Uma Campanha de Verdade

Boulos conversa com os eleitores nas ruas na sua Caravana da Virada

Que exemplo de campanha política o candidato à prefeitura de São Paulo Guilherme Boulos apresentou neste segundo turno. Habituado a frequentar a periferia onde atuou junto ao Movimento dos Trabalhadores sem Teto, bem como no projeto de cozinha solidária do mesmo movimento, ele abriu mão de ficar debatendo em estúdios de rádio e televisão climatizados e foi para a rua encontrar o eleitor. Nunca vi um candidato partir para o embate direto com a população com o objetivo de conhecer melhor sua realidade e suas demandas. Com sua iniciativa, Boulos surge como uma autêntica e íntegra novidade na corrupta e degradada cena política brasileira.

O mais importante, no entanto, é que Boulos se mostrou extremamente preparado e firme ao longo da sua campanha. Revelou seu projeto de administração baseado nas informações conseguidas com sua vice Marta Suplicy e com outros integrantes de sua equipe que participaram e participam da corrente administração da capital do estado de São Paulo. Com dados concretos, passou a corrigir repórteres sobre os números da prefeitura. Por ter a vivência das ruas, deu também a maior volta em todos os outros candidatos que mal conheciam a situação real da cidade que querem administrar. Apresentou desde o início ainda, e pra além das propostas para aquelas áreas como saúde, educação e segurança, que são responsabilidade de um município que cobra pesados tributos aos cidadãos, iniciativas para apoiar aqueles que querem empreender e projetos para revitalizar áreas abandonadas da cidade de São Paulo.

Parece que os comentadores de política seguiram sem prestar a devida atenção ao que está acontecendo e se mostraram obtusos em suas podenrações. Para uma mesa do Canal Meio, por exemplo, a esquerda nunca encampou como sua pauta o empreendedorismo. Segundo eles, esta é uma agenda apenas dos candidatos de direita. Se aplicar golpes digitais como estelionatário virou empreender, então, está perfeitamente entendido. E vejamos, tente lembrar de um único projeto da direita brasileira que visasse estimular ou ajudar o cidadão que quer empreender.

E chega a parecer mesmo que o empreendedorismo é uma novidade que não faz parte da vida do cidadão comum e que só se dá no Vale do Silício. Visão típica de quem nunca esteve nas periferias como as que Boulos tem visitado. Se esses observadores saissem de suas residências e dessem um pulo até a Via Ápia, na entrada da Rocinha, iriam ver quantas pessoas estão empreendendo e quantos negócios estão sendo feitos e acontecendo dia e noite. Achar que a única coisa que funciona em uma favela é o comércio de drogas é típico de quem nunca esteve por lá.

Entre os moradores desta comunidade, por exemplo, temos esteticistas, varejistas de produtos para celular, computador, vestuário, eletricistas, técnicos de informática, cozinheiras, profissionais da construção civil, diaristas, a grande maioria trabalhando por conta própria. Muitos deles ainda correm atrás de sua formação escolar buscando estudar em suas horas vagas. É verdade que nenhum herdou, como Elon Musk, dinheiro de família, nem, como Bill Gates, se beneficiou de um monopólio de mercado e outras vantagens circunstanciais.

Talvez por isso não sejam vistos pelos jornalistas e cientistas políticos que frequentaram o meio acadêmico de universidades americanas como Stanford, em Palo Alto, e a Universidade de Nova York. Curioso também que pessoas conectadas com o mundo high tech e que passaram por Stanford tenham demorado tanto tempo para colocar de pé uma tentativa de projeto jornalístico não alinhado. Muito antes deles, o Mídia Ninja já vinha se notabilizando por suas reportagens nada convencionais em coberturas ao vivo iniciadas nos protestos de rua de 2013 e que seguem até hoje. Um jornalismo combativo, bem longe dos estúdios, dos espaços institucionais, dos discursos oficiais.

Cobertura do Mídia Ninja para a campanha do candidato do PSOL

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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