O Conquistador

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Sigamos com mais um conto. Este, com final feliz. 
Serve de preâmbulo para a #AgoraÉqueSãoElas, que vem por aí.

O Conquistador

Tinha um caderno onde fazia com grande dedicação as anotações das suas conquistas amorosas. Aos amigos, exibia sempre com todo o orgulho e acrescentando, sem constrangimento algum, o comentário:

– Papei todas. Podem conferir aí. Mais de 10 nomes por letra, de A a Z. Solteiras, casadas, divorciadas, viúvas… Tem de tudo.

Os amigos investiam então em tom de blague:

– Ei, mas espera aí? Se você não está mentindo, precisamos urgentemente erguer um busto em sua homenagem.

As mulheres reagiam, no entanto, agressivamente:

– Você é um machista, chauvinista!

Ao que ele retrucava:

– Ué, tenho culpa de gostar das mulheres e de ter toda reciprocidade por parte delas?

Para as mais reativas, ele reservava sempre uma fala que proferia como um desses discursos que trazemos pronto:

– Meus anjos, eu tenho uma teoria: para mim, se esse mundo fosse um mundo só de mulheres, nós não veríamos as atrocidades e a pouca vergonha que grassam por aí.

Edeoclésia não resistia e contra atacava:

– Se você pensa assim, por que se vangloria tanto de fazer e acontecer com nós do sexo frágil?

Contente com o interesse despertado, Adrio Acácio, era esse o nome de nosso conquistador, tentava se justificar:

– Mas não há nada de errado nisso, meu amor. É a ordem natural das coisas. E querem saber de uma coisa: eu gosto pacas de mulher.

E era a pura verdade. Com olhar inebriado, Adrio Acácio cultivava como passatempo contemplar o sexo oposto em ocasiões como as horas mortas no transporte público. Ficava mesmo maravilhado e pensava consigo: como são gentis umas com as outras. Um dia viu duas amigas se encontrarem por puro acaso dentro do ônibus. Ficou fascinado ao observar como elas perderem uma eternidade de tempo uma admirando a outra, sorrindo com uma alegria e satisfação espontâneas e fazendo agrados mútuos sobre a beleza dos cabelos, das roupas e dos adereços que tinham escolhido para aquela manhã.

Pois muito bem. Seguia nosso conquistador levando sua vida amparada em suas convicções muito particulares quando foi convidado para uma festa, daquelas que movimentam toda uma rua, todo um quarteirão, todo um bairro. Os mais exagerados diriam talvez, toda uma cidade. Comentou então com os amigos que também iriam à festa dançante:

– Nessa eu vou bater o recorde mundial da canalhice. Pego pelo menos três numa mesma noite, podem escrever.

E realmente tudo indicava que a festa seria animada. Era o que mais se ouvia falar e sempre comentada com os maiores entusiasmos. Chegou o dia tão esperado e quando Adrio Acácio adentrou aquele ambiente repleto de mulheres, bebidas, pensou alto: “Essa promete, essa promete”. Surgiu no recinto em grande estilo e arriscando de cara e todo senhor de si uns passos de dança, já que se saía muito bem nesse assunto. Quando viu a primeira pequena pela frente, não resistiu a perguntar de pronto e ainda que não tivessem sido apresentados formalmente um ao outro:

– Tô ou não tô elegante, bonitinha? Pode dizer.

Sem graça a moça jogou o cabelo para trás e demonstrando nervosismo se saiu com uma fala que ele sempre interpretava como um sinal de aprovação:

– Ai, sei lá vai, para…

Com um amigo comentou:

– Não te falei? Hoje tem, hoje tem.

A festa estava uma animação só com gente sorrindo, eufórica e feliz pra todos os lados. Em certo momento, Adrio Acácio viu uma moça que lhe encheu os olhos. Uma morena de fechar o trânsito. Foi mais uma vez se apresentando com seu jeito atirado e desinibido.

– Posso saber como se chama essa gracinha de gente? Pode soar ultrapassado, mas era também chistoso, zombeteiro e funcionava.

– Claro, respondeu a beldade. Roxalina, muito prazer.

– Roxa, o quê? Retrucou Adrio Acácio.

– Isso mesmo que você ouviu, Roxalina. Agora me dá licença que esta festa está ótima e não posso perder meu tempo por aqui.

Roxalina partiu direto para a pista de dança e não deu mais conversa para o conquistador que ficou ali esquecido, remoendo o desprezo. Chegou a rilhar nos dentes: “Essa vai ter troco”.

A festa já ia pela madrugada. Roxalina já havia tomado uma, duas, todas. Estava completamente bêbeda ou bêbada, não sei ao certo. Deixo mesmo essa tarefa para o leitor que deve consultar seus alfarrábios para dirimir a dúvida. Já havia também flertado com metade dos rapazes presentes e se atracado com uns tantos. Quando começava a clarear, podíamos reconhecê-la jogada em um sofá em um dos cantos da sala, afundada em meio a muitas almofadas. Aos seus pés (acho mesmo que recitando uns poemas de Ana C.) se encontrava o nosso conquistador. Pedia, suplicava, mendigava, uma atenção, um carinho, um sinal de afeto. Amparada nas muitas doses de bebida que tomara, Roxalina era firme e decidida com o conquistador:

– Com você, meu amigo, nem hoje, nem amanhã, nem nunca.

Adrio Acácio foi para casa inconsolável e tomou chá de sumiço. Ninguém o via mais nos lugares que costumava frequentar. Era um trapo de gente, andava nas ruas sempre cabisbaixo, olhando pro chão, sem falar com pessoa alguma, imerso e taciturno, encafuado, sofrendo com a rejeição. Morava em uma vila, essa não em Laranjeiras, mas em Copacabana. Na casa conjuminada a sua, tínhamos a residência de dona Glaucia. Glaucia havia ficado viúva há pouco tempo e para ajudá-la naquele momento difícil aparecera, para passar uma temporada com a tia, a sobrinha Fidélia. E foi justamente a loiríssima Fidélia que veio a despertar Adrio Acácio de novo para a vida. Flertaram, namoraram com gosto e logo decidiram casar. Primeiro no civil e depois no religioso, como manda o figurino. Venceriam as bodas de prata e de ouro. Deixariam nada menos do que cinco filhos como resultado daquele enlace feliz.

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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3 Responses to O Conquistador

  1. Adrio Acácio é uma criatura rodrigueana, merece o seu destino. Pena que Fidelia parece honrar o nome, pois, de outra forma, ela bem que poderia brindar o nosso herói com uma bela sucessão de chifres. Bela peça de A vida como ela é, By Kiko.

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  2. Avatar de Ana mari souza Ana mari souza disse:

    Adorei .Tem conselheiro tem Ana C. .tudo como manda o figurino .Ótimo

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  3. Avatar de Margarida Margarida disse:

    Gostei como sempre mas se a dica é Fidélia, só pode ser Memorial de Aires

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