Roland Barthes, Costa Lima e as Teorias literárias

João Ubaldo tinha horror a teorias literárias, dizia que em sua casa a discussão era de interesse exclusivo de sua mulher. Achava o assunto enfadonho. Quando era perguntado sobre seu método de trabalho, costumava recorrer à velha blague para lançar por terra qualquer sinal de elaboração e justificativa maior para orientar sua prática de romancista. Afirmava que seus romances eram criados de modo muito simples: primeiro, dava um nome a figura do seu protagonista e, depois, tratava de sair correndo atrás dele.

Os livros teóricos são na verdade tão engenhosos quanto qualquer romance, têm seus encantos particulares e um público de fascinados leitores, entre os quais me incluo. É claro que como em tudo, e até mesmos nos escritos ficcionais, há os seus excessos. Falemos portanto de dois autores que se mantêm na tensão entre a extrema e salutar erudição e o incompreensível exagero academicista.
Em meados do século passado, a moda das grandes teorias que tudo explicam seguia em plena voga e tínhamos pensadores em muitas áreas querendo estabelecer uma nova e inédita perspectiva teórica para dar conta de qualquer coisa. Algumas teorias daquele período ainda se sustentam hoje com o endosso de muitos estudiosos, como a postulação de Stephen Hawking de que o universo se iniciou com um Big Bang.
Muito particularmente, e ainda que seja bem embasada a teoria de Hawking, não acredito que tudo o que exista tenha algum dia se contraído até a dimensão diminuta de uma bola de golfe para em seguida passar pelo processo de uma grande expansão que gerou todo o universo. Sei que está tudo profundamente fundamentado, mas o bom senso, e o senso comum, imagino, não se deixam convencer. A discussão no entanto não é Hawking, mas dois outros teóricos seus contemporâneos que dedicaram seu tempo à análise literária, um campo mais movediço do que às áreas de conhecimento das tão cultuadas e precisas ciências exatas. Refiro-me a Roland Barthes e Luiz Costa Lima.
Hoje, na Casa do Saber, na Lagoa no Rio de janeiro, teremos o depoimento de Ana Maria Machado sobre o professor do Collège de France, de quem a escritora foi aluna. A conversa será mediada por Beatriz Resende, professora do meu doutorado em Ciência da Literatura na UFRJ e, não estivesse em Búzios, iria acompanhar a conversa para ouvir mais sobre Roland Barthes.
Ele merece esse tipo de reverência. Em sua aula inaugural no Collège de France, quando assumiu a cadeira de Semiologia Literária em 1977, Barthes disse algo muito inspirado e com aquela naturalidade dos intelectuais sem pose. Falou que a sua entrada para o Collège de France, orquestrada pelo amigo Michel Foucault, talvez não tivesse amparo no percurso de alguém que só tinha o título universitário, já a alegria por estar naquele centro de excelência, por onde os mais importantes nomes da intelectualidade francesa haviam passado, era para ele motivo do mais justificado júbilo.
Barthes sempre teve uma escrita classuda, que dispensava qualquer título comprobatório, mesmo quando se aventurava por caminhos problemáticos. A questão é que tanto ele quanto Luiz Costa Lima viveram no período em que a (para alguns santa, para outros maldita) praga do pensamento estruturalista dominava as universidades de todo o planeta. Foram assim contaminados pela tentativa de busca de um explicação geral que desse conta de tudo.  São, porém, tentativas inventivas e algumas resistem, em alguns de seus aspectos, bravamente ao tempo.
Peguemos, por exemplo, dois livros de Barthes: o Mitologias e o S/Z. Escritos de forma muito criativa, o primeiro trata das “mitologias” presentes naquele momento da história contemporânea (os anos de 1950/60enquanto o segundo  procede a uma análise da novela “Sarrasine”, de Balzac. Ambos pecam, no entanto. Mitologias menos, explorarando, ainda que em um espectro intersemióitco, o que depois ficaria conhecido como intertextualidade (o que não deixou de ser uma análise inovadora naquele momento); já S/Z se mostra malsucedido em ganhar o leitor por conta do modelo críptico de sua organização interna que pouco ajuda as muito interessantes observações que Barthes faz sobre a inventiva novela balzaquiana.
Com Luiz Costa Lima temos um exemplo correlato. Seus livros são um show de erudição, preparados por alguém que conseguiu ler com gosto ficção, filosofia, sociologia e as mais fundamentais obras humanistas. A tentativa porém de nos convencer de que houve um certo “controle do imaginário” que cerceou a criação literária é que é questionável. Se existe um espaço em que a censura pode até coibir legalmente, mas não consegue se meter e causar inibição, é o da criação artística. O próprio autor, no percurso das perto de 1.500 páginas que dedicou ao assunto, parece em muitos momentos lutando para se convencer de sua própria tese. Não tivéssemos pelo meio do caminho descidas a detalhes de obras ficcionais geniais e pararíamos antes de concluir sua leitura.

Além do estofo com que trabalha seus ensaios/livros, o que aprecio nos estudos de Luiz Costa Lima é que eles sempre se encerravam com o registro do lugar em que foram escritos ou concluídos. E este lugar era muitas vezes a cidade de Armação dos Búzios. Cidade inspiradora para se voltar a estes dois críticos e suas obras mirando, do jardim da pousada que atende pelo nome de Le Relais La Borie, a bela praia de Geribá.

Writer Roland Barthes
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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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1 Response to Roland Barthes, Costa Lima e as Teorias literárias

  1. Avatar de Leo Almeida Leo Almeida disse:

    Muito boa a sua crítica. Embora não seja um grande leitor de nenhum dos autores, tenho a impressão de que a erudição do brasileiro acaba, mal trabalhada pelo próprio, em matéria chatissima, pra nso dizer intragável. O francês escreve melhor, tem uma prosa gostosa de se ler e, embora tão erudito quanto o nosso Luiz, escapa da armadilha da chatura.

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