A diferença de perto de 6 milhões e 200 mil votos do 1o. turno das eleições presidenciais de 2022, que imaginávamos, fosse se amplicar no 2o. turno, afinal Ciro Gomes e Simone Tebet são candidatos mais alinhados com as propostas e o ideario da coligação que reunia PT/PCdoB/PV/Rede/PSOL/PSB/Avante, encolheu assustadoramente para menos do que 2 milhões e 200 mil, na mais apertada disputa da história das eleições brasileiras. O enxugamento se deu principalmente na região sudeste, a mais populosa da federação. Só em Minas Gerais, os 560 mil votos de vantagem conseguidos pela chapa Lula/Alckmin no 1o turno minguou para menos que 50 mil votos no 2o turno. Em São Paulo, Bolsonaro acrescentou aos seus 1.7 milhão votos de vantagem no 1o. turno, quase outro 1 milhão de novos votos – ainda que seu resultado nas urnas tenha ficado 1.1 milhão abaixo do conseguido em 2018.
A candidatura petista cresceu, no entanto, de 2018 para 2022 na região sudeste, especialmente em São Paulo com a perda de protagonismo por parte do PSDB. Mesmo porque, do contrário, teríamos uma derrota. Uma arte do jornal carioca O Globo, publicada no dia seguinte do 2o. turno, mostra como desde 1989, o PT, ainda que perca nas regiões sul e sudeste, quando vitorioso, nunca deixou de ganhar em Minas Gerais – o estado que por tradição define o vencedor das eleições – e no Rio de Janeiro. As derrotas no Rio só vieram a acontecer com a candidatura de Haddad em 2018 e agora em 2022, certamente porque esses dois pleitos marcam a ascenção do bolsonarismo. Ainda que o berço do Partido dos Trabalhadores seja São Paulo, o Rio de Janeiro, ao lado de Minas Gerais, foi sempre o estado da região sudeste em que o PT obteve maioria. E isso, a despeito de só ter tido influência em dois governos fluminenses com a presença de Benedita da Silva como vice de Anthhony Garotinho, em 1998, e de Rosinha Garotinho, em 2002.
Nos pleitos de 1989-94-98 e 2002, o Rio Grande do Sul também acompanhava o partido de Lula, mas, desde o mensalão, o estado que teve dois governadores petistas (Olívio Dutra, de 1999 a 2003, e Tarso Genro, de 2011 a 2015) debandou e nunca mais entregou seus votos a líderes petistas – a vitória para o governo não se sobrepõe necessariamente à vitória estadual.


Quem quiser recapitular a trajetória do partido desde sua criação em fevereiro de 1980 no Colégio Sion em São Paulo com a presença e apoio de grandes e fundamentais pensadores da cultura brasileira como Sérgio Buarque de Hollanda, Mário Pedrosa e Antonio Candido, tem ao seu dispor um excelente livro de Celso Rocha de Barros. Na bancada das livrarias a capa vermelhona e o título (“PT, uma História”; Companhia das Letras, 2022), pode parecer uma manifestação laudatória ao partido, mas não se trata de nada disso. Tem-se na verdade uma interessante rememoração do que tem sido a mais recente e ainda brevíssima experiência democrática brasileira depois de 20 anos de eleições indiretas (de 1964-1985). Estão registradas a campanha pelas Diretas Já e os pleitos diretos subsequentes, que, é bom lembrar aos desavisados, se iniciaram anteontem.

O livro tem importância também por recapitular os bastidores dos planos econômicos e o cenário político que se repete agora com a inesperada união entre tucanos históricos e petistas. O assunto é o mesmo de sempre, os ajustes dos vários planos para a economia, do Plano Cruzado, com o qual André Lara Resende e Pérsio Arida já estavam envolvidos, ao Plano Real de FHC. Faz ao mesmo tempo um histórico das medidas de enfrentamento da fome com a iniciativa de Eduardo Suplicy em 1990 de apresentar a ideia de uma política de renda mínima para os mais vulneráveis, proposta que deu nos programas Bolsa Família e Auxílio Brasil. Os bastidores da política se fazem presentes com a aliança do PT com o PL, de Waldemar da Costa Neto e da Igreja Universal do Reino de Deus, representado pelo vice José Alencar, o que se deu na primeira campanha vitoriosa do PT em 2002. As práticas de caixa dois e a corrupção presentes e disseminadas nos vários partidos políticos são abordadas sem panos quentes.
Historicamente, o maior berço de votos petista foi, desde 2002, o nordeste do país. É ali que o PT tem a sua maior base de votos como comprovando mais uma vez agora em 2022. Foi o nordeste brasileiro, ao lado de um crescimento no sudeste, o maior responsável pela vitória de Lula e Alckmin nestas eleições. As pesquisas de opinião, que foram muitas esse ano, confirmaram que o eleitorado de baixo poder aquisitivo e que recebe até 2 salários mínimos se alinha com o PT e com os partidos de esquerda, em oposição aos de faixa salarial mais elevada e com formação escolar superior que tendem a votar nos representantes da centro-direita.
No nosso município do Rio de Janeiro, por exemplo, os bairros mais ideologicamente alinhados com o petismo em 2022 não foram os bairros mais ricos e da elite carioca, mas, pelo contrário, os mais pobres. Nisso o perfil do eleitor brasileiro se diferencia e se opõe ao do eleitor europeu e francês. Uma das novidades de um dos mais recentes livros de Thomas Piketty, “Capital e Ideologia” (Intrínseca, 2020), é ter uma abordagem distinta do volume “O Capital no Século XXI”. Se no livro de 2013, Piketty fazia uma análise de caráter principalmente econômico, em “Capital e Ideolgia” o estudo apresenta uma perspectiva político sociológica. Nele, Piketty mostra como os eleitores de baixa renda franceses, por exemplo, que foram alinhados com a esquerda durante os anos 1950, 60 e 70, estão escolhendo representantes da direita. Na França, os eleitores de renda mais elevada e com escolaridade superior são aqueles que, por outro lado, passaram a votar na esquerda. Curiosamente, entretanto, a esquerda francesa teve que se aproximar dos eleitores de centro com a pessoa de um político como Emmanuel Macron para voltarem ao poder. Ainda que inversamente, a esquerda e as classes desfavorecidas brasileiras estão tendo pelo visto que caminhar para o centro para conseguir uma vitória nas urnas.
Abaixo arte de O Globo depois do 1o turno, tuíte de Gregório Duvivier após o 2o. turno e foto de faixa na Praça do Vidigal, na entrada da favela na Avenida Niemeyer




