Contos Rodriguianos I – Pavor de Nelson Rodrigues

Ela tinha medo, aversão. No fundo, no fundo, um pavor imenso por qualquer coisa que se relacionasse com Nelson Rodrigues. Quando ainda era adolescente, morava com sua mãe e suas irmãs em uma vila arborizada em Laranjeiras, próxima à Praça São Salvador. Na casa conjuminada à sua, residia uma garota um pouco mais velha do que ela que comprou certa vez um livro com algumas das peças do dramaturgo. Essa amiga, Eneida, começou a ler e ficou fascinada com aqueles escritos. Selecionou então e quis por quis mostrar alguns trechos, passagens e cenas, que mais a tinham impressionado, para a vizinha e amiga. Matilde ficou horrorizada.

– Pelo amor de Deus, não. Tenho medo desse homem. Imagina, falam cobras e lagartos sobre ele. Dizem até que ele dorme em um caixão.

A outra tentou contraargumentar:

– Mas as cenas são ótimas, você vai gostar, tenho certeza.

– De jeito nenhum – foi enfática com a amiga.

É, não houve mesmo jeito de convencê-la. Por essa época, Matilde andava com a cabeça em outras coisas e integralmente ocupada com o esporte. Era nadadora do Fluminense Football Club e o que lhe alegrava a alma era ser admirada em seu maiô emborrachado nas águas azuis da piscina do clube, como uma Esther Williams. Acontecia até uma coisa curiosa. De manhã bem cedo durante os dias de semana, os rapazes ficavam admirando as meninas enquanto essas treinavam na piscina olímpica. Encerrados os treinos de natação, era a vez de as meninas apreciarem os jovens dando suas botinadas naquele que foi o famoso campo de Álvaro Chaves.

No time de futebol juvenil do Tricolor havia um rapaz que chamou a atenção de Matilde. Despontava como um ótimo centro-avante e era tratado por seu sobrenome, Fortes. Para ter assunto com sua paquera, Matilde teve uma idéia que deu certo: comprar o Jornal dos Sports diariamente para saber as novidades sobre os jogos de seu clube do coração. Lia o diário esportivo inteirinho e gostava até da coluna que Nelson Rodrigues assinava no jornal cor de rosa sob o título de Futebol e Gente.

E assim, depois de apresentada ao Fortes, não faltava assunto para os dois conversarem. Certa manhã de sábado no clube, Fortes resolveu convidá-la para assistirem juntos ao jogo de domingo: um disputadíssimo certamente. Um clássico Fla-Flu. E ainda perguntou à sua pretendente:

– Algum palpite sobre o jogo de amanhã? Será que o Fluminense ganha?

– Óbvio ululante que sim – completou de imediato a moça apostando no efeito do que dizia. E não deu outra.

– Giria gostosa essa sua, Matilde. De onde você tirou isso? – foi o comentário do rapaz.

No dia seguinte os dois se esbaldaram com a vitória do Tricolor que ganhou de lavada no Maracanã. Passaram o começo da semana inebriados com a façanha do Fluminense e felizes com o namoro que finalmente tinha engrenado. Matilde ainda estava envolvida pela alegria do novo amor quando Eneida veio procurá-la. A vizinha foi direto ao assunto com a amiga:

– Dessa vez você não me escapa. Essa semana entra em cartaz uma peça nova do Nelson e vamos assistir juntas, sem falta.

– Que Nelson, Eneida? – replicou Matilde, já esquecida de quem se tratava.

– Nelson Rodrigues, oras bolas. É assim, com toda intimidade, que as pessoas se referem a ele.

Corria então o ano de 1963 no Rio de Janeiro e o escritor realmente preparava sua nova criação dramatúrgica: “Otto Lara Resende ou Bonitinha, mas ordinária”, peça cujo título seria fonte do maior desconforto entre Nelson e um de seus amigos mais queridos. Antes da estréia e enquanto ainda estavam instalando o luminoso que anunciaria o novo drama rodriguiano no teatro Maison de France, Nelson, que vinha trabalhando sua peça sem alarde, convidou Otto para um passeio pelo centro do Rio. Levou-o até a porta do Maison de France. Quando viu o seu nome na fachada do teatro em letras garrafais, Otto ficou muito contrariado e soltou os seus desaforos. Nelson ainda perguntou:

– Não vai nem assistir ao espetáculo?

– E eu vou lá me ocupar com uma palhaçada dessas – foi a resposta.

E nunca foi mesmo ver a peça do amigo com quem ficou brigado por anos.

Matilde também não queria ir à peça. Mas pensou, pensou, e viu que não tinha outra alternativa. Não dava para escapar daquela. Mesmo porque, não podia colecionar mais uma desfeita para com a amiga. Lembrou ainda de uma frase que ouvira ou que pensara por conta própria: “Namoro é sempre bom, mas nunca se sabe o dia de amanhã”.

E assim, na estréia da peça de Nelson Rodrigues, estavam as duas lá na porta do teatro Maison de France fazendo fila desde cedo. Entraram, escolheram seus lugares, as luzes se apagaram, subiu o pano e a encenação teve início. Não deu vinte minutos de peça, no entanto, e Matilde principiou a se sentir incomodada com o que via. Aquelas falas, aquele enredo, aquele desfile de poluções começaram a mexer com ela e a deixá-la perturbada. A certa altura não se conteve e falou como que chateada com a amiga:

– Pra mim chega. Isso é baixaria pura. E das grossas.

Deixou Eneida sozinha e partiu em debandada. Ao chegar ao hall do teatro se deparou com o autor que acompanhava a movimentação na estréia de sua peça. Nelson então interpelou-a:

– Ué, já vai, meu anjo? A peça está apenas em seu começo.

– Você é um doente – respondeu a moça e seguiu adiante.

Nelson ficou ali a pensar: “É, melhor a repulsa do que a indiferença.”

Deixe um comentário