Hamlet Jr. sob o olhar crítico de dois resenhistas iconoclastas

arte_Hamlet John Green --

Capa do livro de Rodrigo Lacerda e cena do vlogue de John Green (pode ser visto legendado)

Resenha do Crash Course de John Green (clique aqui)

O título talvez deixe a falsa impressão de tratar-se de escrito explicativo e superficial sobre uma das obras mais veneradas de toda a literatura do ocidente: o “Hamlet” de Liam Shakespeare. Não é o caso. O que se tem em “Hamlet ou Amleto? Shakespeare para jovens curiosos e adultos preguiçosos” (Zahar, 2015) é um disfarçado apanhado sobre a fortuna crítica referente a mais elaborada obra do bardo inglês. Tudo contado com o teclado da galhofa e os bytes da picardia, sempre com inspiração na senda dos melhores romancistas brasileiros (Manoel Antônio de Almeida é confessadamente um favorito do autor).

 As argumentações e comentários são ainda encaminhados com uma subjacente estrutura narrativa que lembra uma criação ficcional. Cheguei mesmo a ter a impressão de que o premiado ficcionista Rodrigo Lacerda talvez estivesse pensando em transformar sua iconoclasta apresentação analítica do drama do indeciso Hamlet Jr. (é como trata o protagonista), em um filme ou em uma peça de teatro. Com a qualidade que anda caracterizando os filmes do novo cinema novo brasileiro, daria uma produção cinematográfica de apelo internacional. Nossos roteiristas, que tem feito o diabo, é que devem dizer se estou delirando ou não.

“Hamlet ou Amleto?” é uma análise divertida e com grande lastro de erudição que não deixa nada a dever aos trabalhos dos mais empenhados shakespeariófilos.  Ouvi dizer, embora não tenha conseguido confirmar, que Rodrigo Lacerda frequentava a roda de discussão semanal sobre os escritos do “autor do ser ou não ser” comandada por Barbara Heliodora. Se foi esse o caso, o fato mostra o interesse deste escritor, que em sua primeira novela, “O mistério do leão rampante”, demostrava grande admiração pelo dramaturgo de Stratford-upon-Avon. Admiração essa que, ao que tudo indica, vem de longe. O livrinho infanto-juvenil, “O fazedor de velhos” (Cosac Naify, 2008), de Lacerda, fala mesmo de um leitor, de início mirim e depois pós-adolescente, a um só tempo, intrigado e com extremo fascínio pela dupla Hamlet/Shakespeare.

O inspirado autor de uma coletânea de contos (“Tripé”), novelas (além de “O mistério…”, publicou “A dinâmica das larvas”) de um romance histórico (“A república das abelhas”, sobre seu avô, Carlos Lacerda), com vários prêmios que comprovaram o alcance de sua escrita ficcional (prêmio Jabuti, prêmios da Fundação Nacional do Livro Infanto-Juvenil e da Academia Brasileira de Letras), se mostra um escrutinador com aquele dom raro dos grandes resenhistas-comentadores que fazem carreira nas universidades. A boa nova é que o livro de Rodrigo Lacerda não tem o ranço e nem apresenta tampouco aquela escrita pouquíssimo criativa que costuma marcar os trabalhos produzidos no meio acadêmico. Embora tenha cumprido os ritos de nossas pós-graduações, doutorando-se em teoria literária e literatura comparada pela USP, o autor de “Hamlet ou Amleto?” não se sente obrigado a posar de entendido. Sua escrita leve, enfezada, divertida, hilária em alguns momentos, tem compromisso apenas com a inteligência do leitor. Mesmo um connaisseur da peça e de sua fortuna crítica, ficará contente em revisitá-la acompanhando o autor que a examina em seus mínimos detalhes, mostrando como trata-se de um drama bem amarrado e extremamente coeso em sua estrutura narrativa.

Sem um registro bibliográfico formal, ainda que haja em sua parte final indicações sobre o que informou seu texto, o analista percorreu os trabalhos de leitura de alguns dos críticos fundamentais dessa peça que há 400 anos é discutida por todos que a entendem como um dos maiores tratados sobre a psique humana. Harold Bloom acha mesmo que Shakespeare com o seu Hamlet inventou o homem moderno. Para o crítico americano, sem o dramaturgo-criador e sua personagem-criatura, não teríamos conseguido nos igualar aos filosóficos houyhnhms machadianos. É uma leitura possível, mas que não deixa de levar uma alfinetada de Lacerda, que diz (se dirigindo a Bloom e seus seguidores ao comentar a passagem em que Hamlet não mata o tio Claudius porque ele está rezando): “De tanto quererem enfatizar que Shakespeare e você (o autor está mais uma vez, e como faz ao longo de todo o livro, dando conselhos a Hamlet Jr. ou a um possível ator que viesse a fazer o seu papel) são homens 100% modernos, inventores do indivíduo contemporâneo, materialistas e racionais, eles atropelam seu lado cristão praticante”.

Com desprendimento, o autor-crítico fica à vontade ainda para recorrer a fontes pouco confiáveis como aquelas presentes na rede mundial de computadores. E neste ponto é uma pena que tenha deixado escapar uma notícia importante do New York Times. Em reportagem do jornal americano de dois anos atrás, ficamos sabendo que o inglês Brian William Vickers, da University College de Londres, identificou, e, pesquisas do americano Douglas Bruster, da Universidade de Austin no Texas, parecem confirmar, os fortes indícios de que a “Spanish Tragedy”, de Thomas Kyd, fonte da estrutura narrativa de “Hamlet”, teve 325 de suas linhas redigidas com a caligrafia de Shakespeare. O fato comprovaria a participação ativa do bardo na preparação da peça.

Aparecendo apenas em um dos periódicos de circulação restrita da Universidade de Oxford, esta informação é registrada por artigo do New York Times de 2013 (http://goo.gl/YP05eq). Em tempo hábil, portanto, para que fosse aproveitada no capítulo 4, em que Lacerda refaz a cronologia da peça no percurso que levaria ao estabelecimento do texto canônico do drama. Rodrigo Lacerda podia ainda ter conhecido também a professora emérita do King´s College de Londres Ann Thompson, que tem palestra postada na Internet (https://goo.gl/VQ9JCM; aconselho avançar até os 10 minutos para contornar as formalidade da apresentação). Ann responde, junto com Neil Taylor, por uma das famosas edições Arden (a de 2006) sobre a tragédia do Príncipe indeciso. Para seu livro, Lacerda preferiu, no entanto, ficar com a antiga edição da New Swan Shakespeare, editada por Bernard Lott para a Longman no final dos anos de 1960.

Mais estes detalhes são pouquíssima coisa para um autor com extenso currículo como tradutor (Faulkner, Dumas, Carver) que se deu ao trabalho de vazar sua versão personalíssima (vale a pena contrastá-la com a de Millôr Fernandes) para todas as longas passagens comentadas. Shakespeare, em geral, e “Hamlet”, especificamente, colecionam as frases mais repetidas por todos nós diariamente em todos os idiomas. Traduzi-las é, portanto, um desafio. No que diz respeito a nossa muito conhecida “Há mais coisas entre o céu e terra do que sonha a nossa vã filosofia”, Lacerda lembra que o adjetivo “vã”, embora caia bem e se adeque ao criar certa ênfase ao momento que se segue a aparição do espectro do pai de Hamlet, não aparece no original.  Rodrigo prefere ainda que a segunda oração fique: “Do que as sonhadas em nossa filosofia”, com “filosofia” como sinônimo para as “ciências naturais”. O assunto é discutível e a “Hamlet ou Amleto?” cabe o mérito de levantar a questão. A tradução de Millôr Fernandes foi mais conservadora e ficou com: “Do que sonha a tua filosofia”. Já que o “your philosophy” do original não parece usar o pronome possessivo como impessoal e sim como uma referência a Horacio, que é o interlocutor do príncipe na cena.

Outros momentos de divergência. A tradução de Lacerda é mais ousada na famosa “Frailty, thy name is woman”. O autor traduz “frailty”, por “traição”, uma leitura possível. Millôr ficou com “fragilidade”. Uma amiga, Regina Cocking, sugeriu “fraqueza”, que talvez seja a melhor alternativa para caracterizar a dúvida de Hamlet sobre o caráter de sua mãe. Já na conhecida troca de farpas entre Hamlet Jr. e Polônio, o ousado é Millôr que faz o Príncipe, se passando por lunático e ao fingir não reconhecer o conselheiro real, se referir a ele como “Rufião”. Sugere assim que “fishmonger” esteja sendo usado como uma corruptela de “fleshmonger”. Lacerda fica com o mais comedido e literal “peixeiro”.

Se desce, investiga e debate detalhes com refinamento, Rodrigo Lacerda não deixa de ter desprendimento para recorrer à Wikipedia. O autor não se furta também a fazer referências a exemplos culturais rasteiros e contemporâneos como os bitiniques, o agente Maxwell Smart, a FIFA e ao Big Brother. Quem se divertir com “Hamlet ou Amleto?”, vai também rolar de rir se instruindo com as duas postagens do vlogue do Crash Course que John Green fez para o “Hamlet” (link acima). O entusiasmo foi tanto que não resisti a baixar o livro “A Culpa é das Estrelas”, para conhecer o universo ficcional deste outro grande resenhador que conversa conosco sem as formalidades dos adeptos de pompa e circunstância.

Avatar de Desconhecido

About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
Esta entrada foi publicada em Hamlet, John Green, Rodrigo Lacerda, Shakespeare. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

2 Responses to Hamlet Jr. sob o olhar crítico de dois resenhistas iconoclastas

  1. Avatar de Ana Souza Ana Souza disse:

    Ola muito bom mas é enorme.Voceviu isso tudo?Mama mia.Ainda estou no meio do livro.

    Curtir

  2. Avatar de ana lucia guerra ana lucia guerra disse:

    eu adorei o livro e graças a ele me introduzi tardiamente no Hamlet. Saí íntima dos personagens. e é como você diz, mistura leveza e erudição. brevemente também vou fazer um comentário bacana para você me citar: a minha amiga Ana Guerra disse……..

    Curtir

Deixar mensagem para Ana Souza Cancelar resposta