No país em que o tão festejado “livre mercado” ensejou um salário mínimo pornográfico de 1.320,00 reais, imaginem que tem gente que descobriu apenas agora que existe assédio (moral, sexual ou de qualquer outra ordem) nas relações trabalhistas. Parece até que não tiveram o destino ingrato de ter nascido na última nação a dar fim à prática da escravidão. Em que, não custa lembra aos desavisados, mais do que assediar, havia pessoas que tinham seres humanos como sua propriedade e que os submetiam com gosto a seus caprichos, o que, por vezes, envolvia castigos físicos. Pensar que fossemos evoluir do país que trouxe o maior contigente de negros escravizados do continente africano para uma democracia plena é um sonho de uma noite de verão nada shakespeariano.
Se conviver com alguma forma de assédio se mostra inevitável no Brasil de ontem e de hoje, não recorrer a qualquer ação que o afaste para bem longe ou mesmo que puna aqueles que as leis de agora condenam exemplarmente, parece impensável. No começo de minha vida profissional no jornalismo conheci e estive próximo de pessoas ótimas, mas, ao mesmo tempo, de muita gente, digamos assim, vulgar, para usar um termo leve. Insatisfeito com o que vi, tratei de me preparar para partir para um ambiente em que sabia as interações entre colegas de trabalho eram minimamente civilizadas. Fui estudar letras e me senti em casa e em posição bem mais confortável entre professores. É verdade, que essa atmosfera seria também contaminada pelo livre mercado da selvageria – não adianta, o dinheiro sempre fala alto e de forma grosseira.
Dito isso, devo confessar que nunca dei carona ou estabeleci qualquer grau de intimidade com chefes, que não foram poucos, que me assediaram moralmente. Pelo contrário, sempre os quis bem distantes de mim. Esse jogo que vimos surgir dos detalhes das relações entre artistas contratados da Rede Globo não surpreende. Como se constata, a convivência interesseira disfarçada de amizade, sedução, flerte, paquera, namoro, era a moeda de troca entre muitos deles.
Se alguns desses artistas globais entendem que houve assédio de qualquer tipo, que tratem de convencer a justiça disso – parece que alguns estão conseguido fazê-lo, o que é legítimo. É triste no entanto ver pessoas talentosas envolvidas em situações como esta. Diretores, atores e autores como Verônica Debom, excelente atriz que escreveu e realizou a ótima peça “O Abacaxi”, Bárbara Duvivier, que dirige as peças e programa de TV do irmão, com quem traduziu com capricho o “Ubu Rei”, de Alfred Jarry, e Marcius Melhem, ator que, em começo de carreira, participou das peças de Domingos de Oliveira e que desenvolveu um trabalho importante na TV com os humorísticos Zorra e Tá no Ar: a TV na TV, acabaram prejudicando suas próprias carreiras.
Bem mais do que esses melindres, fruto muitos deles ao que tudo indica de desencontros pessoais, o que me choca mesmo é saber dos casos de estupro e feminicídio recorde no nosso Brasil brasileiro. Da mesma forma, tomar conhecimento que a idade de consentimento por aqui é, pasmem, 14 anos. Ou seja, qualquer adolescente ingênuo a partir dessa idade pode ser levado na conversa por um adulto canalha e cafajeste. É óbvio que devemos sempre responder por atos hediondos independentemente de nossa idade, mas não imagino que estes adolescentes possam ter clareza completa sobre várias das besteiras que tenham cometido ou que venham a cometer.




