Conversão ao Marxismo

Tomo 50 da Great Books of the Western World, da Enciclopédia Britânica, dedicado a Karl Marx

Estou fazendo uma aproximação do pensamento de Karl Marx. Conheço superficialmente sua obra e não saberia dizer com precisão muita coisa sobre seus estudos pra além do meramente trivial. É verdade que Marx, assim como Shakespeare e Freud, é um daqueles autores/escritores que, mesmo quem nunca leu uma única linha de suas obras, pode comentar sobre várias passagens, expressões e máximas de seu repertório. Há mais frases, conceitos, ideias de Marx mencionadas cotidianamente entre o céu e a terra do que julga a nossa vã filosofia. Assim como sabemos, mesmo sem nunca ter tocado em uma única obra de Freud, o que é superego, id, complexo de Édipo, ato falho, também podemos discorrer sobre luta de classes, mais-valia, alienação, infraestrutura/superestrutura e outros tantos conceitos trabalhados por nosso Carlos Marques em seus escritos.

Meu guia nessa empreitada tem sido o pesquisador do pequeno Instituto Latino Americano de Estudos Socioeconômicos (Ilaese, com sede em uma salinha em um edifício no centro de Belo Horizonte) Gustavo Machado, que, há 15 anos, se dedica a investigar a obra do pensador alemão. Me tornei assinante de seu canal no YouTube, o Orientação Marxista, e convido os leitores a apoiarem o seu esforço em popularizar o pensamento de Marx. Ao tornar-se membro de seu canal temos acesso, via Google Drive, a seus fichamentos, estudos e sua tese de doutorado de quase mil páginas. Ela leva o título de “Marx e a Filosofia” e deverá, assim como sua dissertação de mestrado (“Marx e a História”, Editora Sundermann, 2016), ser lançada em breve. Os inscritos podem também ver a gravação de sua defesa de doutorado na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), um embate cheio de controvérsias até mesmo entre professores entendidos na obra do barbudo alemão.

Não se trata de pose. Gustavo é leitor dedicado e também dá aulas e disponibiliza em seu canal no YouTube análises explicativas de “O Capital” para quem tem interesse em conhecer o trabalho do filósofo alemão. Já passou a pedreira do tomo 1 (único concluído em vida pelo autor) do título mais conhecido e falado de Marx e promete, assim que tiver tempo, apresentar o restante da obra mais fundamental do pensador.

Além do trabalho sério, suas postagens, que curiosamente surgem às vezes em um português trôpego e farto em solecismos, servem comentários sobre a atualidade política brasileira e internacional. São postagens fertilmente ilustradas por alguém que, além de toda a obra de Marx, leu muito e sabe discorrer com desenvoltura sobre os momentos mais críticos e decisivos da história, assim como discutir consequentemente as ideias de pensadores como Aristóteles, Platão, Hegel, Adam Smith, David Ricardo, Malthus, Durkheim, Weber, ou de um período posterior como Keynes, Harvey e Mises. Além obviamente dos marxistas (ou encarados como tal) como Lenin, Trótski, Rosa Luxembourgo, Adorno (foram os que o ouvi mencionar até o momento), bem como dos comentadores contemporâneos da obra marxiana (termo que ele detesta; assino embaixo), como Fred Mosely e Robert Allbitron (americanos), Christopher J. Arthur (inglês) e Geert Reuten (holandês), entre muitíssimos outros.

Gustavo Machado destaca como um dos traços marcantes da escrita de Marx o seu constante e estilistamente extraordinário uso da ironia. Algo que o pesquisador simbioticamente e talvez de forma inconsciente acabou incorporando à sua oratória e ao seu texto que têm incomodado tanto esquerdistas quanto direitistas. Em discussões em vários podcasts, Gustavo Machado tem dado trabalho a interlocutores conservadores com titulação, como Marco Antonio Costa, comentarista da Jovem Pan (apelidado sarcasticamente de Superman da Shopee pelos críticos de suas falas canhestras), doutor em direito pela PUC de São Paulo, ou pouco preparados, apesar da grande experiência, como escritor, analista político, palestrante, tradutor com passagens pela Jovem Pan, RedeTV!, Gazeta do Povo e Brasil Paralelo, como Flavio Morgenstern. Os esquerdistas como Elias Jabbour e Jones Manoel, examinados nas imprecisões de suas falas por Gustavo, por sua vez, o têm atacado e mesmo se recusado a debater com ele em função de suas posições e críticas firmes frente a algumas políticas praticadas pelo governo Lula e pela China, por exemplo.

Controversa mesmo, no entanto, foi a sua discussão e classificação em um vlogue em seu canal de que a economia (seja a microeconomia ou a macroeconomia) seria uma pseudociência. A argumentação é bastante convincente e não segue a linha daquela balela que levou Natália Pasternak à identificação da psicanálise como tal. Partindo do pressuposto de que o objetivo maior de Marx em “O Capital” foi fazer uma análise cientificista e crítica da economia burguesa e mostrar sua lógica interna, Gustavo argumenta que, de uma perspectiva marxista, é impossível identificarmos em uma análise econômica, seja ela microeconômica ou macroeconômica, uma ciência. Para corroborar suas ponderações, ele dá o exemplo dos vários e possíveis cálculos do PIB, com base em salários, juros, lucros, subsídios, impostos, consumo das famílias, etc. Ainda que tais cálculos tenham sua validade, eles não poderiam, por não trazerem uma avaliação global descolada do momento que retratam de uma economia, mais do que assinalar uma análise pontual e pouco significativa.

Essa perspectiva relativiza as conclusões a que podem chegar os analistas de uma determinada economia. Por isso, imagino, temos que ouvir tantos disparates. Analistas que acham que congelar o salário mínimo por 6 anos pode ser uma alternativa para “ajustar” a economia. Outros que se assustam quando a taxa de desemprego cai, pois enxergam nela uma tendência não salutar para o mercado, entre outros absurdos que ouvimos diariamente. Para analisar um determinado momento, esses parâmetros podem até serem usados, mas, de uma perspectiva científica, eles não valeriam absolutamente nada. Gustavo lembra que, além de números que resultam de levantamentos bastante problemáticos e que escamoteiam dados essenciais (ele mostra exemplos em sua fala), eles nunca conseguem fazer uma análise crítica e ampla sobre a economia que examinam. São recortes em grande medida aleatórios. É verdade que apesar das imprecisões e das conclusões estapafúrdias a que esses dados possam nos levar, o próprio Gustavo e o Instituto em que atua lançam mão deles para preparar o seu “Anuário Estatístico do Ilaese, Trabalho e Exploração”, que reúne informações sobre as principais empresas em atuação no Brasil e no mundo.

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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