Nada como ter uma raia para chamar de sua
Minhas amigas de Santa Teresa, do Cosme Velho, de Laranjeiras, do Flamengo, do Leme, em contraste com meus amigos que estavam pouco se incomodando com o assunto, ficaram indignadas e assustadíssimas. Uma psicóloga em especial, que mora numa cobertura em um prédio antigo em estilo art-déco em Ipanema, achou que era o caso de chamar a ambulância e me despachar direto em camisa de força para ser tratado na praia da Saudade. Não havia, no entanto, motivo para tanto alarde. O movimento já vinha sendo planejado há alguns anos. Em minhas andanças pelo Rio de Janeiro para cumprir meu ritual diário de aulas estive em muitos bairros e mesmo em municípios próximos ao Rio. Fazia um tour que me levava de Copacabana, a São Conrado, ao Rio Comprido, ao Recreio dos Bandeirantes e que passava ainda por Madureira, se estendendo a Petrópolis e Niterói.
A maior parte de minhas aulas eram porém ministradas na Barra da Tijuca. Comecei lecionando em um espaço na academia Akxe, próximo ao condomínio Parque das Rosas (aqui as pessoas se localizam pela proximidade de um shopping ou condomínio) para depois me fixar no campus Tom Jobim no Centro Empresarial BarraShopping. Cheguei em 2000 quando estavam inaugurando o campus e fiquei até 2008. O campus era um dos primeiros prédios construídos no Centro Empresarial e para irmos de lá até o Barrashopping tínhamos que cruzar as duas pistas da Avenida Luís Carlos Prestes. A busca por oferecer comodidade logo levaria a construção de uma passarela muito bem planejada que facilitaria a vida de quem tinha de sair do Centro Empresarial em busca de um lugar para resolver coisas do dia a dia.
Gosto da praticidade e conveniência de ambientes modernos, organizados, como os que temos na Barra da Tijuca. Visto a carapuça que David Byrne descreve sarcasticamente em “Don´t Worry about the Government”, faixa que fazia parte da minha playlist quando tinha de enfrentar o trânsito correndo a cidade de um lado para o outro. E foi assim, para decepção de minhas amigas que habitam e defendem com ardor os bairros que integram as Repúblicas Socialistas das Laranjeiras, do Cosme Velho e Adjacências, que me mudei há dois anos para um condomínio por aqui.
Acho mesmo curioso que pessoas que se dizem deslumbradas por aquilo que encantou Walter Benjamin em Paris no começo do século passado, tenham horror a modernidade dos shopping centers. Em seu livro “Walter Benjamin, o Marxismo da Melancolia” (Editora Campus, 1988), escrito nos anos 1980, Leandro Konder nos conta: “Na segunda metada dos anos vinte, Benjamin começou a dedicar uma atenção especial às “passagens” parisienses, galerias de estrutura metálica, cobertas por tetos de vidro (…). Elas reuniam muitas lojas e as pessoas passeavam por elas, olhando, fascinadas, as mercadorias expostas nas vitrinas, num clima de sonho, realçado pela iluminação a gás.” Com o que Benjamin se encantou, se não com os precursores dos shopping centers? Não faço ideia da extensão da briga que esses escritos do mais brilhante aluno da Escola de Frankfurt causaram entre Adorno, Horkeheim e seus pares. Posso imaginar que Benjamin tenha abordado o assunto em seus aspectos positivos e negativos, como era característico de um pensador capaz de colocar em uma perpectiva complexa temas aparentemente banais (o próprio Konder nos sinaliza isso em seus comentários sobre o livro “Passagens”).
Don´t worry about me, David
De qualquer forma, foi sob a suspeição de minhas amigas, que me aventurei e adquiri de início um apartamento de dois quartos na Barra, como pouso de fim de semana, para ver se me agradava. Gostei tanto que depois vendi meu apartamento em Copacabana e passei definitivamente para um de três quartos, do qual não me arrependo. A tal da “qualidade de vida” transformou minha rotina. Aqui tenho duas piscina, uma no meu condomínio e outra na Associação Bosque Marapendi, lugar onde, além de raias para nadar, temos quadras de tênis e uma casinha para os adeptos de um pilates. O bosque aí não é mera sugestão, temos um grande espaço arborizado onde podemos caminhar na sombra e um canal com uma agradável vegetação de Mata Atlântica. Ao cruzá-lo de barco, chegamos a uma praia muito frequentada como toda a orla carioca, mas com aglomeração bem menor que as da Zona Sul.
Depois de ter morado na Tijuca (por três vezes), em Copacabana (por duas), no Leme e em Botafogo, esse será certamente meu último endereço. Foram 20 anos de rua Toneleiros e a partir de agora pretendo ficar pra sempre por aqui na rua Jornalista Henrique Cordeiro. Identificado com a direita, o bairro é recordista em celebrar comunistas. Além da Avenida Luís Carlos Prestes, temos a Avenida Salvador Allende e a rua onde moro homenageia um jornalista paraense, militante do PCdoB, e que foi integrante da diretoria da ABI. Costumo dizer que daqui só saio para me juntar a Machado de Assis, Nelson Rodrigues e Lima Barreto, no doce solo do São João Baptista. Mas a verdade é que meu destino é bem outro. Irei para um dos jazigos das minhas famílias partena ou materna no Cemitério de São Francisco Xavier, no Caju, onde meus familiares me aguardam e onde terei a companhia de Clarice Lispector.





