Modiano e a Resenha Vlogueira de Depotte

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Resenha vlogueira de Jean-Philippe Depotte (clique aqui)

Tenho aproveitado muito as ótimas postagens que figuram no mundo pra lá de interessante do “broadcast yourself”. Tanto assim que do pouco que assistia de TV não restou quase nada. Estava no entanto aguardando que aparecesse alguma coisa inovadora ligada à literatura, o que acabou acontecendo com o canal no youtube do francês Jean-Philippe Depotte. O primeiro vlogueiro resenhista a se dedicar ao comentário literário com observações mais detidas sobre as obras analisadas. São postagens refinadíssimas desse escritor (tem quatro romances publicados) apresentadas com requinte raro. Fui a ele por causa do último Nobel de literatura, o também francês Patrick Modiano. Estava dando conta da leitura de “Uma rua de Roma” (“Rue des Boutiques Obscures”) e os comentários da postagem de Jean-Philippe foram fundamentais para me despertar o interesse pela obra. Recomendo que assistam (link acima).

“Uma rua de Roma” é um romance de 1978 e aposta em certa vertente da criação literária da época que tentava transformar o leitor em participante ativo da narrativa. É surpreendente ver como essa literatura parecia um pouco que antecipar o que viria com as narrativas dos jogos de RPG e de computador. Mas o romance de Modiano é bem mais que isso. Vamos a um resumo de seu enredo, semelhante ao que Depotte faz para cada uma das criações literárias que analisa nas postagens de seu vlog (leva o título geral de “alquimia de um romance”). Aliás, antes disso devo dizer que tenho conversado com ele por e-mail e discutido a possibilidade de preparação de uma versão em português brasileiro para suas resenhas-vlogueiras.

 A narrativa de “Uma rua de Roma” dá conta da trajetória de um certo Guy Roland que, já na fase adulta de sua vida, foi acometido por um episódio de amnésia. Ele é aceito então para trabalhar na agência de investigação (ou de “informações mundanas”, como preferem) de Constantin von Hutte, que simpatiza com nosso protagonista porque também Hutte “perdera os próprios rastros”. Recorrendo à estrutura da agência de detetive com seus catálogos e anuários (“a mais preciosa e comovente biblioteca que alguém pode ter, pois em suas páginas estavam registrados muitos seres, coisas e mundos desaparecidos”), Guy Roland irá tentar reconstituir o seu passado. Nós o acompanhamos e compartilhamos ainda das fichas com informações conseguidas por Jean-Pierre Bernardy, investigador que o auxilia.

Com seus levantamentos, Guy Roland chega a pessoas que conviveram com ele ou com conhecidos dele e que passam a fornecer para o protagonista toda sorte de pistas através de fotos, lembranças, revistas e outros objetos que guardam. O problema é que Guy e aqueles que ele consulta têm dificuldade em reconhecê-lo nas fotos (um artifício narrativo pouco convincente), o que compromete as certezas sobre seu passado. Quando passa a encontrar com pessoas com quem conviveu fica também constrangido em dizer o que se passou já que sua atual identidade é falsa (foi conseguida por Hutte) e ele é um detetive, o que causa embaraços (novo artifício pouco convincente, mas, enfim, muitas vezes, é disso que é feita a ficção). Guy Roland também não tem nenhum parente que pudesse dar conta de sua vida pregressa. Essas são as artes e manhas utilizadas por Modiano para envolver seu personagem em uma atmosfera de sonho que beira o delírio e que rende momentos literários extraordinários.

O senão (para mim pelo menos) é que a certa altura, Guy Roland, ou Freddie Howard de Luz, ou Pedro de Luz, ou Pedro McEvoy, ou Jimmy Pedro Stern (as pistas o fazem pensar que talvez seja diferentes pessoas), junto com as informações que vai levantando, começa a ter lapsos que trazem de volta sua memória pregressa e ele passa a relembrar momentos que nos levam a saber detalhes precisos de sua vida. Em especial, os pormenores da fuga malsucedida que, durante o período de ocupação alemã da França, fez pela fronteira com a Suíça (o tema da Segunda Guerra é recorrente na obra de Modiano). O leitor pode achar que estou entregando spoilers do romance, mas não se trata disso. Essa narrativa completamente implausível além de ser uma paródia ao romance policial rende uma escrita de qualidade sublime nas mãos do escritor. O livro nos leva a nos identificarmos com Guy Roland e nos lembrarmos de passagens que como ele vivemos acordados ou supostamente sonhando, no esforço consciente ou inconsciente de reconstruir ou reviver o passado.  Material de sobra para a ala de leitores “psi” fazer a festa com uma abordagem psicanalítica do romance.

Outro senão, esse para mim mais problemático para um escritor premiado (embora tenhamos escritores ganhadores do Goncourt, como Houellebecq, e mesmo do Nobel de literatura, que colocam em dúvida os critérios dessas premiações), diz respeito a certa discrepância no estilo narrativo relacionado com a trama especificamente. Há o personagem misterioso da atriz russa Mara Gay Orlow, que se suicidou com barbitúricos em sua residência luxuosa em Paris, e que aparece em uma das fotos que acabam nas mãos de Guy Roland. Antes de chegar à França, Gay Orlow conheceu o submundo da América onde fez shows como dançarina em Nova York e onde teve um caso com o mafioso Lucky Luciano. Acho que nesse momento, a trama de Modiano começou a se aproximar demais do roteiro de uma das chanchadas da Atlântida. Mas esse é um detalhe que pode passar desapercebido no romance.

A tradução de Herbert Daniel e Cláudio Mesquita é ótima, mas poderia ter sido atualizada já que ela foi feita há um bom tempo e o uso de alguns termos como “fossa” e “boda” (para “festa”) poderiam ter sido revistos. Como bem comenta Depotte, o estilo de escrita de Patrick Modiano é feita com frases simples e diretas, o que facilita o trabalho de tradução. Apesar dessa linguagem direta e sem rebuscamento, há algumas passagens do romance que merecem destaque. Elas vão a seguir:

“Passamos pelos jardins e tomamos a avenida de New York. Ali, sob as árvores do cais, tive a desagradável impressão de sonhar. Já vivera minha vida e não era senão uma alma penada que flutuava no ar morno de uma noite de sábado”

“Hutte repetia que, no fundo, todos somos “homens das praias” e que “a areia” – cito seus próprios termos – “só guarda por alguns instantes as marcas dos nossos passos”

“Pode acontecer que a gente acabe não mais reconhecendo um lugar onde viveu?” (Guy Roland ao voltar ao apartamento em que morou com sua mulher, Denise, desaparecida)

“Acho que se pode ouvir ainda, nas entradas dos prédios, o eco dos passos daqueles que habitualmente as atravessaram e desapareceram”

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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3 Responses to Modiano e a Resenha Vlogueira de Depotte

  1. Avatar de Ana mari souza Ana mari souza disse:

    Muito interessante ,agora estou com mais vontade de ler Modiano ,principalmente o livro citado.Aguardando

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  2. Avatar de Regina Cocking Regina Cocking disse:

    Gostei da resenha. Concisa e esclarecedora.

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  3. Avatar de ana lucia guerra moreiras ana lucia guerra moreiras disse:

    Marcos, eu acrescentaria à sua resenha do livro de Modiano, a facilidade com que ele se entregava às possíveis identidades apresentadas. e logo falava na 1a pessoa , Como se fosse o próprio,aceitando com naturalidade aquele ser recém conhecido, E podendo mudar para outro sem nenhum assombro!

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