Metáforas, Oxímoros e as Estratégias Discursivas de um Polemista

Acho o imparcial um monstro de circo
de cavalinhos e pior do que isso: – um vigarista

Nelson Rodrigues

Há na literatura brasileira o Claro enigma, de Carlos Drummond de Andrade, e o Hércules-Quasímodo, de Euclides da Cunha. O oxímoro e o espelhamento do que essa figura de linguagem exprime como destreza estilística devem, no entanto, ser melhor identificados com a obra de um escritor que está distante da escrita do autor gauche e daquele que delineou os traços do sertanejo brasileiro. Se Euclides da Cunha ficou conhecido como o literato que mais trabalhou um pensamento antitético, Nelson Rodrigues merece figurar como um autor especialista na prática de uma escrita paradoxal e farta em oxímoros.

A intenção desse ensaio é discorrer sobre as características e marcas dessa prática discursiva nos textos do escritor. A escolha por parte do autor por privilegiar essa perspectiva, que se insinua de forma notável em seus escritos, se vincula ao fato de Nelson Rodrigues buscar com insistência deflagrar e trabalhar a polêmica em seus escritos. Para polemizar é necessário inverter expectativas e afirmar o inesperado e uma linguagem que tem como base o paradoxo é um recurso fundamental e imprescindível para isso.

            Partiremos de início de uma discussão sobre o paradoxo e posteriormente entrelaçaremos essa abertura para o tema com a metáfora. Trataremos ainda de estabelecer relações entre esse, que é o tropo lingüístico por excelência, e o oxímoro, essa figura de linguagem que se sobressai por seu traço contraditório.

Quem nos dá uma primeira perspectivização para o debate sobre o paradoxo, e o faz de um ponto de vista filosófico, é o francês Gilles Deleuze em sua obra A lógica do sentido (2000).  Segundo Deleuze: “O paradoxo é, em primeiro lugar, o que destrói o bom senso como sentido único, mas, em seguida, o que destrói o senso comum como designação de identidades fixas” (2000: 3).  O filósofo  prossegue mais adiante e no mesmo livro elaborando essas suas postulações iniciais. “Os caracteres sistemáticos do bom senso são pois: a afirmação de uma só  direção; a determinação desta direção como indo do mais diferenciado ao menos diferenciado, do singular ao regular, do notável ao ordinário”.

Trabalhando de forma distinta, o paradoxo “(…) segue outra direção oposta ao do bom senso e vai do menos diferenciado ao mais diferenciado” (2000: 79). A força do paradoxo, nos diz o filósofo, “não consiste absolutamente em seguir a outra direção, mas em mostrar que o sentido toma sempre os dois sentidos ao mesmo tempo, as duas direção ao mesmo tempo” (2000: 78). Deleuze discute com maior atenção a presença de elementos paradoxais nas obras de Lewis Carroll e de Antonin Artaud, embora trabalhe suas considerações se servindo de outros escritores também.

Para exemplificarmos dentro da obra de Nelson Rodrigues traços que assinalem a adesão do escritor a uma prática de escritura paradoxal, podemos recorrer a um dos contos de A vida como ela é …. A história de Para sempre fiel (1999: 31) é emblemática do que tentamos assinalar aqui. O conto narra a tentativa do personagem Odilon de convencer a namorada Odaléia de que era melhor uma separação entre os dois porque ele não acreditava na possibilidade de uma fidelidade incondicional e eterna por parte de sua amada. O paradoxo já surge na própria proposição do enamorado. Odilon diz a certa altura:

 – Você deve me chutar enquanto é tempo. Eu não interesso nem a você, nem a mulher nenhuma. Agora mesmo, neste momento, eu estou pensando que você há de me trair um dia. Isso deve ser doença. Eu sou um doente mental. – Num esgar de choro, pede: – Arranja outro namorado, arranja um sujeito que acredite em ti. (1999: 33)

A apreensão do rapaz com a traição, como se vê, não envolve em momento algum sua consideração pessoal e privada sobre a condição de traído. Em vez disso, Odilon está preocupado com a pessoa que por ventura poderá vir a traí-lo, e enxerga mesmo um aspecto doentio em sua descrença na fidelidade. Odilon acha que Odaléia deve viver sua fantasia de credulidade na lealdade amorosa com alguém que compartilhe devaneio semelhante.

Odaléia se sente ofendida e diz que vai provar que nunca o trairá. E eis que ao final da breve estória ela o faz de maneira inesperada suicidando-se e coroando com mais um desfecho violento esse conto rodriguiano. Não comete o suicídio, no entanto, sem antes deixar suas últimas palavras para o namorado nos dizeres: “As mortas nunca traem”. O elemento paradoxal deste conto está presente em tudo: no inusitado da situação apresentada, no inesperado da conclusão da estória e na frase que confirma que, de fato, a moça nunca mais trairá a pessoa amada, ainda que isso não venha a acontecer porque ela não estará viva para fazê-lo.

Com o romance A mentira (2002), editado como resultado do trabalho de recuperação dos escritos perdidos de Nelson Rodrigues feito pelo pesquisador Caco Coelho, temos outro exemplo. A falsa gravidez de uma adolescente, fruto de um diagnóstico errôneo, segura a trama do romance do começo ao fim. Um pai, apaixonado por sua filha menor (uma nova incursão do autor pelo tema, reincidente em sua escrita, de problematização da interdição do incesto), supõe, em conseqüência da inépcia de um médico esclerosado, que a menina está grávida. Passa, como todos na trama, a viver a gravidez imaginária como um fato. E, ao invés de recriminar a garota (que mora com a mãe, outras três irmãs e respectivos maridos sob o mesmo teto), tem a reação inicial de alertar a todos os familiares para a necessidade de compreensão e proteção adicional para com a menina em função do inconveniente ocorrido com ela.

  A ausência de recriminação não é o único dado inesperado em um ambiente conservador. A ambivalência das atitudes do pai é patente. Ele pode ser sensato como na passagem descrita acima, ou pode ser capaz do disparate de, ao descobrir no correr da história que a filha não é legítima, dar graças aos céus pela possibilidade de viver a fantasia de um dia talvez ter um caso com a menina (o que será desenvolvido, obviamente, com requinte na trama).

Os paradoxos do autor extrapolaram a própria história. Na época do lançamento do folhetim ainda nos anos de 1950, Nelson Rodrigues deu entrevista ao Jornal da Semana Flan (encarte que circula aos domingos com o jornal Última Hora) para divulgar o romance seriado e se saiu com um sortimento de afirmações totalmente em desacordo com o que se entende por senso comum. A mentira, cuja condenação está enraizada no pensamento popular e que é sempre preterida frente à verdade, ganhou um inesperado interesse do escritor. Passou, em função disto, a ser vista mesmo como uma dádiva. Na entrevista que concedeu na ocasião, o autor comentava: “A mentira mantém a máquina do mundo e impede que ela seja destroçada. As relações humanas, mesmo as mais íntimas, se constroem sobre a mentira e dela extraem sua melhor carga de poesia. Chego mesmo a pensar que a verdade é uma coisa hedionda, feita para habitar os asilos de psicopatias incuráveis” (Pires, 2002). Não é preciso dizer que nada disso tem relação alguma com a história presente no folhetim. Lá a mentira é o elemento que move o conflito e que traz instabilidade para a narrativa.

A fascinação e interesse do escritor Nelson Rodrigues pelo tema se expressa em outras peculiaridades da tessitura mais aparente de seu texto em elementos que reforçam a intensidade do pensamento paradoxal. Esta é uma discussão complementar à inaugurada acima e para se chegar a ela deve-se recorrer a outros teóricos. Comecemos por Paul Ricoeur e pelo exaustivo arrazoado que faz sobre a metáfora no livro intitulado A metáfora viva (2000), em que procede a uma revisão extensa sobre o conceito dessa figura de linguagem. Essa discussão será em seguida complementada pela discussão encaminhada por Umberto Eco no seu Semiotics and the philosophy of language (1986).

Ricouer parte da definição inicial de Aristóteles na Arte poética que estabelece as quatro categorizações clássicas para a metáfora como: “a transposição do nome de uma coisa para outra”. Transposição esta que se daria “do gênero para a espécie, ou da espécie para o gênero, ou de uma espécie para outra, [ou] por via da analogia”. Depois da análise inicial que estabelece o tropo metafórico como um desvio, Ricouer vai se perguntar se podemos avançar deixando  de tomar a metáfora como uma “denominação desviante” para encará-la como uma “predicação impertinente”, passando da semântica da palavra para a semântica da frase. De uma metáfora circunscrita à palavra, chegaríamos desse modo a vê-la relacionada com a oração e, em seguida, um novo passo poderia ser dado em direção a sua inclusão na dimensão maior do discurso.

Por fim, e como derradeiro lance, Ricoeur nos proporia estendê-la ainda à origem do pensamento por colocar em movimento o raciocínio analógico, o que a identificaria com o começo da especulação teológico-filosófica. Ao chegar a esse ponto, no entanto, o autor francês acha que essa simplificação não é profícua e opta pela afirmação de uma “descontinuidade entre discurso especulativo e discurso poético” (2000: 392).

De qualquer jeito, Ricouer nos diz que recorremos às metáforas com maior insistência em tarefas prosaicas do dia-a-dia do que imaginamos. Não nos damos conta delas por se tratarem de metáforas mortas.  As metáforas vivas, que por sinal proliferam nos escritos de Nelson Rodrigues, se destacam por sua novidade e por marcarem um “desvio” em relação às metáforas já saturadas pelo uso corriqueiro. A figura de linguagem que corresponde ao paradoxo é conhecida como oxímoro. Eles evidentemente estão presentes nas obras de Nelson Rodrigues. Na obra rodrigueana aparecem tanto circunscritos à palavra como neste trecho: “Disse não sei quem que há santos canalhas” (1997: 34; grifo nosso). Como se manifestam no âmbito da oração como na seguinte passagem: “(…) a solidão nasce da convivência humana” (2000: 60; grifo nosso mais uma vez). Esses exemplos nos levam a pensar se o choque provocado pelas proposições desses enunciados não se enquadrariam no “desvio” mencionado por Ricoeur e apontado como uma característica da metáfora em sua análise. Poder-se-ia, assim, entender que esses sinais paradoxais, presentes nestes casos, fariam com que se aproxime o oxímoro da metáfora como mais um caso onde se tem o primeiro como uma espécie, da qual a segunda é o gênero.

Desse modo, temos na tessitura mais aparente do texto de Nelson Rodrigues uma proliferação de oxímoros e metáforas vivas que revelam, em nosso entender, o gosto do autor pela exuberância discursiva desses recursos de linguagem, um gosto muito próximo daquele que o autor parece ter pelo rendimento do paradoxo na dimensão maior do discurso. É com extrema criatividade que o escritor recria e torna vivas algumas metáforas desgastadas pelo tempo. Além de proliferarem essas e outras metáforas ainda aparecem hipérboles e símiles em profusão no texto do autor.

Um pouco distinta se faz a incursão de Umberto Eco (1986) pelo tema do trabalho de Ricouer – e foi feita na verdade anos depois. Ela está relacionada ao projeto do teórico italiano de investigação sobre os códigos semióticos de que nos servimos diariamente. Desde A estrutura ausente, Eco começou a elaboração de seu grande estudo semiológico na incansável busca pelo reconhecimento sobre como se organizariam os códigos comunicacionais. Os resultados mais refinados desses esforços aparecem em uma obra que revê etapas anteriores e que ganhou o título de Tratado geral de semiótica (2000). Semiotics and the philosophy of language (1986) ainda pisa o terreno da semiologia, mas de uma perspectiva diversa: a partir de uma abordagem focada no aspecto cognitivo. O capítulo que trata da metáfora tem uma posição central em seu estudo.

Eco repisa o que já dissemos anteriormente para traçar a trajetória do tropo metafórico desde sua origem em Aristóteles. Desinteressado, ao contrário de Ricouer, em debater a dimensão filosófico-teológica, o teórico italiano tem curiosidade pela metáfora como uma ferramenta de conhecimento e, citando o historiador Venerável Bede, do século VIII, diz mesmo que salientar esse tropo é “falar da atividade retórica em toda sua complexidade”. O capítulo dedicado à metáfora retoma os anteriores onde o autor havia discutido o signo e feito a distinção entre a cognição como um processo que se parece mais com o conhecimento adquirido em uma enciclopédia (com sua “cadeia polidimesional de propriedades”) do que em um dicionário (onde o conhecimento fica restrito à definição sinonímica).

O grande avanço trazido pelo estudo de Eco é o de ter destrinchado a razão pela qual as caracterizações aristotélicas da metáfora têm causado tantos embaraços. E para chegarmos a tal compreensão somos lembrados que três entre os quatro exemplos de metáfora apresentados por Aristóteles, os que tratam da transferência de sentido de gênero para espécie, de espécie para gênero e de espécie para espécie (que operam, portanto, em relação hiperonímica, hiponímica e de identidade, próprias a um dicionário), não mostram mais do que como a metáfora é feita. Ao passo que a transferência por analogia, o quarto caso, com o exemplo que aproxima e alterna a taça de Dionísio com o escudo de Ares, nos sinaliza o que a metáfora diz e como ela nos ajuda a reconhecer nossa experiência cognitiva (uma compreensão não mais dicionarizada, mas enciclopédica).

Deve-se ainda destacar do estudo de Eco alguns aspectos. O primeiro deles é o de chamar a atenção para o fato de que o grande escândalo da metáfora é o de se apresentar como uma manifestação do espírito que aparece em todos os sistemas semióticos. E isso é particularmente fundamental aqui, pois, como assinalaram alguns comentadores da obra de Nelson Rodrigues, ele é um autor que parece antever e visualizar o que escreve (o que aproxima seu teatro – e podemos ampliar tal perspectiva para outros de seus escritos – de outras artes). Há ainda a percepção por parte de Eco de como o tropo aristotélico estabelece e enseja “uma experiência visual, aural, táctil, olfativa”. Ao mostrar que a prática metafórica apresenta elementos que testam os limites entre os vários códigos semióticos, Eco nos coloca diante desse “híbrido visual e conceitual”, que aparece ainda nas imagens oníricas, que proporciona as piadas e que se insinua como um “convite à intertextualidade” (elementos também presentes na escrita rodrigueana). Com isso, a metáfora diz algo mais, que escapa à verdade literal. As similaridades das comparações metafóricas exibem ao mesmo tempo dissimilitudes, em uma condensação (uma apropriação por parte do autor do termo freudiano) de opostos (os dois sentidos mencionados por Deleuze como propriedades do paradoxo).

  BIBLIOGRAFIA:

DELEUZE, Gilles. A Lógica do Sentido. São Paulo: Editora Perspectiva, 2000. Tradução de Luiz Roberto Salina Fontes.

ECO, Umberto. Semiotics and the philosophy of language. Bloomington: Indiana University Press, 1986.

_____________. Apocalípticos e Integrados. Trad. Pérola de Carvalho. São Paulo: Editora Perspectiva, 2000.

PIRES, Paulo Roberto.  O Gênio Acidental Rodriguiano. In: Jornal do Brasil. Caderno Idéias de 1o. de julho de 2002.

RICOEUR, Paul. A Metáfora Viva. São Paulo: Edições Loyola, 2000. Tradução de Dion Davi Macedo.

RODRIGUES, Nelson. A Vida como Ela é … – O Homem Infiel e Outros Contos. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

RODRIGUES, Nelson. A Coroa de Orquídeas. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

RODRIGUES, Nelson. Asfalto Selvagem. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.

RODRIGUES, Nelson. A Mentira. São Paulo: Companhia das Letras, 2002.

Deixe um comentário