
Cuidado com o Ibama. Foi a recomendação bem-humorada de Antônio Carlos Secchin para Ruy Castro no começo de sessão recente da Academia Brasileira de Letras em que a palestra “Nelson Rodrigues, Íntimo” era apresentada pelo acadêmico e biógrafo do Anjo Pornográfico. Tudo por conta da quantidade de Jabutis que Ruy tem levado pra casa ao longo de sua carreira. Mas não houve acordo sobre o número exato de réplicas da espécie que o premidado escritor guarda em sua residência à beira-mar, debruçada sobre a praia do Leblon. Seriam seis ou oito? É que, como já nos mostrou o Big Brother de Orwell, algumas vezes, dois mais dois podem não dar exatamente quatro. Secchin, no entanto, parece estar com a razão. Ruy possui 6 Jabutis nas estantes de seu apartamento, muito embora, tenha merecidamente obtido oito premiações concedidas pela Câmara Brasileira do Livro (instituição sem fins lucrativos que criou o prêmio já se vão aí 67 anos).
Foram dois Jabutis por “Estrela Solitária – um Brasileiro Chamado Garrincha, em 1996; outro por “Carmen – uma Biografia”, em 2006; mais um pelo romance “Os Perigos do Imperador – um Romance do Segundo Reinado”, em 2023; e dois outros por “O Ouvidor do Brasil – 99 Vezes Tom Jobim”, neste ano, repetindo o feito da biografia de Garrincha. O escritor ganhou ainda uma menção honrosa por “Carnaval no Fogo – Crônicas de uma Cidade Excitante Demais”, em 2004, e ficou com um 3o lugar por “A Noite do Meu Bem”, em 2016 (as duas últimas, portanto, sem o prêmio máximo).
De qualquer jeito, digamos que é pouco para a produção significativa que Ruy Castro tem entregue há décadas entre biografias, romances e reportagens históricas, todas obras escritas com uma verve elegante, sofisticada, culta (por vezes erudita, mas sem pompa alguma), maliciosa, em alguns momentos, e mesmo galhofeira, em outros, dessas que surpreendem o leitor a cada parágrafo. Ruy tem o dom de fugir com a maior habilidade ao texto burocrático, formal, corriqueiro. Seguindo seu exemplo, não podemos ter uma postura contemplativa e indiferente para falarmos sobre “O Ouvidor do Brasil – 99 Vezes Tom Jobim”(Cia das Letras, 2024), sua penúltima e agora premiada obra.
O título parece coisa de idólatra, o que Ruy Castro declaramente é. Já escreveu pelo menos três obras deliciosas em que o maestro Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim ainda que não seja o assunto central, aparece em perfis extensos e passagens recorrentes: “Chega de Saudade – a História e as Histórias da Bossa Nova” (Cia da Letras, 1990), “Ela é Carioca — Uma Enciclopédia de Ipanema” (Cia das Letras, 1999) e “A Onda que se Ergueu no Mar — Novíssimos Mergulhos na Bossa Nova” (Cia da Letras, 2001). Nelas mostrou as múltiplas facetas do compositor, arranjador, inspirado letrista, amigo boa praça, um dos inovadores e posteriormente divulgador em escala planetária da música brasileira. Em sua nova ode a Jobim, Ruy tenta vislumbrar uma qualidade a mais para o autor de uma infinidade de clássico da Bossa Nova, a de ouvidor. Para tanto, chega mesmo a criar uma definição pessoal de dicionário para enquadrá-lo como tal e citá-lo como exemplo. Mas tudo sem sucesso pra muito além do chiste espirituoso.
Se Tom tem incontáveis e merecidades qualidades, a de ouvidor não está entre elas. Ao Tom poderíamos dar, sem erro, o título de embaixador-mor da cultura brasileira no exterior. Isso de fato ele foi. Mas pra alguém que passou longos períodos ausente do país e que ao cruzar o túnel Rebouças parecia começar a sentir saudades do Brasil, essa designação não parece a mais apropriada. Podemos mesmo nos perguntar: será que Tom Jobim saiu alguma vez de suas casas no Jardim Pernambuco, no Leblon, ou no Alto do Jardim Botânico e deu um passeio pela Pavuna, pela Penha, por Madureira, para saber quais as carências e dramas de quem vive por lá? Ou, tão simplesmente, qual a música que graceja por esses recantos distantes da beira-mar carioca? Que se saiba, não.
Tom apenas fugia de seu reduto na Zona Sul (do Leblon, onde batia ponto na churrascaria Plataforma, do Jardim Botânico, em que gostava de visitar as palmeiras imperiais e passear por suas aléias para ver a sua querida fauna e flora, ou do Humaitá, onde tinha sua roda de amigos que se encontrava todo sábado na Cobal) pra cruzar o túnel e pegar um avião com destino aos Estados Unidos preferencialmente. Ali, ele passou longas temporadas durante toda a sua vida. Chegou a adquirir um apartamento em Manhattan, de frente para o Museu Metropolitano. Teve apenas uma exceção. Tom esteve na Mangueira quando a escola de samba da Estação Primeira quis homenageá-lo em 1992 (pouco antes de sua morte aos 67 anos em 1994). Castro argumenta que Tom tinha sido esquecido pelas gravadoras e que não havia mercado de trabalho para ele no Brasil e por isso lançou âncora em pairagens tio-sâmicas. Nem tampouco para Caetano Veloso, Gilberto Gil, Chico Buarque, poderíamos contra-argumentar, todos cantores e compositores que nunca se interessaram em arredar o pé daqui por livre e deliberada escolha. E, de mais a mais, não há nada de errado em querer fazer dinheiro no exterior.
“O Ouvidor do Brasil – 99 Vezes Tom Jobim” reúne uma seleção das crônicas que lemos no jornal Folha de São Paulo todas as semanas. A página 2 da Folha já foi cantanda em prosa e verso por abrigar a nata da intelectualidade brasileira. Otto Lara Resende, Claudio Abramo, Clovis Rossi, Carlos Heitor Cony já gozaram do cobiçado direito de ocupar o posto de colunistas daquela página. Desde 2007, Ruy Castro entrou para esse seleto grupo. As aqui compiladas vão até o ano de 2023 quando Ruy ainda assinava três colunas por semana. Depois que o jornal se transformou em tablóide, um pasquim minguado que daria vergonha ao Pasquim, as colunas, que ficavam ao lado do editorial, migraram para a página 3 e os dias em que temos colaborações de Ruy por lá aumentaram de para quatro vezes por semana, às segundas, quintas, sextas e domingos, para os que gostam de acompanhá-lo.

Um recurso recorrente dessas colunas de Ruy são as listas. Aliás, é um recurso usado em seus livros também, mas que predomina em suas crônicas. O detalhe importante é que elas não são gratuitas e sempre pesquisadas com esmero. Mas temos lista pra tudo: epitáfios, endereços importantes, nomes próprios, placas municipais que indicam lugares em que viveram pessoas famosas. Essas listas aparecem ainda em um texto vivaz, cheio de tiradas mordazes, quando não abertamente zombeteira.
Quando Ian McCulloch, do grupo Echo and the Bunnymen (engraçado saber que, apesar da aversão ao lixo de guitarras barulhentas, Ruy se deu ao trabalho de saber da existência deles), disse que “The Killing Moon” era a melhor música de todos os tempos, o cronista tratou de enumerar uma infinidade de músicas nacionais e internacionais, para concluir que “The Killing Moon” não é “sequer uma das duzentos melhores canções sobre a lua”. Ruy poderia ter sido mais condescedente com o cantor e sua banda que em seu show no Canecão no Rio de Janeiro chegou a fazer um medley da bossa novística “Light my Fire”, dos The Doors, com “Garota de Ipanema”, de Tom e Vinícius.
Ruy procedeu a um levantamento grande em forma de lista também para provar que os compositores-criadores da bossa nova, incluindo Tom Jobim obviamente, não ficavam presos a seu próprio repertório e, pelo contrário, gravavam outros compositores à larga. Estava até esperando por essas semanas que alguma crônica lembrasse que além de compositores consagrados (Pixinguinha, Ary Barroso, Dorival Caymmi), Jobim abriu exceção ainda para gravar músicas da novíssima geração de compositores que conheceu. Mas foram pouquíssimos os felizardos a terem essa honria. Um dos que gozaram desse privilégio foi Lô Borges (Tom também gravou “Tiro Cruzado”, de Nelson Angelo). De Lô, Tom registrou em disco “O Trem Azul” em português e ainda verteu a letra a gravou em inglês.
Sem querer desmerecer a obra, é de surpreender qualquer um a dupla premiação em primeiro lugar de “O Ouvidor do Brasil – 99 Vezes Tom Jobim”. E a justificativa se deve ao fato de ela chegar sem que “A Onda que se Ergueu do Mar” (2001), “A Noite do Meu Bem” (2015) e “Metrópole à Beira- Mar” (2019), trabalhos de fôlego bem maior, tenham ganho qualquer distinção por parte dos jurados do prêmio da Câmara Brasileira do Livro. De qualquer jeito, é de se esperar que ano que vem “Trincheira Tropical – a Segunda Guerra Mundial no Rio” (Cia das Letras, 2025), o mais recente trabalho de Ruy e, de novo, de inacreditável fôlego, leve o grande prêmio.
“Blue Train”, versão de Tom Jobim para música de Lô Borges

