Notícias de Dezembro e a Chegada do Ano-Bom

Captura de tela inteira 31122015 084907IMG_0565-001Ninguém tinha medo, nem de sol, nem de praia. Nem a Flora Süssekind, nem o Caetano Veloso, nem o Eduardo Mascharenhas, nem a Patrícia Kogut, nem o Hermano Vianna, nem o Bernardo Carvalho, que estaria embarcando em breve para enfrentar as temperaturas glaciais de Nova York, nem o Herbert Vianna, louco de vontade de voltar pra casa pra registrar uma melodia no seu Casiotone, nem o Bussunda, nem o Hélio de la Peña, nem os outros Cassetas. Quanto à botafoguense Maitê Proença, não saberia dizer. Ela nunca passou por lá.

Foi a Leila Maia, no entanto, que chegou ao posto 9 com a notícia de que tinham matado o John Lennon. A partir de então fui cultivando a impressão, a cada fim de ano subsequente, de que dezembro sempre vem com alguma notícia ruim. Cheguei a enumerar vários incidentes brutais que marcaram esse mês, mas como, ainda que não seja supersticioso, tenho lá minhas superstições, deixei a tarefa de lado e trato de endereçá-la aos que tiverem interesse neste passatempo mórbido. Mesmo porque veio aquela voz interior a repetir: “Cala a boca, Batista. Cala a boca, Batista”.

Tentei me convencer também que talvez esse não seja necessariamente o caso. Coisas terríveis se repetem em todos os meses de maneira indiscriminada. E qualquer retrospectiva nos mostra o número de fatos tenebrosos que tivemos ao longo de 2015. Ocorre, entretanto, que o que acontece em dezembro acaba ficando especialmente marcados em nós por ser este um momento de confraternização e que deveria (obrigatoriamente) permanecer intocado.

Este ano tivemos, por exemplo, o incêndio que consumiu por completo o Museu da Língua Portuguesa em São Paulo. Mais um indício, na cabeça agorenta, da maldição de dezembro. Antes de encarar a notícia como uma tragédia inesperada, pareceu, a bem da verdade, um descalabro dos responsáveis por manter aquele espaço. Tive a oportunidade de fazer duas visitas ao Museu. A primeira por ocasião de uma belíssima exposição dedicada a Fernando Pessoa em 2010. Em novembro passado, tratei de retornar com o maior entusiasmo para conferir a homenagem a Luís da Câmara Cascudo. Foi, no entanto, uma grandicíssima decepção. Vi uma exposição sem graça e que não comunicava quase nada sobre a obra do folclorista.

Se a exposição temporária deste ano no primeiro piso não chegou a impressionar (se salvaram apenas algumas bonitas imagens, reprodução de fotos de Câmara Cascudo), a apresentação permanente de poesia em um anfiteatro no terceiro e último andar foi um momento de epifania. Não tinha assistido a essa espécie de recital poético na primeira vez em que lá estive. Não sei, portanto, se foi  acrescentada há pouco tempo.

Eram trechos muito bem selecionados de poemas (Camões, Gregório de Matos, Drummond, Vinícius, Manuel Bandeira), de textos em prosa (Clarice Lispector, Nelson Rodrigues, Oswald e Mario de Andrade) e de fragmentos de músicas (Noel Rosa, Emicida), acompanhados por projetações que exploram a materialidade das palavras. Enquanto eram lidas, recitadas, cantadas, pelas vozes possantes de Arnaldo Antunes, Zélia Duncan, Paulo José, Maria Bethânia, Chico Buarque, Bete Coelho e um elenco de primeira, elas surgiam aleatoriamente no teto, nas paredes e no chão. Parece que tínhamos três destes recitais que se alternavam ao longo do dia.

Trabalho muito bem feito com concepção visual arrojada de Marcello Dantas, que de empreendedor da saudosa sala Magnetoscópio se transformou em curador artístico renomado, e direção musical de José Miguel Wisnik e Arthur Nestrovski. A projeção acontecia no galpão que chamavam de Praça da Língua e que foi reduzido a cinzas como mostraram as imagens das chamas que consumiram vorazmente toda a estrutura interna do edifício da Estação da Luz.

Uma pena ter de esperar a reconstrução do Museu que, com a dívida que assola todos os Estados, deve demorar para acontecer, para que possamos viver experiência tão estimulante e voltarmos a fruir alguma exposição temporária mais inspirada. O passeio a São Paulo tinha como roteiro ainda a passagem pela Casa de Mario de Andrade, recentemente reinaugurada. Queria conhecer o sobradinho em que o escritor residiu boa parte de sua vida. No site na Internet, somos informados que a Casa da rua Lopes Chaves, na Barra Funda, fica aberta à visitação aos sábados, mas isso não se confirmou na prática. Tive que contemplar tudo do lado de fora. Aos que se interessarem em ir conhecê-la em um sábado, aconselho que liguem se informando se a Casa de Mario estará aberta para visitação.

O melhor de ir a São Paulo é voltar para o Rio de Janeiro e ver com outros olhos como essa cidade é realmente, e apesar dos pesares, qualquer coisa de muito especial (não há nenhum bairrismo nisso porque sou nascido em Lages, Santa Catarina). Dá pra entender assim por que temos tantos paulistas passeando por aqui na expectativa pelo Réveillon deste ano. Nós vamos pra lá em busca de programas culturais. Eles baixam por aqui em busca de alguma das paisagens arrebatadoras e da festa da virada que é infinitamente mais bonita na Cidade Maravilhosa.

Aproveito o finalzinho da postagem para desejar aos amiguinhos e amiguinhas, leitores e leitoras, um 2016 com tudibom, como dizia o Rogério Durst, colega de trampo jornalístico, muito querido, que se foi em abril, bem no comecinho do ano, tendo completado apenas 54 voltas de vida ao redor do sol.

feliz 2016

Avatar de Desconhecido

About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
Esta entrada foi publicada em Mário de Andrade, Museu da Língua Portuguesa. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

1 Response to Notícias de Dezembro e a Chegada do Ano-Bom

  1. Avatar de Margarida Souza Margarida Souza disse:

    Vamos pedir um 2016 mais tranquilo

    Curtir

Deixe um comentário