O grupo da Ioga (Letícia, Otávio, Daniel, Regina, Marcela, Bel, Fernanda, Betinha, Carolina e Lauro) e, entre as baianas Poliana e Alana, Patrícia, Cynthia e Lorena
A semana que antecedeu o domingo de nossas eleições municipais foi passada visitando Ilhéus e Itacaré, ao sul de Salvador, num ponto do litoral equidistante entre Porto Seguro e a Cidade da Bahia, como o baiano se refere à capital do estado. Um passeio turístico com praias, trilhas e aulas de ioga comandadas pelos professores Fernanda Tomassini e Daniel Rivas. Itacaré é um município de perto de seus 30 mil habitantes que vive quase que exclusivamente do turismo e dos serviços a ele associados. Fica 73km ao norte de Ilhéus, que, por sua vez, tem uma população dos seus 180 mil habitantes e que sobrevive desde os anos 20 do século passado à custa das fazendas de cultivo de cacau, que se alastra em plantações pela região favorecido pelas sombras das florestas de Mata Atlântica.
Por ter um aeroporto com voos regulares para São Paulo, Ilhéus se torna também escala obrigatória para o morador do Rio que quer conhecer as praias selvagens de Itacarezinho, de Havaizinho, da Engenhoca e de Pé de Serra, em Itacaré. Bem como, o seu Rio de Contas, que vem margeando a cidade desaguar caudaloso no mar, e que guarda ao longo de seu curso manguezais e mesmo uma cachoeira. Em sua foz temos de um lado a Praia do Pontal e de outro, o Mirante do Xaréu (aquele que Caetano canta em “Milagres do Povo”), concorrido na hora do por do sol itacareense.
Se os moradores de Itacaré festejam sua geografia cativante, os habintantes de Ilhéus cultuam com o maior orgulho o fato de sua cidade ser o lugar onde Jorge Amado, nascido em 1912 na próxima Itabuna, viveu boa parte de sua juventude até partir para estudar direito no Rio de Janeiro nos anos 1930. É a cidade ainda em que o escritor baiano ambientou um de seus romances mais famosos, “Gabriela, Cravo e Canela”. Muito mal cuidada, a casa em que viveu o escritor baiano funciona como centro cultural. Já o cabaré Bataclan, ao contrário, foi muito bem reformado e oferece almoço de qualidade ao visitante. Entre a realidade e a ficção, temos na praça central a igreja Matriz de São Sebastião e o bar Vesúvio, de seu Nacib.
Caetano e o (Mirante do) Xaréu, em que “brilha a prata luz do céu”, música em homenagem a Jorge Amado, um ateu materialista que dizia ter visto o candomblé fazer milagres
Para o olhar de alguém que vem de fora, as eleições municipais locais pareceram ter evoluído um pouco, mas não muito em relação ao que elas eram no período inicial da exploração do cacau na região, o que é muito bem retratado por Jorge Amado em seu romance. Para a prefeitura de Ilhéus, por exemplo, tivemos esse ano até um candidato que se apresentava como Coronel Resende, ainda que não fosse coronel por ter fazenda e mandar na região, mas por ser militar reformado. Concorria obviamente pelo Partido Liberal (PL) de Bolsonaro. Pouco expressivo, ele acabou desistindo da candidatura às vésperas das eleições para ajudar a vitória do empresário Valderico Junior, do União Brasil, que derrotou a candidata do PT Adélia Pinheiro, médica, professora e ex-Secretária Estadual de Educação da administração petista do governador Jerônimo Rodrigues. Valderico acabou obtendo 43% dos votos, Adélia, 40%, e, como em eleições em cidades com menos de 200 mil habitantes não se tem segundo turno, o candidato do União Brasil terminou eleito.
Em Itacaré, o vitorioso foi Nego de Saronga do PT, que tem como vice o professor Zé Washington, do PSD, e que contou para se eleger com o apoio do atual prefeito da cidade, Antônio Anízio, também do PSD. Foi possível presenciar a carreata animada de Nego 13, como Nego de Saronga era referido nos muitos adesivos de sua campanha espalhados por carros, motos nas ruas e no bem visível diretório do PT na cidade.
Itacaré é um município simples, com uma legião de hippies e de artesãos locais oferecendo seus artesanatos nas imediações da praça central. Tem uma rede hoteleira e de restaurantes bem estruturada. Deu a impressão de ser mais cuidada do que Ilhéus. As manifestações políticas mais evidentes nessas cidades baianas se restringiram aos candidatos dos partidos que administram os municípios. Assim como tivemos a caminhada festeira de Nego 13 em Itacaré, em Ilhéus houve uma carreata gigante com baianas vestidas a caráter, música e barulheira na campanha de Bento Lima, candidato do atual prefeito Mário Alexandre (Bento foi secretário de gestão da atual administração), ambos políticos do PSD. Bento, no entanto, não conseguiu esconder os escândalos de uso indevido de verba pública da prefeitura, o que o deixou na lanterna entre os eleitores ilheuenses.
Voltando ao Rio de Janeiro, vimos o prefeito Eduardo Paes, da onipresente legenda de Gilberto Kassab, se sagrar vitorioso no primeiro turno. E em São Paulo, o PSD estava também no palanque comemorando a primeira colocação do peemedebista Ricardo Nunes. Uma tristeza ver os comentaristas de TV falando com naturalidade no PSD, do Kassab, no PL, de Valdemar Costa Neto. Pelo visto, os partidos políticos hoje no Brasil têm dono e suas legendas se transformaram em legendas de aluguel para políticos carreiristas.
Sempre imaginei que as pessoas se reunissem em torno de uma agremiação partidária por suas convicções. Foi assim nos anos 1940, quando Jorge Amado se lançou e foi eleito deputado federal por São Paulo pelo Partido Comunista Brasileiro, o que fez estritamente por suas cresças políticas. Mas agora não. Os candidatos concorrem pela legenda do Kassab, do Valdemar Costa Neto, pelo PDT, de Carlos Lupi. As únicas exceções talvez sejam o PSB e o PSOL.
Em tempos de voto de cabestro digital, tivemos também que ouvir de um guia de trilhas local que nos levou às praias do Resende, da Ribeira, da Tiririca e da Costa, que ele era direitista, mas, em lugar da linha bolsonarista, se identificava mais com o estilo de Pablo Marçal. Para os que estão muito assustados com a cena política, a impressão que ficou, depois de conhecer o cenário em cidades menores, é que essas legendas são pouco importantes para as decisões administrativas que os candidatos tomarão no futuro. Em Ilhéus, por sua importância, tivemos, ao contrário de Itacaré, um debate televisivo e os candidatos pareceram muito simplórios e pouco senhores de suas convicções. Foi a sensação que ficou.
Debate televisivo dos candidatos à prefeitura de Ilhéus (em cidades menores, como Itacaré, não houve debate na TV)











