Heat wave inglesa Parte II — Specials, Jam e Kinks

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Show da tour do aniversário de 30 anos dos Specials (clique aqui)

Temples, banda favorita do momento, canta “Waterloo Sunset”, dos Kinks (clique aqui)

Já disse uma vez, mas não custa repetir. Esta história de que Londres possa em algum momento estar se consumindo em tédio é pura bravata adolescente emulada pelo Clash. Ainda mais quando se tem pela frente um show dos Specials, uma exposição do The Jam e aqueles programas que surgem de improviso, como uma peça para matar saudades dos Kinks. Não estivesse nada disso acontecendo, a desculpa seria pedir aquela inevitável bênção ao senhor Charles Darwin, visitar a galeria Courtauld, circular à toa pela cidade e parar em um pub para ler o The Times, o Independent ou o Guardian/Observer (com jornal, não faço distinção de posição política, credo, abordagem dos fatos. Leio o que estiver à mão, até mesmo tabloide de metrô).

Mais do que ver os Specials, a intenção era saber como anda a vida do senhor Terry Hall, um cantor que, a exemplo de Morrissey, Robert Smith, Caetano Veloso, tem realizado o milagre de envelhecer mantendo a voz e cantando cada vez melhor. Chama a atenção se formos contrastá-los com Ian McCulloch, Gilberto Gil e até mesmo genvte mais nova como Liam Gallagher, que perderam muito, por razões diversas, a potência vocal que tiveram um dia. Pavarotti dizia que não basta ter voz, é preciso saber usá-la. Surpreende assim como Morrissey, Smith, Veloso e Hall conseguem seguir cantando as mesmas músicas sempre acrescentando ar novidadeiro na forma de interpretá-las.

Além disso, Terry Hall continuou, depois dos Specials, trilhando uma carreira diversificada musicalmente com trabalhos ultra refinados, disco após disco. Só parou quando a lógica do mercado fonográfico não deixou mais espaço para projetos musicais de quem vive de um público menor. A volta dos Specials é, infelizmente, uma tentativa de dar conta da realidade mercadológica em tempo de Internet e live streaming, que, se democratizou o acesso à música e tirou o poder voraz das multinacionais do disco, acabou comprometendo certos nichos de mercado. Jerry Dammers, figura importante na primeira formação dos Specials (criador da segunda fase do grupo: o Specials AKA), não quis voltar, Neville Staple, com quem Terry Hall e Lynval Golding formaram o Fun Boy Three, fez a excursão de 30 anos em 2011, mas não pode continuar devido a problemas de saúde. Dos primeiros tempos, estavam no palco Horace Panter (baixo), John Bradbury (bateria) e a dupla Golding/Hall.

Mas o show funciona, ainda mais em um final de tarde no Jardim Botânico (Kew Gardens) em espaço muito bem estruturado que recebe sempre festivais de música no verão e onde na noite anterior o UB40 havia tocado. Uma pena que o verão inglês tivesse se encerrado dois dias antes, em meados de julho, e que acabasse chovendo por toda manhã e tarde daquele domingo. Chuva, no entanto, que foi embora com o show, o que foi ótimo. Não tivemos clima nostálgico e as músicas foram interpretadas com vontade e empenho. Lembrei muito de dois amigos, o dj Edinho e o músico Beto Fae (Dulce Quental/Fagner/Fausto Nilo), que conhecem até mesmo o repertório menos festejado dos Specials e adoram “A Message to You, Rudy”.

Outro espaço de shows do verão londrino é o pátio da Somerset House. Lamentei não ter podido ver o Belle and Sebastian, que só tocou no dia 18 de julho, quando já tinha partido pro restante de um roteiro por Paris, Nice, Cannes, Berlim e Barcelona. Em uma das galerias da mesma Somerset estava acontecendo a “About the Young Idea”, exposição de memorabilia do The Jam, com fotos, cadernos, equipamento e toda as tralhas que Paul Weller, Bruce Foxton e Rick Buckler guardaram do tempo em que estiveram juntos. A ida até lá pediu ainda uma visita à pequena Courtauld Gallery, que vive na sombra da National Gallery e fica muitas vezes esquecida. Rever a coleção permanente, com Rubens, van Gogh, Monet, Gaughin, já vale a visita, e havia também uma temporária com os “Unfisnished Works” de Rembrant, Cézanne, Degas e Kandinsky.

Mas uma das grandes surpresas da passagem por Londres ainda estava por vir: a peça “Sunny Afternoon”, no Harold Pinter Theatre, um musical e revival da história e das composições dos Kinks, com roteiro assinado por Ray Davies himself. Tudo muito bem ensaiado com um show de performance do cast feminino. A dupla de atores da TV e dos palcos ingleses que protagonizam a peça, John Dagleish e George Maguire, surpreendeu interpretando pra valer “Lola”, “You Really Got me”, “All the Day and All of the Night” e tantos outros hits, pré-anos 80 (a narrativa se concentra nesta fase). Do período, fez falta “Victoria”, que não entrou no roteiro. Uma pena que George Maguire, que faz o irmão de Ray Davis, se pareça mais com o lead singer dos Kinks, do que Dagleish, que é quem faz o papel do frontman. O musical é por demais inglês e acho difícil que consiga seguir em temporada mesmo nos Estados Unidos. No Brasil então, me parece impossível. Não custa, de qualquer forma, fazer o boca a boca e torcer para que isso aconteça.

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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2 Responses to Heat wave inglesa Parte II — Specials, Jam e Kinks

  1. Avatar de Margarida Margarida disse:

    Como sempre maravilhosa. Com timing, humor e muito interessante. E não é porque é meu irmão não.

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  2. Avatar de Ana Moreira Ana Moreira disse:

    Kiko, delete este e mail e use aanmoreiras@terra.com.br

    O anamoreiras está sendo desativado.

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