A Entrega as Nobres Causas

Vivendo em Altamira, Eliane Brum narra em detalhe a situação atual da Amazônia

O crime hediondo que deu fim as vidas do jornalista Dom Phillips e do indigenista Bruno Araújo Pereira no Acre, no município de Atalaia do Norte, próximo à região da reserva indígena do Vale do Javari, fez ver o grau de dedicação desses dois ambientalistas e defensores das grandes causas que são levados a se entregar com paixão a tudo que tanto prezam ainda que correndo muitos riscos. Por sorte, esse grupo é significativo e não costuma se intimidar com as ameaças e desconfianças daqueles que não simpatizam com sua luta e que chegam mesmo a antagonizar com ela. Fazem seu trabalho de forma discreta por opção própria. Seguem a trilha aberta por gente abnegada como Rondon, Roquette-Pinto, Lévi-Strauss, os irmãos Villas-Boas, Darcy Ribeiro e outros tantos.

A fascinação, o interesse e o empenho de Bruno Araújo Pereira pela preservação da floresta amazônica e dos povos originários que habitam aquela e outras regiões do país, alguns deles sem ter tido contato com o mundo incivilizado que os rodeia, é mais antiga e se prende à sua atuação como funcionário da Funai. Com o desmonte do órgão pelo governo Bolsonaro, Bruno foi levado a trabalhar na Univaja (União dos Povos Indígenas do Vale do Javari), ONG em que seguiu atuando até sua morte. Jornalista colaborador dos jornais The Guardian, The New York Times e Washington Post, Dom Phillips se mudou da Inglaterra para cá em 2007. Ficou tão fascinado pela natureza tropical que nunca mais voltou. Morando no Rio de Janeiro, apresentou a cidade e as belezas das serras e matas atlânticas do estado a companheiros jornalistas durante o período em que esteve por aqui, isso até se mudar para Salvador. Na terra natal de sua mulher, a baiana Alessandra Sampaio, preparava um trabalho jornalístico mais extenso, que viraria o livro “Como Salvar a Amazônia”, e dava aulas de inglês como voluntário para alunos de escolas da periferia.

O crime que todos acompanharam durante semanas em todas as mídias, ganhou destaque no noticiário por ter um jornalista estrangeiro entre as vítimas da ação bárbara, mas, como salienta uma conhecedora do assunto, a também jornalista Eliane Brum, que desde 2017 trabalha em Altamira como corresponde do jornal El País e colaboradora do New York Times e The Guardian, não se trata de caso isolado e sim de uma ação continuada que levou a vida de outros ativistas locais como Maxciel Pereira dos Santos, funcionário da Funai assassinado em 2019. Situação tensa que ameaça ainda outras lideranças como a de Erasmo Alves Teófilo, líder comunitário na região de Anapu, próxima à Altamira, na Amazônia paraense, lugar em que Dorothy Stang foi morta a tiros em 2005 por sua atuação em defesa das comunidades locais.

O Conselho Missionário Indigenista essa semana elencou, junto ao Conselho de Direitos Humanos da Organização das Nações Unidas, outros ocorrências como a morte de Edivaldo Manuel de Souza, do Povo Atikum, em Carnaubeira da Penha, a cerca de 500 quilômetros do Recife, bem como o assassinato de indígenas da etnia Guarani-Kaiowá. Mencionou ainda o crime contra Alex Lopes e a invasão ilegal no último fim de semana pela Polícia Militar do território Guapo’y, em Mato Grosso do Sul. Incidente que vitimou Vitor Fernandes e deixou nove feridos por munição letal, dos quais um adolescente que permanece em cuidados intensivos.

Vim a conhecer o trabalho do Conselho Missionário, instituição ligada à CNBB, através do querido Paulinho Guimarães (Paulo Machado Guimarães), já mencionado aqui, que há mais de 30 anos se dedica a representar e defender como advogado do CIMI as causas de povos indígenas. São ONGs como a Univaja, instituições como o CIMI e jornalistas e fotógrafos desbravadores como Eliane Brum e Lucas Landau, filho do amigo Marcio França, que estão ajudando a trazer às claras o ímpeto genocida que tomou conta da Amazônia e de outras regiões conflituosas do país, especialmente sob o governo atual.

Imagem do site de Lucas Landau

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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