
O leitor talvez nunca o tenha encontrado pessoalmente, mas com certeza o conhece por alguma foto ou imagem. Trata-se de um artefato blindado, um mini-tanque inspirado nesses que vemos sendo pilotados nas frentes de luta na Ucrânia. Uma obra de arte de guerra e que recebeu o apelido carinhoso de caveirão. Ninguém que more na Zona Sul vai um dia assistir a um desses veículos rodando pelas ruas da vizinhança. Do Leblon, com seus 45 mil habitantes e IDH de 0.967 (superior ao de países como Noruega e Suíça), para o Complexo do Alemão, com seus 75 mil habitantes e IDH de 0.711 (inferior ao da Algeria e do Gabão), a distância física, como já nos alertou a economista Alessandra Orofino, não é tão grande assim, mas é gigante no que se refere à qualidade de vida. E também, acrescentaria, ao tratamento e respeito prestado aos moradores.
É por ruelas, vielas, becos, de favelas cariocas, que o caveirão, acompanhado por jeeps, caminhões e orientado pelos helicópteros do Batalhão de Operações Policiais Especiais (o Bope), circula com desenvoltura e circunscreve sua área de atuação. Para restringir o avanço do comboio em suas operações, as bem armadas facções criminosas criam barricadas e espalham óleo sobre o asfalto, dificultando a sua movimentação, como aconteceu na ação ocorrida na quinta-feira passada no Complexo do Alemão. De um lado e de outro, dois grupos muito bem armados se entregam à refrega. No meio do tiroteio, fica a população correndo das balas e vendo suas casas e espaços de convívio serem destruídas por munição de grosso calibre.
A operação no Complexo do Alemão tinha um objetivo irrisório para uma ação destas proporções: por fim a uma quadrilha de roubo de veículos e cargas. A despeito disso, se transformou na quarta mais letal ocorrida no Rio de Janeiro, contabilizando 18 mortos: 1 policial e 17 civis, 8 apenas com passagem pela polícia. Só foi superada por outras três operações anteriores igualmente letais, duas delas, a do Jacarezinho, em maio de 2021, deixou 28 mortos, e a da Vila Cruzeiro, em maio deste ano, resultou em 25 vítimas fatais. As três mencionadas acima (a quarta é de 2007) ocorridas durante o governo do sucessor de Wilson “basta mirar na cabecinha” Witzel, o atual governador Claudio Castro. Apadrinhado do pastor Everaldo, com quem foi alvo de ação da Polícia Federal que deixou em agosto de 2020 o presidente do Partido Social Cristão preso e em seguida usando tornozeleira eletrônica até junho deste ano, o candidato de Bolsonaro coleciona mais uma proeza em seu curto mandato à frente do governo. Resultado final da operação: a apreensão de uma poderosa metralhadora 0.50, de quatro fuzis, duas pistolas e 48 motos.
Depois da ação de quinta-feira, o comentário da manicure em conversa com a cliente no cabeleireiro, me dizem, era o de que “a Globo está agora defendendo bandido”. Colado na moto de um entregador de aplicativo, foi possível ver na rua outro dia o adesivo: “2022 o ano do Brasil”, com o 22 em letras garrafais. A teoria para se tentar explicar essas manifestações é a de que há uma identificação entre as classes neo-proletárias com as alas socialmente mais abastadas da sociedade. Mas a situação é mais grave e um alerta para a naturalização de práticas que trazem à memória a disseminação no corpo social de uma postura de inspiração nazifascista que transforma as pessoas em reféns do medo e partidárias de atitudes inaceitáveis.

