José Carlos Avellar – A Sétima Arte sob o Olhar de um dos seus Grandes Críticos

Captura de tela inteira 24032016 070552Os jornais hoje vivem de manchetes e delas quase que exclusivamente. Em uma hora no máximo, somos capazes de dar conta de uma edição cuja leitura antigamente podia se estender por toda uma tarde, quiça por por todo um dia, como costumava acontecer aos domingos. Estas mudanças começaram a acontecer no final da década de 1980. O jornal em preto e branco foi aos poucos incorporando cores às suas edições, as fotos ganharam proeminência, o tamanho do tipo de letra impressa foi aumentado, e os extensos textos passaram a ser substituídos por matéria jornalística curta e resumida em função do pouco espaço dedicado a cada repórter/jornalista/crítico. Era o começo da proliferação de colunas sociais e políticas feitas quase que exclusivamente com fotos e notas.

Todas as seções sofreram indiscriminadamente com estas mudanças. Mas a morte de José Carlos Avellar nos faz lembrar como as críticas cinematográficas já foram um dia feitas com digressões caudalosas. Avellar preparava resenhas de filmes para as edições de dias ingratos e menos nobres como as segundas e terças-feiras, mas tinha todo o espaço do mundo para escrever o que quisesse. Suas extensas críticas no Caderno B do Jornal do Brasil eram a garantia de que teríamos com o que nos entreter em dias em que as seções de cultura eram mais comedidas em comparação com as volumosas edições do fim-de-semana. Não fazia ideia de que antes de começar a lê-lo, o crítico, ensaísta e professor carioca chegou a escrever, à época em que deu início a sua carreira assinando resenhas como crítico interino do JB, textos publicados em duas partes. Algo impensável nos cadernos culturais dos dias de hoje.

Por entender de técnicas cinematográficas, uma vez que era também um realizador, associava seu conhecimento prático à sua formação teórica e conseguia com isto dar tratamento crítico único às resenhas. José Carlos Avellar sabia explorar como poucos a dimensão mais profunda da experiência fílmica. Certamente impressionado com as características onírica dos filmes de um Buñuel, de um Fellini, de um Bergman, ou o oposto, estimulado pelo neo-realismo italiano de um Vitório De Cica, de um Rossellini, de um Visconti, procurava retratar por contraste, em suas críticas, o que podemos experimentar quando nos reclinamos nestes espaços entre o sonho e a realidade que são as salas escuras dos cinemas. Isto numa época em que as salas de projeção preservavam seu clima de culto, resguardadas das luzes inoportunas e intrometidas dos celulares.

Além da carreira de crítico, ele tratou de cuidar da memória do cinema, trabalhando na Cinemateca do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, e apostou em novos e conhecidos realizadores comandando primeiro a Embrafilme e, posteriormente, a Riofilme. Mais recentemente atuava como programador da sala de cinema do Instituto Moreira Salles, onde também reunia e mediava conversas com cineastas, jornalistas e críticos. Seguia também publicando resenhas no blogue escrevercinema na Internet (clique aqui).

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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1 Response to José Carlos Avellar – A Sétima Arte sob o Olhar de um dos seus Grandes Críticos

  1. Avatar de Margarida Margarida disse:

    Lembro muito das críticas dele, considerava o que ele falasse sobre um filme o que, infelizmente, hoje não acontece. Os críticos que fazem resenhas nos jornais são bem primários.

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