O Síndico do Prédio de Ana Cristina César

Ana C. lendo a poesia “Samba Canção” (clique aqui)

Como para todo mundo, chega um dia em que se tem de encarar a sua nomeação para ocupar a delicada, a espinhosa, a onerosa posição de síndico. Principalmente em um condomínio em que há um rodízio significativo dos condôminos que se prontificam a assumir essa tarefa. Há uma semana sou síndico de um edifício que tem no entanto significado especial para mim, pois foi aqui, no prédio em que resido, que morou boa parte de sua vida e escreveu muito de sua obra a poetisa, tradutora, crítica e escritora Ana Cristina César.  Foi aqui também que ela deu cabo de sua curta existência, se atirando pelo vão da área central que divide às unidades de frente e fundos. Não seria a primeira, ainda que viesse a ser a derradeira tentativa de por fim a sua vida. Seu Cosmo, porteiro do prédio desde 1965, em seguida a conclusão das obras que colocaram a edificação de pé, conheceu bem a família de Waldo César e Maria Luiza, pais de Ana C. (uma das alcunhas com que a autora assinava seus escritos). Conviveu muito com todos e estava por sinal na portaria quando se deu a tragédia. Ana Cristina, depois de morar em uma casa na Gávea uns poucos anos, período em que trabalhava como revisora na Rede Globo, entrou em uma crise séria de depressão. Voltou para o apartamento dos pais e aqui ficou com uma acompanhante. No domingo, dia 29 de outubro de 1983, convenceu sua enfermeira a deixá-la tomar banho sozinha. Aproveitou o descuido e fez o que vinha planejando há um bom tempo. Waldo César e Maria Luiza estavam morando no Chile e retornaram para viver o pesadelo que os acompanharia pelo resto de seus dias. Vim a trabalhar com Waldo César em 1990, oito anos depois da morte de Ana C., e ele ainda carregava a sombra do incidente que lhe roubou a talentosa filha. Por essa época, o documentarista João Moreira Salles se aproximou do sociólogo, que lhe cedeu tudo o que tinha de registros sobre a vida e a obra da escritora. O cineasta fez então o belíssimo curta-metragem “Poesia é uma ou duas linhas e por trás uma imensa paisagem”, com as imagens de que dispôs. Todo o acervo de escritos de Ana Cristina foram ainda levados para o Instituto Moreira Salles, na Gávea, onde se encontram catalogados e à disposição do interesse de pesquisadores. O IMS por sinal, já reeditou toda a obra de Ana C., bem como seus inéditos, dando aos leitores tudo o que a autora produziu em seus 31 anos de vida. Acho que nosso condomínio merece mesmo uma das placas que a prefeitura tem feito assinalando os pontos em que moraram as pessoas que trouxeram contribuições significativas para a cultura carioca e brasileira. Fez isso por Nara Leão. Vamos ver se o atual síndico consegue sensibilizar as autoridades a dedicar a mesma reverência ao nome de Ana Cristina César.

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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2 Responses to O Síndico do Prédio de Ana Cristina César

  1. Avatar de ana maria souza ana maria souza disse:

    Lindo o texto sobre Ana Cristina.Senhor síndico excelente ideia da placa.ApoiadÍssimo.

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  2. Avatar de For Tomorrow For Tomorrow disse:

    Também gostei muito. Vc bem que poderia escrever um conto com sua vizinha como personagem. Que tal?

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