Ediléia era feia. Feia de dar dó. O que causava surpresa em todos era que apesar de toda a sua feiúra, ela estava com casamento marcado, com data e local acertados. O contra-senso ainda se tornava maior, porque Ediléia ia se casar com o rapaz mais bonito e cobiçado de seu bairro. Aquele que todas as moças andavam disputando a tapa e que muitas mães queriam como genro (aparentemente era isso mesmo, apenas como genro). Angenor tinha o porte atlético dos atores hollywoodianos e gostava de desfilar com ar de galã pela vizinhança, sempre muito posudo e todo senhor de si.
Todo mundo devia achá-lo um louco. Mas nem tanto. Ele também assinaria embaixo com toda convicção um atestado acusando toda a fealdade da noiva. Foi por isso que, certo final de tarde, o futuro marido de Ediléia resolveu contar o seu drama para o seu pai e se aconselhar sobre sua situação.
Os dois se encontraram, a pedido do rapaz, em um bar distante do bairro em que moravam para que ficassem totalmente à vontade. Angenor, no entanto, não precisou nem puxar o assunto que tanto o afligia. O pai atacou logo:
– Já sei, você não acha a sua noiva bonita. Não é isso? Pois preste atenção, meu filho: a beleza, a graça é o que menos importa em um casamento, sabia? O fundamental nessa hora são os dotes pecuniários da moça. Veja bem, você acha que sua mãe era por acaso alguma miss Brasil quando nós nos casamos? Claro que não. E o olha que o pai dela não era nenhum empresário rico como o seu Lorival.
Seu Lorival, pai de Ediléia, era dono de uma empresa brasileira com escritórios e representações por todo o país e já havia prometido ao futuro genro uma posição de direção em seus negócios.
O pai de Angenor continuou:
– Vai por mim, meu filho. Casa, cumpre com as formalidades da lua de mel e depois cai na bandalha. É o que todo mundo faz.
Angenor ficou meio pensativo e depois finalizou a conversa um pouco como que contrariado:
– É, acho que vai ter de ser isso mesmo.
Foram para casa juntos e de noite na cama Angenor ficou pensando como é que iria fazer para encarar aquela filha de Fu Manchu toda manhã e por todas as semanas, meses e anos de sua vida. Chegava ainda a se lembrar de um fato inapelável: a convivência sob um mesmo teto costuma transforma em pouco tempo a mulher graciosa em uma Maria Fumaça. Imaginava assim o quanto não iria penar com Ediléia.
No dia seguinte eles foram ao cinema. Quando Ediléia tentou beijá-lo ele se afastou. A cena se repetiu algumas vezes até que o rapaz tratou de reiterar à noiva o que já havia dito a ela antes: a sua aversão a qualquer tipo de beijo. E ainda comentou como que irritado:
– Será que você não vê que essa é uma coisa pouco higiênica?
A noiva achava muito esquisito aquilo tudo e não entendia muito bem a atitude do noivo. Mas, para não perder Angenor, se fazia de sonsa e se conformava de andar apenas abraçada e de sentar ao lado do rapaz onde quer que eles fossem.
Estava se aproximando a data do casamento. Faltavam poucos dias e Angenor já se via com a corda no pescoço e sem alternativa. Até que lhe ocorreu uma idéia: arrumou um jeito de quebrar uma das pernas na véspera da data do matrimônio. Foi o casamento mais engraçado de que se tem notícia. O noivo adentrou a igreja mancado de uma das pernas, ainda que com um terno preparado para cobrir todo o gesso. Casaram assim mesmo ainda que todos tivessem achado muito estranho aquela cerimônia. A perna quebrada foi também a desculpa perfeita para Angenor justificar a impossibilidade de cumprir com suas obrigações nupciais. O casal foi e voltou da lua de mel sem que nada tivesse acontecido. Angenor gostou tanto da idéia que adiou por semanas e mais semanas, meses e mais meses, a sua convalescença. Estava adorando aquele casamento monástico. Um casal com vida celibatária. Até que chegou um momento em que não dava mais para contornar as evidências da sua cura completa. O rapaz ainda tentou adiar as coisas por mais um dia e disse:
– Ediléia, vou amanhã a tarde jogar uma peladinha com os amigos. Se aguentar o tranco, é porque estou curado.
No dia seguinte, Angenor deixou à casa dos sogros. O casal estava morando na mansão de dois andares de seu Lorival. Ediléia ficou em casa. Próximo das 14 horas, uma das serviçais subiu para chamar a moça para o almoço de sábado. Bateu na porta do quarto uma, duas, três vezes, e Ediléia não respondia. Achou por bem então adentrar o recinto assim mesmo. Viu em seguida e na contra-luz uma silhueta no chão. Ediléia estava estirada junto à cama trajando o vestido do casamento. Havia se suicidado com formicida. Na mão daquela Ofélia feia foi encontrado um bilhete que dizia: “Quero ser enterrada assim. Como uma noiva virgem”.

