
Documentário sobre Marcel Duchamp e sua paixão pelo xadrez (clique aqui)
O Grande Mestre das artes plásticas Marcel Duchamp passou 20 anos de sua vida jogando xadrez. Comparou o jogo a uma droga que vicia e que chega para consumir uma quantidade absurda de horas de nossa existência. De modo semelhante, me vi nos últimos três anos envolvido com esse jogo, disputando partidas no site “chess.com” sob a alcunha de Godart, em homenagem ao cineasta de minha predileção. Comecei no dia 27 de agosto de 2012 e, exatos 3 anos depois, estou dando por encerrada minha passagem por lá.
Jogava xadrez com certa desenvoltura quando era bem garoto. No ensino fundamental da época cheguei a ganhar um torneio disputado com alunos do Colégio Brasileiro de Almeida, aquele colégio da família Jobim na rua Saddock de Sá em Ipanema, em desafio organizado pelo professor de matemática Joffre (no segundo grau voltaria a encontrá-lo dando aulas no Colégio Andrews na Praia de Botafogo). Como vencia adultos amigos de meu pai em partidas caseiras, segui com a crença de que sabia tudo sobre o jogo intuitivamente. Quando fui jogar xadrez com meus alunos das turmas preparatórias para o IME e para o ITA, no final dos anos de 1990, vi que estava redondamente enganado. Levei surras homéricas.
Me desinteressei do assunto. Isso até reler “Alice através do espelho” e me deparar mais uma vez com o jogo da infância na segunda parte da narrativa de Lewis Carroll. Voltei a ele e comecei a me dedicar a conhecer melhor o assunto estudando alguns livros, especialmente o trabalho de Garry Kasparov (“Meus Grandes Predecessores”, Editora Solis, 2008, 5 volumes) que conta a história do xadrez e do desenvolvimento de seus sistemas de jogo (excelente leitura que descreve em detalhe como nos aprimoramos pessoalmente em um curioso espelhamento da evolução da forma como se jogou xadrez através dos tempos). Vi então que sempre joguei na intuição e que não tinha nenhum conhecimento sobre aberturas, táticas de meio e de fim de jogo e toda a parafernália teórica que segundo “o americano Bob Fischer” (bordão de Jô Soares em programa de humor dos anos 1970) veio para matar o xadrez.
Inscrito no “chess.com”, comecei disputando jogos de 15 minutos e me fixei nos de 5 minutos (5 minutos para cada jogador; dez no total). Isto porque constatei que o xadrez, em qualquer nível, é um jogo de azar como qualquer outro, independente do tempo que se perca jogando. Envolve alguma técnica, por certo, mas as partidas, mesmo entre Grandes Mestres, como os dez maiores enxadristas do mundo que estão se enfrentando desde segunda-feira na cidade de Saint Louis, nos Estados Unidos, são resolvidas por um lance infeliz que resulta da pressão exercida pelo tempo. Os bons enxadristas como Magnus Carlsen, número 1 do mundo no momento, dirão que trabalham duro para que a sorte apareça. Embora esteja liderando em Saint Louis, ele fez feio recentemente em um torneio gêmeo do de Saint Louis disputado na Noruega, vencido pelo veterano Veselin Topalov. O búlgaro Topalov está na casa dos 40 anos, idade em que a memória se transforma em um problema para os mais velhos em confrontos de alto nível (Topalov e Vishy Anand são os únicos na casa dos 40 que seguem entre os melhores).
Comecei com a classificação de 585 e estou encerrando com 1350 pontos. Esta pontuação é muito fiel a qualidade de seu jogo. Impressionante como se custa para melhorar e como, mesmo tendo quedas, logo se volta à pontuação correta para o seu nível de desempenho à medida em que estudamos e conhecemos o jogo e seus princípios. Embora muito interessante, só serve para isso mesmo. Acredito, como o Millôr Fernandes, que o jogo de xadrez, e a dedicação a ele, nos levam apenas a disputar partidas com mais classe.
O Grande Mestre (GM) americano Hikaru Nakamura, que está entre os 10 enxadristas que jogam em Saint Louis, tem perfil no “chess.com” com uma classificação de 2875. O Mestre Internacional (IM; categoria abaixo de Grande Mestre) e boa praça Daniel Rensch, que comanda o site “chess.com”, tem classificação de 2530. O Mestre Nacional (NM; categoria abaixo de Mestre Internacional) Jerry (do excelente canal de xadrez do “youtube”: ChessNetwork; https://goo.gl/miU3y3) tem 2.220 de pontuação. Entre 1.700.000 jogadores do “chess.com”, fico com uma classificação perto da casa dos 315 mil. A razão tentativa/erro respaldado em alguma técnica para melhorar esta posição é porém coisa custosa e apenas para o viciado que não passa um dia sem sua cota de jogatina. Para Duchamp, não há escapatória, todos aqueles que se iniciam no jogo levam a paixão pelo resto da vida. Ainda que concorde com o GM Duchamp, acho melhor parar com a febre por aqui. Vejamos se consigo.
Classificação da Sinquefield Cup depois de 6 das 9 rodadas



Que besteira parar. Mais uma coisa legal na sua vida. Não tá atrapalhando nada.
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E como. Deixo de viver a vida real pra viver a virtual hoje no natal não queria jogar em respeito a data mas acabei escrevendo um monte de besteiras no face e só parei depois de jogar. Gostaria de saber se tem como limitar o número de partidas por dia no chess.com
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Kiko, deleta este e mail, daqui a pouco não vou te-lo mais.
Use o outro, aanamoreiras@terra.com.br
Quase igual, mas diferente!
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Muito interessante a miríade de informações sobre xadrez,além de xadrez aprendi sobre arte e literatura.Não desista continue.
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Quem desiste do xadrez são os fracos que não conseguem evoluir e permanecem estagnados perdendo pra todos, como dizia Stenitz “o xadrez não e para os puritanos.” E como dizia Alekhine “só o mais culto desfruta do melhor do xadrez…” Acredito que como a música, o xadrez possui elementos artisticos sendo necessário um dom para se jogar bem pois exige muitas faculdades mentais resumidamente, não e pra qualquer um…
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