A década era a de 1950. Nelson Rodrigues já havia se consagrado como dramaturgo, folhetinista e contista de enorme sucesso, embora despertando a ira dos moralistas de plantão. Faltava ainda dar a partida para inscrever o seu nome como o do mais inovador e prolífico cronista esportivo brasileiro de todos os tempos. É o que irá começar a fazer a partir do momento em que se coloca a preparar semanalmente, durante o correr da segunda metade da década, as inspiradíssimas epifanias em forma de crônica que escreveu para a revista Manchete Esportiva.
A íntegra das contribuições do cronista para o magazine é o que o leitor tem agora em mãos com esse O Berro Impresso das Manchetes. Ao passar os olhos pela coletânea como um todo, percebemos que ao contrário da crença corrente, o gênio da escrita de Nelson não se limitou a cuidar apenas e exclusivamente do mais popular esporte brasileiro. No leque de suas investidas como colunista esportivo antes de o Brasil sair ganhando um campeonato do mundo atrás do outro, o escritor incluiu uma diversidade grande de modalidades atléticas e conseguiu de igual maneira, com a qualidade e a dimensão profunda das reflexões de seu texto, retratar o quadro épico das glórias e derrotas de acontecimentos esportivos os mais variados.
Escolheu o boxe, por exemplo, como o assunto de duas colunas seguidas em Manchete Esportiva, no momento em que o boxeur e campeão norte-americano Archie Moore teve como desafiante o brasileiro Luisão, que não amarelou e resistiu bravamente a todos os assaltos em um confronto transmitido pela TV. Em outra oportunidade foi a vez de um maratonista, o português Manuel Faria, um “argonauta do asfalto”, ganhar a atenção do cronista ao se sagrar vencedor da Corrida de São Silvestre no último dia do ano de 1957. Quase que um quadrúpede, de quatro patas apenas, se transforma em foco de uma outra crônica do autor. Dulce bem que tentou com seus trotes chamar a atenção do colunista, mas parece que faltou fôlego. “Por pouco, o meu personagem da semana não foi uma égua. Se Dulce tivesse ganho o “Sweepstake”, estaria aqui, com seus quadris suados, as suas narinas vibrantes e as suas crinas geladas”, comentaria.
Mário Filho, o “criador de multidões” e idealizador de competições de modalidades esportivas menos divulgadas, não podia faltar nessas colunas e foi assunto de muitas crônicas que festejavam seu espírito empreendedor. Entre os feitos desse responsável pelo estabelecimento da mística do Fla-Flu em suas investidas na organização de eventos esportivos, está a realização de um acontecimento inédito na América do Sul: a vinda, em julho de 1956, de uma equipe inglesa de remo de Cambridge para disputar uma competição com atletas brasileiros na Lagoa Rodrigo de Freitas em um domingo de regatas na cidade do Rio de Janeiro. Nelson escreveu duas crônicas sobre essa competição em Manchete Esportiva e abriu a primeira delas festejando o remo como esporte:
“Até hoje não compreendi por que o futebol é um criador de multidões e o remo, não. E, no entanto, se compararmos uma modalidade e outra, verificaremos o seguinte: — o remo é muito mais bonito e devia ser muito mais apaixonante. Tudo valoriza: — o mar, o horizonte, o barco, o céu. De resto, a figura do remador tem, atrás de si, um tremendo passado oceânico. Não importa que, por vezes, ele sulque as águas cordiais e sedativas de uma lagoa, como a nossa Rodrigo de Freitas. Seja como for, o remador está ungido de sal, de vento, de sol, de lua, como os nautas camonianos.”
No que diz respeito ao futebol, que Nelson, com sua fascinação pelo uso de prefixos, certamente chamaria de “ex-esporte bretão”, a escrita do cronista tampouco se limitava às partidas em si. Mais do que a aridez e a superficialidade dos resultados, o que interessava ao cronista era a atmosfera, os incidentes e os episódios que envolviam os atletas dentro e fora das quatro linhas do gramado e que adquiriam grande significação sob a ótica particular do colunista. Juízes, bandeirinhas, massagistas, gandulas, cartolas e toda e qualquer pessoa relacionada de alguma forma com uma partida de futebol eram assunto para sua pena.
Apesar do compromisso com os acontecimentos do calendário esportivo da segunda metade da década de 1950, em algumas crônicas Nelson não resistiu a investir abertamente pelo campo da ficção. Incorreu, dessa forma, naquilo que Afrânio Coutinho definiu em sua tipologia sobre a crônica brasileira (em A Literatura no Brasil) como a “crônica narrativa”, modelo de escrita em que escritores de estirpe tão diversa quanto Machado de Assis, Carlos Drummond de Andrade e Fernando Sabino, de maneira semelhante a Nelson, também incursionaram.
Trata-se de uma prática discursiva híbrida entre a crônica e o conto. Vários dos exemplares dessa opção estilística nelsonrodriguiana podem ser apreciados em muitas das colunas inéditas em livro reunidas neste volume. Para destacar um exemplo vale a pena chamar a atenção para a extraordinária crônica que aparece sob o título de “Perfil do miserável”, escrito em que Nelson trata daquele tipo que era sua obsessão maior: o canalha. Essa figura que fascinava e seduzia a imaginação rodriguiana surge nessa crônica-conto na pessoa de um malandro personagem que decide observar mulheres nuas, entre elas a noiva de um colega, tomando banho em uma piscina natural durante um passeio ao Dedo de Deus, próximo à cidade de Teresópolis no estado do Rio de Janeiro. E o esporte com isso?, se perguntará o leitor. O grupo era de praticantes de alpinismo, que ambientado no Brasil se torna nas palavras do próprio cronista o “esporte mais soturno que se possa imaginar: — falta-lhe o principal, que é a neve. O sujeito já sabe que não vai virar picolé. De qualquer forma, justiça se lhe faça: —considero aquele que escala qualquer coisa um herói de Stalingrado”.
O canalha se transfiguraria, como se pode constatar nessa compilação, em personagens no limite entre o ficcional e o real e se espalharia por outras crônicas de Manchete Esportiva na pessoa de um goleiro mau-caráter, um juiz ladrão, um bandeirinha escroque. Todos externando a “irizada, a multicolorida variedade do vigarista”. Nelson chegaria mesmo a constatar a importância fundamental desse personagem em campo como se pode ver em outro escrito inédito em livro que aparece sob o título de “0 x 0 em Praga”, em que destaca a necessidade imprescindível da presença do juiz gatuno para dinamizar certos jogos que do contrário resultariam na “derrota dos 22 jogadores”.
Uma das características que iria marcar futuramente a crônica rodriguiana de modo geral, e as crônicas esportivas desse período são um sinal disso, é seu tom memorialista. Para fazer render esse viés de sua escrita, Nelson em diversos momentos rememora, em narrativas que exploram a voltagem literária de seu texto, passagens esportivas antológicas de atletas brasileiros. Nessa vertente se enquadram as folclóricas lembranças de Jaguaré, Espanhol e Moderato, por exemplo. Os casos de Jaguaré, o Dengoso, e do beque Francisco Gonçalves, o Espanhol, já tinham sido registrados pela coluna “Da primeira fila”, de Mário Filho, no jornal O Globo em 1942, e voltam pelas mãos de Nelson a aparecer em trechos das crônicas “Bocage no futebol” e “Meu personagem da semana (Valdo)” (crônica do dia 14 de setembro de 1957). Na primeira, o cronista narra a história das negociações da ida de Jaguaré para o Barcelona, enquanto na segunda, Espanhol, do Vasco, surge festejado por sua bravura: fraturou a perna para evitar um gol. Há o caso ainda de Moderato, um personagem com tanta densidade fabular que sua materialidade física nem Nelson, nem seus companheiros de redação seriam capazes de precisar. Ficou registrado na crônica “Futebol na pré-história”. É claro que a dúvida matreira encenada pelo chiste do autor não tem fundamento: o jogador existiu de fato.
Manchete Esportiva circulou de novembro de 1955 até maio de 1959. Nelson Rodrigues participou assiduamente da revista com suas crônicas, mas esteve ausente por dois momentos. O primeiro deles, por seis números, no período que vai de junho a agosto de 1957, época em que subiu ao palco Perdoa-me por me traíres, a nona peça das dezessete que escreveu. A justificativa para o seu afastamento se deve com certeza aos preparativos para a estréia de um drama que exigiu bastante de Nelson. Nessa peça, além de autor, Nelson veio a fazer sua estréia como ator teatral, interpretando o ignóbil tio Raul que morre exemplarmente no final do terceiro e último ato.
A segunda interrupção foi um pouco mais longa e se estendeu por doze edições, entre novembro de 1958 e fevereiro de 1959. Nelson teve uma recuperação difícil em seguida a uma operação para a extração da vesícula. Após seu restabelecimento, e como sempre fez quando enfrentou doenças graves, Nelson voltaria de imediato ao trabalho e seguiria com suas crônicas com uma regularidade e com uma devoção a toda prova.
Do cronista de futebol, essas colunas nos revelam um Nelson Rodrigues profético e apostando suas fichas nos atletas brasileiros. Manchete Esportiva cuidou da cobertura de jogos amistosos e de toda a trajetória da seleção brasileira, primeiro no campeonato Sul-Americano de futebol (atual Copa América), em 1957, e depois rumo à sua primeira vitória no mundial de futebol, em 1958. Ainda que nossa vitória em 1958 tenha sido ganha com alguns dos melhores jogadores brasileiros de todos os tempos e que fariam história (Pelé, Garrincha, Zagallo), é necessário lembrar que esses atletas estavam começando sua ascensão rumo à glória que alcançariam nos anos seguintes. Do Sul-Americano de 1957, disputado entre março e abril, Pelé nem chegou a participar. O atleta do século, com 16 anos apenas, estava dando início à sua carreira e só iria integrar o escrete brasileiro em julho deste ano, na Copa Rocca. Devemos lembrar também dos traumas das derrotas em 1950, em casa, no Maracanã, e 1954, na Suíça, no estádio Wankdorf. Estávamos, portanto, longe da certeza de uma vitória no campeonato. Desde o torneio Sul-Americano, em 1957, Nelson, como se percebe nas colunas de Manchete Esportiva que dão conta desse certame, já demonstrava seu entusiasmo pelo escrete brasileiro ainda que o selecionado acabasse fracassando na disputa ocorrida em Lima.
Sem ser oportunista (pelo contrário, sempre que a seleção se saía mal era o primeiro a apontar seus pontos fracos) e de um ufanismo rasteiro, o cronista chamou a atenção para as potencialidades dos jogadores brasileiros. Se saiu com muitas de suas expressões famosas nessas colunas para assinalar como o brasileiro era “um narciso às avessas, que cuspia na própria imagem”. Chegou a diagnosticar freudianamente um “complexo de vira-latas” nos atletas brasileiros, complexo que seria superado com a vitória na Copa de 1958.
Foram nessas crônicas de Manchete Esportiva também que Nelson lançou alguns dos insólitos epítetos com que gostava de caracterizar nossos jogadores. Didi era ora “príncipe etíope de rancho”, ora “imperador Jones” (referência ao protagonista de um drama expressionista escrito pelo teatrólogo Eugene O’Neill, autor que Nelson Rodrigues tanto admirava). Zagallo lembrava ao cronista as narrativas de Walter Scott e, por isso, ganhava a alcunha de Coração de Leão. E Bellini, futuro capitão do Brasil na vitória de 1958, se transformava, em jogos com a camisa cruzmaltina, no Javali do Vasco, por sua falta de cerimônia em jogar duro. Coube a Nelson ainda ser o primeiro a identificar a realeza de Edson Arantes do Nascimento e de tratá-lo como Rei Pelé em sua coluna de Manchete Esportiva.
Como gostava de fazer em todos os seus escritos, Nelson recorre em suas crônicas ao uso de uma linguagem extremamente coloquial. Nas crônicas rodriguianas, isso pode transparecer, por exemplo, pela escolha de um vocativo como “amigos” para figurar na abertura de muitos de seus escritos de colunista esportivo. Nelson tinha por hábito iniciar suas crônicas esportivas se dirigindo aos leitores com essa popular saudação, o que ajudava a estabelecer empatia com aqueles que acompanhavam suas colunas. Traço marcante da escrita machadiana, esse diálogo com o leitor era atualizado pela pena inovadora do cronista.
Ela se tornaria, por sinal, sua marca registrada e faria escola sendo seguida por outros jornalistas no passado e no presente. Cronistas de gerações tão distintas quanto João Saldanha e Matinas Suzuki Jr. a empregariam no jornalismo impresso, e, mesmo no meio televisivo, Galvão Bueno recorreria em suas narrações a uma expressão semelhante — “bem, amigos” — para iniciar as transmissões de jogos na Rede Globo de televisão (a expressão batizaria também o programa de variedades esportivas do locutor), o que assinala outra manifestação tributária ao estilo de Nelson.
Para termos a compreensão apropriada da importância de Manchete Esportiva, um projeto editorial que congregava boa parte da linhagem de jornalistas da família Rodrigues (o expediente registra Augusto Rodrigues como diretor, Nelson Rodrigues como redator-principal e Paulo Rodrigues como chefe de reportagem, e há as contribuições de Mário Filho como colunista) sob o aval do empresário Adolpho Bloch, é necessário destacar a sua revolucionária concepção gráfico-editorial. Essa moderna revista ilustrada esportiva explorava como nunca o impacto das imagens registradas com os atletas em ação. Realizava também reportagens especiais em fotos posadas. Quando da morte de Gilberto Cardoso (uma dessas personalidades esportivas do tempo em que nossos cartolas se dedicavam mais aos seus clubes do que às jogadas políticas), aos 49 anos, uma equipe da revista levou os atletas do Flamengo até o cemitério de São João Baptista e fez uma foto com todos em volta de seu túmulo. De outra feita, Didi foi convidado a explorar seus dotes de ator para as lentes de Manchete Esportiva no Theatro Municipal do Rio de Janeiro “interpretando” o Rigoletto de Verdi, para libreto em estilo de “fotonovela” de Paulo Rodrigues. Esse flagrante foi registrado em pôster e fotos que tomaram várias páginas da revista.
Secundando o que outras publicações como O Cruzeiro e o Jornal da Semana Flan vinham fazendo com as estrelas de cinema hollywoodianas e personalidades conhecidas, o magazine reservava invariavelmente sua contracapa colorida para abrir o “ektachrome” de alguma atleta fotografada em um recanto paradisíaco em poses de pin-up. Os registros dos atletas treinando ou mesmo no ambiente descontraído de casa eram de igual maneira trabalhados pela reportagem. As caricaturas assinadas por Lan e por Fritz recebiam, por sua vez, tratamento especial. Lan chegou a ganhar a página central, onde pôde explorar as formas exuberantes de seu traço, exibidas com requintes que destacavam as cores de sua palheta.
Nos primeiros números de Manchete Esportiva, a crônica de Nelson Rodrigues aparece só com uma fotografia, a identificação “Nelson Rodrigues escreve” e ocupa um canto de página (recebe também títulos, que foram mantidos como nos originais para a presente edição). Quando se chega a crônica do dia 24 de agosto de 1957, no entanto, Adolpho Bloch sugere a Nelson uma denominação definitiva para a seção de crônicas do escritor: “meu personagem da semana”, que é prontamente encampada pelo cronista. Em crônica, inédita em livro e que aparece pela primeira vez neste volume, Nelson demostra todo o seu entusiasmo pela sugestão de Bloch.
A mudança marca também o momento em que as crônicas começam a ser ilustradas por fotos e saem do canto da página para tomá-la por inteiro. De uma única página, Nelson passará logo em seguida a ocupar folhas duplas que são diagramadas com tratamento gráfico sofisticado: além de fotos, uma rubrica com a caligrafia do escritor assinando o nome da coluna ilustra a seção, que deixa de apresentar qualquer outro título identificando o assunto (para facilitar o reconhecimento dos escritos por parte do leitor, destacamos o personagem em foco em cada edição).
A crônica que celebra a figura de Pelé como o “meu personagem do ano” de 1958, que circulou dentro de número especial da revista dedicado ao “Anuário de Ouro” que festejou a conquista da Copa do Mundo de 1958, é, para usarmos expressão do próprio cronista, digna de ser enquadrada e exposta em um museu. A coluna “meu personagem da semana” foi tão importante para o escritor que ele a levaria pelo resto de sua vida e para onde fosse. Passou com Nelson pelo Última Hora, pelo Diário da Noite e chegou finalmente a O Globo, em 1962, onde permaneceu pelo resto da vida do cronista.
O levantamento das crônicas de Nelson para a Manchete Esportiva que aparece neste volume é o resultado da pesquisa que realizei dentro do Programa de Pós-Graduação em Ciência da Literatura na Universidade Federal do Rio de Janeiro, com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Cnpq). Faz parte da tese Nelson Rodrigues — inventário ilustrado e recepção crítica comentada dos escritos do Anjo Pornográfico, defendida em dezembro de 2006.
As crônicas surgem de levantamento feito no Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, em Porto Alegre, e na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro. O museu porto-alegrense possui, entre os seus oito mil títulos datados desde 1920, a melhor, mais bem cuidada e abrangente coleção de Manchete Esportiva por mim encontrada e deve ser parada obrigatória para os pesquisadores interessados em publicações esportivas. A coleção da Biblioteca Nacional, ainda que quase completa, deixa, como a do Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, de registrar alguns números (por felicidade não há coincidência nessas falhas, o que permitiu o acesso à coleção integral da revista), mas se encontra em um estado tão precário que torna difícil a simples consulta. É de se lamentar que a falta de recursos dessa que é a primeira biblioteca da América Latina e a oitavo do mundo não tenha conseguido resguardar em microfilme uma publicação da qualidade e da importância de Manchete Esportiva. Fica como consolo o fato de sabermos que pelo menos as crônicas de Nelson Rodrigues para a revista estão aqui reunidas e preservadas definitivamente.

