MozCult – Mémorias com o Último Rockstar Internacional

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All over this town
Yes, a low wind may blow
And I can see through everybody’s clothes
With no reason
To hide these words, I feel
And no reason
To talk about the books I read
But still, I do, That’s ‘cause I’m a…
Sister I’m a…
All over this town

Link para a vinheta do programa “60 Minutos de Música Contemporânea” (clique aqui)

Aproveitando a recente passagem de Stephen Patrick Morrissey pelo país, vamos a um apanhado sobre os livros que têm se dedicado a comentar o percurso do muito querido cantor, compositor, letrista. Alguém que vem há mais de 30 anos fazendo a trilha sonora da vida de muita gente. Como se Moz tivesse sido incumbido de dar sentido a cada momento, cada passagem, cada acontecimento de nossas existências. A poesia desempenha inocentemente essa função e o letrista/cantor encarna o papel de alguém que espelha as aflições, anseios, expectativas, de nossas pobres animas.

Morrissey – Autobiography (copyright de 2011 da Whores in Retirement, editada, em 2013, pela Penguin; inédita no Brasil), com o crivo imponente e inesperado da Penguin Classics, selo que costuma ser reservado apenas para obras consagradas, era a tão aguardada autobiografia que o ex-frontman dos Smiths vinha prometendo há um bom tempo. Através dela, descobrimos que Morrissey recorria, da mesma maneira como seus fãs fazem agora, à música de seus artistas favoritos para fazer a apropriação das condutas, atitudes, posturas (ou poses, afetações, fingimentos, como queiram) de seus cantores e bandas prediletos.

Ficamos sabendo assim que ele idolatrava, de maneira idêntica a forma como é idolatrado hoje, os mesmos grupos que a juventude carioca, criada no começo dos anos 70, venerava. Meu avô paterno, que ficou viúvo ainda na casa dos 50 anos e vivia com sua única irmã em Ipanema, gravava para o seu neto, sempre que solicitado e com o maior gosto, as edições (às 15h, de segundo a sexta) do “60 Minutos de Música Contemporânea”. Um programa da rádio JB AM apresentado pelas vozes de Sérgio Chapelin, Orlando de Souza e Eliakin Araújo e onde se ouvia em primeira mão os novos discos de Marc Bolan, David Bowie, New York Dolls e de outros artistas que salvavam os modorrentos dias de Moz em Manchester. Para nós, o New York Dolls era mais uma banda com gente fantasiada, como o Kiss. Para Moz, eles eram a banda. Embora todos, inclusive Moz, soubéssemos que, por estranho que possa parecer, a pinta de boneca deles nada mais era do que artifício para impressionar as fãs.

Além de ir para a fila do gargarejo nos shows de Ramones, Patti Smith, Iggy Pop, Lou Reed, Morrissey marcava ponto na porta de teatros e hotéis atrás de algum contato com seus artistas favoritos.  De Marc Bolan, ele se aproximou no lobby do hotel Midland em Manchester. Para um sofrido pedido de “Será que você me daria um autógrafo?”, teve de ouvir a resposta negativa: “Ah, não”. Na porta da casa de espetáculo Stretford Hardrock, ele teve mais sorte com Ziggy Stardust. De salto alto e roupa lamê, Bowie desembarcou de uma Mercedez preta ao meio-dia e o jovem Moz conseguiu, ainda vestindo o uniforme de escola, tocar a mão e passar um bilhete para seu ídolo sem poder sonhar que anos depois os dois se aproximariam. Em uma de suas temporadas de férias na casa de uma amiga de sua mãe em Staten Island, Nova York, ele foi ao CBGB onde se apresentava uma banda que desconheço, Sparks. Gostava dos irmãos Mael e fez uma foto com Russell na porta do clube cult nova-iorquino.

Depois de ter tentado parceria com Billy Duffy, futuro guitarrista do (Theatre of Hate, Southern Death Cult e, finalmente,) The Cult, Morrissey começou a compor com um outro instrumentista que Duffy indicara como muito mais talentoso do que ele próprio, Johnny Marr. Marr trouxe Mike Joyce e Andy Rourke e assim nasceu os Smiths.

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As capas conceituais dos singles dos Smiths, com fotos que iam do fisioculturista George O´Mara (“Hand in Glove”), tirada de um livro de nu masculino, ao de Viv Nicholson (“Heaven Knows I am Miserable Now”), famosa por afirmar que iria “gastar, gastar, gastar”, quando o marido ganhou na loteria na Inglaterra dos anos 60, passando por atores (Jean Marais, Terence Stamp, Richard Bradford), atrizes (Pat Phoenix, Yootha Joyce, Candy Darling), escritor (Truman Capote) e cantor (Elvis Presley) 

Uma de minhas irmãs e meu irmão viram o que não tive o prazer de presenciar. Uma apresentação do início da  carreira dos Smiths, em 24 de julho de 1983 no Hammersmith Palais (antológica casa de shows em Londres que já não existe). Os Smiths estavam abrindo o concerto dos Altered Images, ao lado de outra banda que, como os Altered Images, despontaria para o anonimato, Roman Holliday. Só tinham gravado uma única música, “Hand in Glove”, lançada como um compacto em maio de 1983. “This Charming Man” era a composição nova do repertório do grupo e, editada em novembro daquele ano, viraria outro dos clássicos eternos dos Smiths. Continua até hoje levantando as apresentações de Morrissey, como se comprovou em seus shows no Brasil.

Em seu diário da época, minha irmã Marcinha Pedrosa anotou:

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Pouco mais de um ano depois, no segundo semestre de 1984, já impressionado com o disco de estréia dos Smiths e especialmente com uma música que infelizmente não aparece no repertório solo de Moz, “What Difference Does it Make?”, ouviria a transmissão radiofônica de outra composição que chegaria para virar mais um clássico dos Smiths, “How Soon is Now?”. Teve sua execução inaugural no programa de John Peel, na BBC Radio 1, assim que foi lançada, em setembro de 1984. Não dá para compreender a má vontade de Morrissey com o DJ que tanto fez pelos Smiths e por sua carreira.

O olhar clínico de Seu Peru não demoraria para proferir o seu veredito sobre Morrissey: “Tá na cara que é uma bibona, Teacher”. A sexualidade de Moz, entretanto, ficou em suspenso durante décadas. Morrissey se autoproclamou um celibatário e, ao ouvir do amigo David Bowie, em conversa em um restaurante, a confissão de que este havia se excedido com sexo e drogas, confessou que, ao contrário, não tinha tido quase nada das duas coisas. Ele conta, no entanto, sobre o seu caso com o fotógrafo Jake Owen Walters, com quem namorou e viveu em um apartamento em Londres durante dois anos. Jake Walkers se tornou ainda seu assistente pessoal na segunda metade da década de 1990.

 A “Mozepédia – a Enciclopédia de Morrissey e dos Smiths”, de Simon Goddard (Leya, 2013), lembra do affair mencionado em uma carta particular trocada entre o jovem Morrissey e seu pen-pal, Robert Mackie. As cartas podem ser lidas na Internet (link aqui). Em uma delas Moz fala de uma namorada, Annalisa (Jablonska, segundo Goddard), e afirma que ambos são bissexuais. Em sua autobiografia, nada é mencionado. As cartas, de qualquer jeito, aparentam muito mais um jogo de sedução entre Morrissey e seu amigo, que escrevia de Glasgow, do que qualquer outra coisa.

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Capa da saudosa revista Vox, de junho de 1992, que trouxe capítulo do livro de Johnny Rogan, antes de seu lançamento comercial

“Morrissey & Marr – the Severed Alliance” (Omnibus Press, 1993), do mais conhecido biógrafo dos Smiths, Johnny Rogan, trouxe a conhecimento público um assunto delicado que infelizmente ocupa muito e desnecessário espaço na autobiografia de Moz: a briga nos tribunais entre ele e dois dos seus companheiros de banda, o baterista Mike Joyce e o baixista Andy Rourke. A dupla entrou nos anos de 1990 com uma ação na justiça inglesa pedindo reparação pelo pouco que receberam enquanto estiveram com os Smiths. O problema é que bem no começo da carreira do grupo, Moz e Marr assinaram com o selo independente Rough Trade como únicos responsáveis pela banda e Joyce e Rourke foram apenas testemunhas. Eles pediam e conseguiram então uma reconsideração para uma divisão igualitária dos royalties do grupo.

A discussão toca em um ponto que nunca compreendi muito bem em direitos relacionados com música. Para mim, a parte instrumental é tão importante em uma composição quanto melodia e letra. Pensem na bateria de “The Queen is Dead” ou no baixo de “Nowhere Fast”, entre outros incontáveis exemplos. Sem a bateria de Joyce e o baixo de Rourke, essas músicas seriam certamente algo completamente diferente. É ridículo portanto que Morrissey, uma pessoa tão anti-establishment, se apegue a uma assinatura em um papel, contra toda a contribuição real destes dois músicos para o grupo. Grupo que, não custa lembrar, foi sempre apresentado como uma banda e não como um trabalho de um compositor e um letrista com músicos contratados. Bola fora de Moz.

Não posso encerrar sem comentar o sistema de ensino na Inglaterra. Causa surpresa, para quem frequentou uma “escola experimental” no Brasil dos anos 70 como o Colégio Brasileiro de Almeida no Rio de Janeiro, saber que os ingleses ainda adotavam a palmatória e que mestres da St. Mary`s Secondary Modern, em Manchester, deixavam os alunos em um pátio na chuva durante o recreio para não terem que ficar tomando conta de adolescente. É claro que o nosso exemplo era o oposto. Aqui, quem tocava o terror nas escolas eram os alunos que faziam o diabo em estabelecimentos de ensino como o, assim conhecido, “Baseado de Almeida”.

Scanner_20151207 (7)Ps. Na lista dos livros sobre os Smiths, vale recomendar também “The Smiths – the Visual Documentary” (Omnibus Press, 1994), do mesmo Johnny Rogan, autor que Morrissey disse querer ver morto em um engavetamento em uma auto-estrada ou em uma incêndio em um hotel e com quem afirma não ter falado mais do que o suficiente para solicitar que desligasse o telefone. Pelo visto, Morrissey é mais um candidato ao grupo Procure Saber.

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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