Depois de cruzar os dados disponíveis sobre renda e riqueza (aqueles não guardados em segredo por artifícios variados ou escondidos em paraísos fiscais, bem entendido) durante 15 anos (por julgar que “(…) a questão da distribuição de renda é importante demais para ser deixada apenas para economistas, sociólogos, historiadores e filósofos”), seguem algumas das conclusões de Piketty (London School of Economics, MIT e atual professor da École d´Économie de Paris):
“É impressionante constatar, por exemplo, que várias séries americanas dos anos 2000-2010 representem heróis e heroínas carregados de diplomas e qualificações altíssimas: para curar doenças graves (House), para resolver enigmas policiais (Bones) e mesmo para governar os Estados Unidos (The West Wing), é melhor ter alguns doutorados no bolso, quiça até um prêmio Nobel. Não é difícil enxergar em várias dessas séries, uma ode à desigualdade justa, baseada no mérito, no diploma e na utilidade das elites. (…) Viver de um patrimônio acumulado no passado é quase sempre representado como algo negativo, até infame, enquanto em (Jane) Austen e (Honoré de) Balzac isso se passa de maneira bastante natural, desde que exista entre os personagens um mínimo de sentimentos legítimos.
Essa grande transformação das representações coletivas da desigualdade é em parte justificada, mas se funda, contudo, em vários mal-entendidos. Em primeiro lugar, parece evidente que o diploma desempenha um papel mais importante hoje do que no século XVIII (…). Entretanto, isso não significa necessariamente que a sociedade tenha se tornado mais meritocrática. Em particular, isso não implica que a participação da renda nacional para o trabalho tenha aumentado de verdade e, obviamente, isso não significa que as pessoas tenham acesso às mesmas oportunidades para atingir os diferentes níveis de qualificação: em grande medida, as desigualdades da formação apenas subiram de nível e nada indica que a mobilidade intergeracional tenha realmente progredido por meio da educação.” (“O Capital no Século XXI”, de Thomas Piketty; tradução de Monica Baumgarten de Bolle; Intrínseca, 2014)


Muito interessante !
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