Na Companhia de Fucô e Chomsky

Debate na Universidade Tecnológica de Eindhoven em 1971 com legendas em português, inglês e outros idiomas (opções nas configurações do YouTube)

Junho marcou os 40 anos da morte de Paul-Michel Foucault e por coincidência esse foi também o mês em que tentaram despachar Noam Chomsky (alguns inadvertidamente chegaram mesmo a fazê-lo) para o outro lado. Mas Chomsky, apesar da internação de uma semana em São Paulo como consequência ainda de um AVC sofrido no ano passado que o deixou com dificuldade para falar e com o lado direito de seu corpo paralisado, continua por aqui e “Fucô” foi lembrando em um congresso na Universidade de São Paulo em que se discutiu a atualidade e a presença de suas ideias. Revendo a trajetória desses dois grandes intelectuais que marcaram o pensamento do século XX, podemos observar as transformações pelas quais passaram e as crenças às quais se apegaram em meio as mudanças que se deram nas universidades mundo afora.

E pode-se começar confrontando o célebre debate entre Chomsky e Foucault gravado na Holanda na Universidade Tecnológica de Eindhoven em 1971, que virou também o livro “Natureza Humana: Justiça versus Poder”. O programa televisivo flagra Foucault e Chomsky vivendo, ainda que de maneira surpreendentemente sóbria, o momento agitado pós-maio de 68 na França e de mobilização universitária com as demonstrações públicas contra a Guerra do Vietnã nos Estados Unidos. E é impressionante a extrema dificuldade que esses dois empenhados militantes têm, enquanto debatem suas percepções sobre ciência e política, de chegarem a um consenso. Conceitos como “natureza humana” e “justiça”, que são na opinião de Chomsky noções corriqueiras e compreensíveis para qualquer um, traduzem, para o adepto de genealogias nietzschianas, insuspeitas construções sociais e, por isso, em lugar de serem utilizados como parâmetros triviais, devem ser questionados em sua origem.

Como veríamos depois, seria algo irreconciliável entre eles. Quarenta anos após a morte de Foucault, os cultuadores de sua obra seguiriam confrontando a posição de Chomsky de condenação de parte da corrente filosófica que apareceu junto com o autor de “A Arqueologia do Saber”, especialmente o relativismo das ideias propagadas pela tendência acadêmica que ficou conhecida como pós-modernismo. É certo que, apesar do valor inconteste de suas extensas, eruditas e densas pesquisas, há certo exagero e intransigência nas posições de Foucault.

Chomsky não foi o único a discordar de algumas posições cripticas de Michel Foucault. Edward Said, por exemplo, mesmo elogiando o importante legado deixado pelo pensador francês com quem se dizia em grande dívida intelectual, discordava de alguns de seus pontos de vista, particularmente sua busca por se posicionar contra a ênfase e peso dados ao caráter singular de um autor. Foucault advogava o desaparecimento do autor e da cultura que o criou. Essa abertura para o tema como que é antecipado como a fagulha na discussão sobre criatividade que dá início às discórdias entre Foucault e Chomsky no debate da televisão holandesa. O próprio pesquisador por trás de trabalhos tão extraordinariamente autorais quanto “História da Loucura”, “As Palavras e as Coisas”, “Vigiar e Punir”, e que ganhou fama e contribuiu para o avanço de ideias fundamentais para o debate contemporâneo, parece ser a negação da importância de tal postulado.

Uma pena portanto que Foucault, apenas dois anos mais velho do que Noam Chomsky, não tenha tido um percurso intelectual tão longevo quanto o do linguista norte-americano para seguir defendendo seus pontos de vista e mesmo para contradizer aqueles que o questionam. Ainda que não tenha visto no meio universitário o nascimento dos estudos multiculturalistas e pós-coloniais, as ideias de Paul-Michel Foucault acabaram de qualquer jeito tendo repercussão dentro dessas duas importantes vertentes acadêmicas de pesquisa que se iniciaram no final dos anos 1970 e que seguem fortes no século XXI. O curioso é que, em contraste com os estudos atuais, as pesquisas foucauldianas parecem de um eurocentrismo a toda prova, não apenas em seus postulados, mas especialmente pelo material de pesquisa que o filósofo escolhe para caracterizar suas hipóteses – é verdade que isso não é exclusividade dele, Said e Chomsky seguem bastante essa receita.

Foucault esteve por 5 vezes no Brasil. A primeira em outubro de 1965, para um curso na USP em que discutiu suas pesquisas daquele período que culminariam no livro “As Palavras e as Coisas”, lançado no ano seguinte. O curso acabou, no entanto, não acontecendo por conta dos desdobramentos do golpe militar de abril de 64. Depois de uma visita à Tunísia para lecionar, na segunda metade dos anos 1960, ele voltaria em 1973. No começo do ano, entre os dias 21 e 25 de maio, faria a célebre palestra que teve discussões quentes com Hélio Pellegrino, Affonso Romano de Sant´Anna, Chaim Katz e Luiz Costa Lima, entre outros. As palestras e os debates de Foucault estão registrados no livro “A Verdade e as Formas Jurídicas” (Nau Editora, 2003), com tradução de Roberto Machado e Eduardo Jardim, que participaram também do encontro (se tornaram dois conhecidos professores da PUC/RJ no período).

Roberto Machado, especialmente, ficaria a partir desse encontro de 1973, com o seu nome ligado ao do filósofo do Collège de France. Machado frequentaria vários cursos de Foucault na renomada instituição francesa a partir daquele ano e viraria amigo particular e cicerone do autor de “História da Sexualidade” em suas outras passagens pelo Brasil. O relato desta convivência está no livro “Impressões de Michel Foucault” (n-1 edições, 2017), em que, além da apresentação das questões discutidas por Foucault ao longo de sua extensa obra, conhecemos o filósofo francês em sua intimidade, algo que irritava Fucô, pois considerava sua vida particular irrelevante.

O congresso de junho na USP serviu para vermos como andam as pesquisas inspiradas na trajetória e no trabalho do intelectual do Collège de France, que faria carreira também como professor visitante na Universidade de Berkeley na California nos anos de 1980. Um dos palestrantes foi Marcelo Hoffman, da Universidade de Pace em Nova York. Ele apresentou as conclusões de seu trabalho “Foucault in Brazil: Dictatorship, Resistance, and Solidarity” que cobre a atuação de Foucault em relação ao cenário político brasileiro durante os anos de chumbo.

Foucault voltou ao Brasil no triênio 74, 75 e 76, sempre nos meses de setembro e outubro. Quando em outubro de 1975 dava um curso sobre “História da Sexualidade” (projeto que resultaria em seu último trabalho, editado em 4 volumes) na USP, decidiu encerrar o curso no meio em solidariedade aos estudantes por conta da repressão política que resultou na prisão de professores, alunos e jornalistas. Foucault falou em uma das assembléias universitárias sobre o arbítrio para justificar o encerramento do curso e ficou ainda na cidade para participar da missa ecumênica em nome do jornalista Wladimir Herzog, de início dado como encontrado morto por suicídio na prisão, e, depois, reconhecido como mais uma pessoa assassinada pelo regime militar brasileiro no Destacamento de Operações de Informações e Centro de Operações de Defesa Interna (DOI-CODI).

Mais do que a trajetória pessoal de Foucault, suas ideias já vinham há muito dando ensejo a pesquisas interessantes no Brasil, certamente por ter visitado muito o pais. A difusão de suas obras e preocupações filosóficas tiveram a seu favor o gabarito de uma intelectual como Margareth Rago. Professora aposentada da Unicamp, mas ainda ativa, Rago desenvolveu estudos inovadores dentro da nossa realidade inspirados nas obras do pensador francês e ajudou a formar muitos quadros de pesquisadores que hoje aplicam as ideias de Foucault a universos como o das igrejas pentecostais e das práticas psiquiátricas no país. Foucault segue portanto com cartaz em alta no meio acadêmico brasileiro. Além do encontro na USP, já havia ocorrido outro em maio na Unicamp também lembrando os 40 anos de sua morte.

Margareth Rago da Unicamp apresenta o pensamento de Foucault e trata de aplicá-lo à nossa realidade

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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