Ainda sobre Umberto Eco…

Captura de tela inteira 09032016 213601Alguns textos preparados para este blogue acabam não sendo postados por razões variadas. É o caso da passagem abaixo que fica como mais um gesto de homenagem ao escritor Umberto Eco, especialmente a seu romance A Misteriosa Chama da Rainha Loana, a seu gosto por enciclopédias e sua mania de colecionar velharias e obras raras (o que começou a poder fazer, como relatou certa vez, depois de ganhar muito dinheiro com O Nome da Rosa).

A Wikipédia não cansa de nos servir e parece mesmo fadada a não perder seu status de fonte de difusão de conhecimento da qual a vida online jamais poderá prescindir. Antes do seu aparecimento em 2001, fato que ficamos sabendo consultando a própria Wikipédia, no entanto, os estudantes do mundo todo viviam na dependência das enciclopédias tradicionais com seus pesados volumes. Para o aluno brasileiro da década de 1970, duas tiveram importância fundamental: a Barsa e a Delta-Larousse. Foi através do confronto, da paráfrase, ou da mera cópia, dessas duas obras de referência, que muitos trabalhos escolares foram escritos.

Hoje, parece claro que a elaboração de um saber enciclopédico em volume impresso teria dificuldade de competir com a construção desse mesmo saber de forma colaborativa em ambiente digital com um número incontável de pessoas envolvidas. Um ponto de desvantagem para as enciclopédias geradas na rede mundial de computadores é que elas não passam necessariamente pelo crivo do juízo de pessoas qualificadas como um Antonio Houaiss, um Otto Maria Carpeaux, nomes que deram tratamento único aos verbetes das primeiras enciclopédias lançadas no Brasil. Além disso, há a questão da credibilidade do que é comunicado. Dilma Rousseff, por exemplo, divulgou durante um bom tempo na Wikipédia informações incorretas sobre sua trajetória pessoal, sem problema algum. Até o assunto se transformar em um escândalo.

As enciclopédias impressas tiveram no Brasil da década de 1990 um renascimento por conta de sua associação com nossos jornais como produto de marketing. Em 1996, o jornal Folha de São Paulo traduziu e lançou como encarte de suas edições de domingo os fascículos da “Nova Enciclopédia Ilustrada Folha” (tradução adaptada para a realidade brasileira da “The Oxford Illustrated Encyclopedia”). Muita gente adquiriu esses fascículos que depois eram encadernados através de serviço oferecido pela empresa Folha da Manhã junto às bancas de jornal para os colecionadores dos encartes. Perfizeram dois tomos e vieram em seguida ao lançamento em esquema semelhante do “Novo Dicionário Básico da Língua Portuguesa – Folha Aurélio”, nos anos de 1994 e 1995. Ambas eram estratégias para aumentar a vendagem do jornal aos domingos, o que de fato aconteceu. Essa estratégia seria repetida por todos os jornais brasileiros e se desdobraria em outras jogadas de marketing semelhantes com a comercialização de fitas cassetes, cds, dvds, livros.

Há um ensaio muito interessante de Umberto Eco que contrasta as duas formas de conhecimento que orientam um saber enciclopédico e um saber dicionarizado. O autor do romance Número Zero, em um estudo teórico de 1986, examina o que diferenciaria essas duas maneiras de construção de conhecimento. Eco diz que o dicionário trabalha com um saber redundante e a enciclopédia, por outro lado, com um saber que se perde em um labirinto. O que nos levaria talvez a pensar que os dicionários não passam na verdade de enciclopédias empobrecidas. Pode-se, no entanto, supor justamente o oposto e achar que os dicionários são extremamente refinados em sua especificidade.

De qualquer jeito, os dicionários operam em redundância permanente, a partir da sinonímia, da antonímia, da hiperonímia e da hiponímia das palavras. A utilidade dos dicionários é, em função disso, dependente das culturas que os geraram. Sem um conhecimento prévio da sinonímia, antonímia, hiperonímia e hiponímia dos vocábulos de um idioma específico, a utilidade do dicionário se perde.

O termo “enciclopédia” quer dizer “educação circular” ou “conhecimento geral”, nos diz de novo a Wikipédia. O verbete segue nos informando que elas foram desenvolvidas a partir dos dicionários no século XVIII. São, portanto, posteriores a eles, cronologicamente falando. No Brasil, os nomes de Aurélio Buarque de Hollanda e Antonio Houaiss acabaram associados aos dicionários que produziram ajudados sempre por uma equipe grande de entendidos, deve-se salientar. Aurélio foi o primeiro e dedicou sua vida inteira ao trabalho de lexicógrafo. Seu nome virou mesmo um sinônimo de dicionário durante um bom tempo no Brasil. Antonio Houaiss incursionou de início pelo mundo do conhecimento enciclopédico para só depois se dedicar ao registro e a datação de palavras. Foi levado a esses dois projetos pelo empresário de origem judaica Abraham Koogan que financiou a enciclopédia Delta-Larousse em sua versão brasileira e o dicionário Koogan-Houaiss. Nos armários da minha infância/adolescência as enciclopédias Barsa e Larousse repousavam aguardando as demandas das tarefas escolares. Junto a elas, estava uma outra e mais importante coleção. Trata-se da “Great Books of the Western World”, da enciclopédia Britânica, com seleção dos textos mais importantes de todos os pensadores e escritores fundamentais para a formação de qualquer pessoa.

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Ela chegou em seguida à Barsa e à Delta-Larousse e veio, pelo que me lembro, como cortesia. Seus muitos tomos ficaram envelopados em papel celofane, esquecidos e preservados durante anos do risco da poeira e da humidade. Quando descobri, já na fase universitária, a coleção intocada, não acreditei. Tomos com os escritos de Platão, Aristóteles, Copérnico, Newton, Kant, Hegel, Marx, Freud, Cervantes, Shakespeare, Dante, Goethe (a lista é bem grande), estavam todos lá sem que ninguém tivesse dado qualquer atenção a eles. A biblioteca do Ibeu de Copacabana tinha uma coleção da Britânica. No sebo da Faculdade de Letras da UFRJ podia se ver uma outra malcuidada edição por um preço exorbitante. Daniel Piza contou certa vez como adquiriu a sua coleção em um sebo em São Paulo e ao chegar em casa teve ainda que dar um bom trato, lixando e reparando alguns volumes. Em tempo: no Brasil, a editora Abril lançou a série “Os Pensadores” e a Nova Cultural, a “Coleção Obras Primas”, que lembram a iniciativa da Britânica.

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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2 Responses to Ainda sobre Umberto Eco…

  1. Avatar de ilduara silveira ilduara silveira disse:

    “Umberto Eco que contrasta as duas formas de conhecimento que orientam um saber enciclopédico e um saber dicionarizado. O autor do romance Número Zero, em um estudo teórico de 1986, examina o que diferenciaria essas duas maneiras de construção de conhecimento”. Por favor, que estudo teórico é esse?

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    • Olá, Ilduara, tomei conhecimento desta discussão pelo livro “Semiotics and the Philosophy of Language” (Indiana University Press, 1986). Parece que há a edição em português pela editora Instituto Piaget como “Semiótica e a Filosofia da Linguagem”. Abraço

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