Belenkaya enfrenta o indiano Gukesh, aos 17 anos o mais jovem enxadrista a disputar o título de campeão do mundo a acontecer em novembro próximo
Edgar Allan Poe, que em ensaio famoso ensinou ao mundo como se faz para escrever um poema elaborado e extraordinariamente sombrio, como “O Corvo”, tratava de identificar, em suas muito particulares confabulações de ordem teórica, dois tipos de aptidões humanas segundo sua peculiar visão: a calculista e a analítica. Identificava a primeira como sendo um traço dos que jogam xadrez e a segunda como daqueles que se entregam a partidas que exibem uma maior interação entre seus participantes como nos jogos de damas e de cartas. Advogando a superioridade dos jogos de azar, Poe justificava que só uma mente analítica seria capaz de alcançar a intricada e superior dimensão psicológica inerente aos jogos de damas e ao carteado e tão distante do frio e frívolo xadrez. Segundo Poe, “é pra além dos limites das meras regras que a habilidade do analista se evidencia”. Constrangimentos, hesitações, audácias, apreensões. Tudo, de acordo com Arthur Gordon Pym, contribui como “indicação do verdadeiro estado das coisas”. Associava essa capacidade àquela exibida pela mente brilhante de um C. Auguste Dupin que era capaz de desvendar um mistério tão complicado quanto o dos assassinatos ocorridos na Rua Morgue.
Xadrez de rua na França contra o GM indiano Vidit Gujrathi
O mais admirável autor de contos góticos da história, no entanto, não teve tempo de conhecer o xadrez que lança suas peças em modo blitz acompanhado pelo que se convencionou chamar de “trash talk”. Essa é uma versão menos calculista e mais reflexiva e análitica e tem na pessoa da enxadrista russa Dina Belenkaya uma de suas expoentes. Trata-se de uma variante desse jogo em que ainda que as peças sigam se movendo, como diria Poe, “de maneira bizarra”, temos, apesar disso, uma partida em que o vencedor, mesmo quando derrotado no raso resultado final, pode se sobressair como o mais agudo, imaginoso e desafiador. Se servindo de sua “técnica analítica”, Belenkaya nem sempre ganha suas partidas, mas, em todas elas, temos a garantia de puro entretenimento. Alegre, espirituoso e, por vezes, cômico.
Dina, natural de São Petersburgo, joga no Coffee Chess, em Los Angeles

