Rock in Rio 30 anos

Texto do amigo, e metaleiro de carteirinha (fã número 1 do Kiss), Leonardo Pimentel. Publicado no Facebook e gentilmente cedido para reprodução por aqui:

Rock in Rio

“O Rock In Rio tá fazendo trinta anos. Inesquecível não só pelas atrações, mas porque foi minha primeira cobertura como jornalista, com 18 anos, um ano e meio antes de entrar pra faculdade. Eu era redator das revistas “Roll” e “Metal” – versões nacionais das argentinas “Pello” e “Metal” – e estava credenciado para cobrir o festival, o que me dava acesso livre aos shows e às entrevistas e me elevava a uma categoria de semideus entre os amigos.

No dia da abertura, a equipe marcou como ponto de encontro o hotel em Copacabana onde tínhamos entrevistado George Benson. Saímos de lá (num busum, mesmo) eu, Andre Machado, o editor Manolo Gutierrez, Patrícia (namorada do Manolito), Paulo Cartolano (fotógrafo da revista), dois fotógrafos argentinos e a mulher de um deles (cujos nomes eu, infelizmente, já não lembro). Kiko (Marcos Souza) e Mansur não iam se misturar com aquele bando de metaleiros.

Como prevíamos, perdemos a abertura do festival. Ney Matogrosso cantou quando ainda caminhávamos do ponto de ônibus no Autódromo até a Cidade do Rock. Na entrada, a cobiçada credencial do festival nos garantia algumas prerrogativas, como acesso exclusivo, entrar com equipamento fotográfico e, principalmente, não passar pela dura dos seguranças. Não que eu e André, os bons meninos da redação, corrêssemos algum risco. Já o resto da turma…

Nem bem atravessou os portões, Manolito decretou: “Rock’n’roll é o cacete, isso aqui é um tremendo maconhódromo!” A divisão de tarefas na equipe era clara. Eles fumavam maconha, eu e o André tínhamos a larica, o que nos fez correr logo para um MacDonald’s. Ao voltarmos para o grupo, nos juntamos ao esforço de fazer a argentina se sentir confortável.

Eu oferecei um pedaço do Big Mac.

Ela: “No, gracias.”

André ofereceu um pouco de guaraná.

Ela: “Es natural? No? No, gracias.”

Paulinho ofereceu cerveja (Malt Nojenta, é verdade, mas era o que tinha).

Ela: “No, gracias.”

Manolito esticou-lhe a vela que havia acabado de preparar e acender.

Ela, com cara de nojo: “No, gracias.”

Ainda pensei em dizer “Um sexo gostoso atrás das caixas de som, nem pensar, né?”, mas achei que ela não teria senso de humor pra isso.

Enfim, uns alimentados, outros fumados, nos dispersamos para ver os shows e combinamos nos encontrar na saída ao lado do palco após o último show, para irmos todos juntos até os ônibus.

Não vou me estender sobre Whitesnake, Iron Maiden e Queen porque isso já é História. Basta de dizer que, quando Mercury, May, Deacon e Taylor deixaram de vez o palco, eu fui até a saída combinada e encontrei o André. Desnecessário dizer que fomos os únicos a levar a sério a história do ponto de encontro. Éramos tão babacas, mas tão babacas, que ainda esperamos meia hora pra ver se os outros chegavam. Quando nos convencemos que isso não ia acontecer, fomos embora. Eram 4h30 e o dia ainda estava longe de raiar.

Vimos um monte de ônibus no RioCentro, mas o guia do festival e as matérias de jornal diziam que os ônibus pra Tijuca e pra Niterói (destinos meu e dele, respectivamente) partiriam do Autódromo. Seguimos até lá, apenas para descobrir que tinha havido uma mudança de planos e todos os ônibus partiriam do RioCentro, para onde voltamos e onde constatamos já não haver ônibus algum. O jeito, diziam os funcionários, era esperar a volta dos veículos que tinham acabado de sair.

Enquanto esperávamos, encontramos Marcello Rangel, primo do André, que assistira ao show (na categoria plebe ignara, claro, hehehehe) e também esperava condução para Nikiti. O primeiro ônibus a aparecer foi justamente um “Praça XV”. Para eles era ótimo, pois desceriam de cara para a barca. Também me adiantava, pois eu poderia pegar o metrô no Centro. O problema é que toda a população de Niterói e mais um grupo de Iguaba Grande tiveram a mesma ideia. Gente, gente e mais gente pra embarcar nos 40 lugares sentados e 40 em pé. Num dado momento, eu disse pro André e pro Marcello: “Galera, vão na paz, que eu vou esperar outro.”

Estava eu sentado na caçada havia uns 15 minutos, quando aparece o André, dizendo que até tentou entrar no busum, mas não deu. Dali a pouco, passa o dito ônibus desafiando todas as leis da física sobre corpos não ocuparem o mesmo espaço. Além das trocentas pessoas dentro, vinham uns cinco cambonos literalmente agarrados à porta pelo lado de fora. Um deles era o Marcello, que ainda conseguiu berrar um “Tchau André, tchau Pimentel!” antes de sumir com o coletivo. Para completar nossa depressão, o dia começou a raiar, e nós ainda estávamos ali.

Eram 6h30 quando embicou mais um ônibus, trazendo “Gávea” no letreiro. Whatever! Se estivesse escrito “Mordor” eu ia embarcar do mesmo jeito, desde que pudesse sair dali. O bicho veio desacelerando e eu senti que ia parar uns bons vinte metros depois do ponto da calçada onde eu estava. Como havia outra multidão querendo embarcar, resolvi partir pra ignorância. Peguei o braço do André e disse “Barba, vem comigo”, ao mesmo tempo em que me agarrava a um ferro da porta traseira (antigamente era a porta de embarque), de forma que ônibus nos arrastou até parar.

Veio um fiscal berrando que “tinha que fazer fila”, ao que eu respondi “pode fazer a fila que quiser, desde que a gente entre primeiro!” E foi assim que eu e André fomos empurrados pela massa para dentro do ônibus e ainda conseguimos escolher os lugares. Admito que dormi até o Planetário, de onde pegamos o integração do Metrô para Botafogo. Ele desceu no Centro e eu fui até a Tijuca. Depois de uma meia-trava pra um pastel (não comia nada desde o Big Mac da véspera), cheguei em casa às 8h30 me antecipando em décadas à moda Walking Dead.

Até deu pra descansar – mas não muito. Dali a pouco tinha entrevista com AC-DC e Scorpions e mais show de noite. Mas isso já é história pra outra ocasião.”

Leonardo Pimentel

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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1 Response to Rock in Rio 30 anos

  1. Avatar de Carolina Landi landicarol disse:

    Seu amigo, sem querer, te entregou, Almond Eyes. 😛
    You know what I mean 😉

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