual andava se ocupando recentemente e que só estava atendendo por obrigação profissional. Acostumado apenas com a sua muito peculiar clientela, ele estranhou quando apareceu por lá uma dama muito chique, dessas da alta sociedade. Confidenciou contrariado aos amigos:

– Vocês não podem imaginar, senhores, estava esperando que surgisse mais um caso complicado: uma transexual indecisa, uma prostituta desiludida, uma lésbica com alguma tara e me aparece essa grã-fina fricoteira. A psicanálise foi feita apenas para cuidar de casos escabrosos, não temos tempo para perfumaria.

              A grã-fina procurara o doutor Demétrio por força e insistência de suas amigas. Nunca pensara em buscar alguma ajuda para o seu caso, mas amigas, como a Climéria, não cansavam de repetir:

– A psicanálise voltou com tudo, será que você não percebeu o óbvio ululante? Pode ir que é batata. Vai acabar com todas as suas dúvidas e apreensões.

A grã-fina pensou consigo mesma e conclui um pouco desanimada: “É, vai ver que é isso mesmo”.

Não queria que ninguém soubesse e foi assim procurar atendimento bem longe de sua vizinhança. Chegara atrás dos serviços do doutor Demétrio porque vira um anúncio de jornal, anúncio este que era publicado regularmente num tabloide vagabundo. No consultório caindo aos pedaços, ela surgiu toda alinhada em uma roupa muito elegante, com sapato de salto alto e uma bolsa, tudo combinando na cor bege. Apresentou-se proferindo com ênfase seu nome completo: Marisa Letícia Ruth da Nóbrega. Pediu de forma extremamente educada, e com certa inibição, para entrar, sentou-se e perguntou se poderia acender um cigarro.

– Aqui a cliente pode tudo – respondeu o doutor e complementou em seu habitual falar escrachado. Afinal de contas, minha senhora, estamos na Lapa, oras.

– Muito agradecida, disse nossa cliente ainda sem graça e constrangida com o ambiente decadente daquele consultório.

          Puxou então sua carteira dourada e pegou o primeiro dos muitos cigarros que fumaria naquele final de tarde. Tinha chegado no encerramento do expediente e pedira toda a discrição possível.

– Ninguém pode nem imaginar que estive aqui, senhor Demétrio, guarde tudo em segredo como recomenda a ética médica – disse aflita.

            Mal sabia ela que tudo o que se passava entre aquelas quatro paredes, coisas nunca jamais imaginadas pelos piores pornógrafos do planeta, era compartilhado com toda fanfarrice e às gargalhadas em lugares públicos pelo Lacan da Lapa, o apelido que nosso protagonista ganhou de seu círculo de amigos. Quando ele aparecia para a cerveja religiosa que compartilhava toda semana com seus amigos, seus companheiro e entusiastas, soltavam logo a blague:

–  Lá vem o Lacan da Lapa. Hoje temos assunto para a noite inteira.

              Diante das palavras amenas e encorajadoras do doutor Demétrio, no entanto, a dama chique se sentiu segura, não hesitou e foi direto ao assunto:

– O problema é meu marido, doutor.

            A frase pegou nosso charlacanista de surpresa. Ele pensou um pouco, em uma de suas conhecidas e longas pausas de silêncio, e acabou decidindo improvisar uma fala que fugia totalmente ao seu script de trabalho:

– Não és a única, dona Marisa Letícia…

– Ruth da Nóbrega, completou a paciente.

– Ah, sim, Ruth da Nóbrega, repetiu o doutor. Pois pode a senhora acreditar no que vou lhe dizer: quase a totalidade das clientes que deitam naquele divã que podemos ver ali, o fazem por causa de seus maridos. São todos uns canalhas, uns crápulas, uns cafajestes. Vamos tratar de resolver o seu problema rapidamente.

– Ele pensa que me engana, mas eu sei de tudo. Já tive a chance de checar as chamadas em seu celular. Está cheio de números de telefones das maiores pilantras, vagabundas, meretrizes. Isso mesmo, meretrizes. Só mulheres ordinárias, todas se oferecendo a troco de nada. Outro dia, ele passou horas conversando com uma sirigaita na maior cara de pau e eu tendo que ouvir a tudo. Aposto que elas enviam selfies nus e que o levam para um motel qualquer.

            Depois de ouvir aquela ladainha, muito contrariado, Demétrio preferiu ser direto com sua cliente endinheirada:

– Bom, minha senhora, estou preocupado com sua aflição. Queria, entretanto, deixar algo claro desde o início. Esta aqui não é exatamente uma agência de detetives. Esta é exclusivamente uma clínica terapêutica. Entenda, por favor.

– Me desculpe, doutor, é que me descontrolo ao falar sobre o assunto.

             Ingênua, ela quis então saber como tudo funcionava e nosso psicanalista, vendo que não haveria como se livra da grã-fina, resolveu ir em frente com o tratamento.

– É fácil, vamos começar agora mesmo. Basta que a senhora se deite naquele divã, tire os sapatos, relaxe e me conte tudo nos mínimos pormenores sobre sua vida. Esqueça o seu marido. Fale-me dos seus sonhos, desejos e fantasias não realizadas. Quero saber cada detalhe sobre essa alma combalida e atormentada.

            E assim não demorou mais do que três sessões para que o doutor Demétrio, seguindo o método de trabalho do qual não conseguia fugir, estivesse fazendo e acontecendo, pintando e bordando, com sua nova cliente. Era o mesmo que se dava com a grande maioria de sua clientela, às escancaradas, com as cortinas abertas e sem nenhum embaraço por parte daquele investigador de almas. Um vizinho, que se habituara a observar tudo pela janela, pensava consigo: “Então é essa bandalheira que chamam de psicanálise? E a paciente ainda paga por esse serviço? Valha-me Deus, isso é um caso de polícia”.

            Depois de dois meses de terapia, a grã-fina já nem lembrava mais do marido. Tinha reservado as quartas-feiras, um dia da semana acima de qualquer suspeita e com sua áurea de inocência, para as suas sessões com o doutor Demétrio.

         Um dia chegou ao prédio mais cedo do que devia para sua consulta. Quando isso acontecia, ficava sempre fazendo hora passeando pelos arredores. Algumas vezes aproveitou para ir até o relógio da Glória. Sonhadora, olhava para aquele marco da cidade e imaginava o que o tempo havia contemplado: crimes, atropelamentos, suicídios. Desta feita, no entanto, já mais desinibida e à vontade, resolveu subir logo ainda que não fosse o seu horário. Foi quando avistou saindo da sala de consultas do doutor Demétrio um tipo vulgar ainda arrumando a roupa um pouco amassada, retocando o batom e ajeitando o cabelo. Ficou chateada com o que viu e resolveu interpelar o psicanalista.

– Que belo papel, hein Demétrio? Venho aqui para esquecer o pilantra do meu marido e em busca de conforto com alguém de confiança e olha o que você me apronta. Quem é essa ordinária que acabou de sair daqui?

– Quem, a Josicleide? Não fale assim dela, é um doce de pessoa.

– Doce de pessoa, uma ova. Vocês estavam é se atracando aqui dentro.

– Calma, meu anjo, não precisa se irritar tanto. Com o papai aqui tem para todas e nunca vai faltar nada para ninguém. Não vejo motivo para vocês se estranharem.

            A grã-fina saiu indignada, cuspindo marimbondo. Daí a uma semana retornou no horário de sua consulta. Quando Demétrio abriu a porta, ela não teve dúvida, muito senhora de si, tirou da bolsa o revólver e descarregou os cinco tiros à queima roupa. Virou as costas e saiu gritando para que todo o prédio ouvisse:

– Canalhas, patifes, calhordas.

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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2 Responses to O Lacan da Lapa

  1. Avatar de Leo Almeida Leo Almeida disse:

    Muito bacana, Marcos. Uma história plena do humor sacana de Nelson Rodrigues. Show!

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  2. Avatar de Arthur Dapieve Arthur Dapieve disse:

    Desde já inesquecível o Lacan da Lapa.

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