O rio Avon e a sede da Royal Shakespeare Company com dois teatros, loja de souvenirs e torre panorâmica
Trailer do “Othello” encenado pela RSC (clique aqui)
Trailer das apresentações do Globe on Screen agendadas para 2015 (clique aqui)
Caros frequentadores deste espaço que a cada dia que passa fica mais com cara de “meu querido diário”. Não era esta a intenção inicial, mas fazer o que se tudo conspirou para isso? Ah, as santas férias de um blogueiro. Elas foram desfrutadas em passeio pela Velha Ilha, em encontro com conhecidos de ontem, de hoje, de sempre. O Arthur Dapieve vai à Inglaterra ver os new kids on the block (coisas como The Understudiesuk, Fever Dream e Temples; todos ótimos, sendo o Temples o preferido). Eu vou rever os old kids.
Comecemos por duas peças de Shakespeare: a primeira encenada em Stratfrod-upon-Avon na sede da Royal Shakespeare Company, e a outra, pela equipe do Globe, em seu QG em Londres. Estas companhias, além das produções em suas respectivas casas, têm grupos se apresentado em outras cidades dentro e fora da Inglaterra. O Globe está mesmo com uma turnê para a encenação de “Hamlet” que percorrerá todos os países do mundo em dois anos (qualquer hora baixam aqui).
A sede ultra modernosa da RSC em Stratford tem uma loja de souvenirs em sua entrada e, próxima a ela, uma torre mais alta e em destaque em relação ao prédio, que propicia aos visitantes a chance de ter uma vista panorâmica da cidade. A partir de sua base e por toda sua robusta extensão adjacente, está um complexo que abriga dois teatros, o Royal Shakespeare e o Swan (apresentando sempre obras de Shakespeare e de seus contemporâneos), salas de ensaio e ainda um restaurante no terraço. É a festa para os bardólatras que podem passar dias em Stratford vendo montagens de diferentes peças apresentadas de forma intercalada. Durante o verão, nos meses de junho, julho e agosto, temos também teatro ao ar livre e de graça nos fins de semana.
A RSC fica localizada na parte central da pequena cidade e movimenta a vida local junto com o roteiro de visitas à casa em que Shakespeare nasceu, a um centro dedicado ao dramaturgo (contando sua história e de seus dramas através de displays hi-tech e com a presença de atores que improvisam cenas ao pedido aleatório do visitante) e à Holy Trinity Church, onde Liam rest in peace. Muito simpática a cidadezinha, especialmente no verão com clima de quermesse em suas margens e muitos barcos a remo e embarcações cortando o rio Avon pra cima e pra baixo.
“Othello” na montagem da RSC foi atualizada. O protagonista shakesperiano agora comando um exército, todo ele trajado com aparato de força tarefa moderna, Iago e o elenco cantam rap e tudo é encenado com cenografia, efeitos especiais, iluminação e sonoplastia vanguardeiras. Vai no caminho oposto à apresentação de “As You Like It” no Globe, teatro reconstruído nos moldes elizabetanos, que faz representações tradicionais com reverência completa ao texto original e se permitindo apenas um discreto caco aqui e ali para fazer graça com a platéia explorando o choque temporal (um ator com um mapa na mão, outro, de óculos escuros).
Pra quem tem prazer em fruir o texto shakespeariano, a segunda montagem ganha de longe. Especialmente porque o Iago da montagem da RSC, interpretado pelo lorde pirata de “Game of Thrones” Lucian Msamati, é de início um negro, em mais um esforço do grupo em inovar, e ainda controla a cena com muito mais vigor que Hugh Quarshe, intérprete de Othelo. Acontece que a peça tira uma de suas maiores graças do contraste entre a aparência de seus protagonistas, explorando a oposição entre a negritude do Mouro de Veneza e a brancura esqualida de Desdemona (que felizmente tem excepcional atuação de Joanna Vanderham, atriz de “Pelos olhos de Maisie” e de séries para a BBC), o que se perde na montagem. E francamente, o papel de Iago é significativo e pode até rivalizar com o de Othello, mas não pode apagá-lo em cena.
Assistir a uma peça no Globe é uma beleza. Na platéia havia desde a garotada, que é forçada a ler Shakespeare na escola, a adolescentes topetudos, passando por senhores e senhoras que conhecem tudo de cor. Todos mesmerizados com a encenação. No elenco, Gwyneth Keyworth, a Clea da última edição do “Game of Thrones”, no papel de Phebe, contracenando com a Rosalind interpretada por Michelle Terry (“Law and order”). As duas ótimas, injetando muito humor em suas atuações, especialmente nas cenas em que contracenam com Orlando, interpretado por Simon Harrison. Um outro ator, também menos conhecido, James Garnon, divertiu o público com o seu Jaques. O Globe, com sua belíssima reconstrução das casas de espetáculo do século XVII, a indumentária típica do drama do período elizabetano e os músicos tocando instrumentos tradicionais, é um programa e tanto a nos transportar no tempo.
Tanto a Royal Shakespeare Company quanto o Globe estão fazendo transmissões ao vivo de suas encenações. O Globe também oferece gravações de suas produções em seu site, tanto para download como para assistir como pay-per-view (no Globe Player). A corrente temporada da RSC apresenta, além de “Othello”, “O Mercador de Veneza” (essas duas no Royal Shakespeare Theatre) e o “Judeu de Malta” (de Christopher Marlowe) e o “Volpone” (de Ben Johnson), no Swan Theatre. A temporada do Globe tem alternado encenações de “As You Like It”, “Much Ado About Nothing”, “Ricardo II” e “Measure for Measure”. Tem encenado ainda “MacBeth” em cantonês (será que a demanda de turistas chineses já é tão grande assim?) e produções atuais, como a peça “Nell Gwynn”, de uma autora novata: Jessica Swale. O RSC também deixa espaço para o repertório contemporâneo, e encenou no início do ano o “Death of a Salesman”, de Arthur Miller.



Esse seu blog tá muito bom, bem escrito pra caramba. Bjo
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Marcos, gostei da postagem e passeei um pouco em Stratfford por sua conta.
muito turista esta época?
Concordo com vc quanto ao Othelo branco, sem contraste com Desdemona e o iago negro. Gostei das descrições das peças, gostei dos comentários e citações. Se ficou querido diário, não sei, mas eu vislumbrei tudo muito bem.
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Esqueci de dizer que achei muita graça em Skakespeare em cantonês. vc assistiu?
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Oi, Ana Lucia, ainda não sei cantonês para ver uma montagem nesse idioma e prefiro mesmo as peças de Shakespeare no original. As traduções e as montagens que inovam muito ficam para mim como adaptações.
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