Debate em Debate

Que coisa mais pequena e pouco inspirada foi a tal da “repercussão” da conversa que aconteceu entre Ciro Gomes e Gregório Duvivier na última sexta-feira. Os petistas afirmaram na TVPT, quer dizer, TV247, que o Gregório jantou o Ciro, o que já era esperado e previsível. De Ricardo Kotscho não poderia vir algo muito diferente. O ex-jornalista da Folha, que abandonou sua trajetória na redação em 2002 para ser assessor de Lula de quem é amigo há anos, seguiu a mesma linha e perguntou a seus leitores do “Balaio do Kotscho” no UOL se aquele debate era para rir ou para chorar. Isso, obviamente, depois de passar sua coluna inteira desqualificando Ciro Gomes. A campanha de Ciro na opinião de Kotscho é um fracasso, e contrasta com a bem sucedida candidatura do Grande Líder (acho que o colunista não prestou a devida atenção a uma das muitas observações importantes do Ciro: Lula, mesmo no auge de sua vida política, nunca ganhou uma eleição no primeiro turno).

Até mesmo os vlogues que tem tradição de isenção se juntaram ao coro para retratar o encontro como “grotesco” (Henry Bugalho) ou “constrangedor” (o Galãs Feios, de Marcos Bezzi e Helder Maldonado). Não sei se como um efeito destas avaliações, o Politizando de traço cirista de William Jacob chegou também a sugerir uma outra estrutura para o debate. Tudo conversa fiada. O que vimos foi um bate-papo, quente em alguns momentos, o que traz vitalidade ao confronto, entre duas pessoas que pensam o Brasil. Ah, se todos os candidatos fossem espontâneos e autênticos assim. Pessoas de verdade, mostrando suas franquezas e pontos positivos. E mais fundamental e acima de tudo, duas pessoas aflitas em debater e encontrar um caminho que traga algum alento e esperança para uma campanha presidencial que pode jogar o país em um buraco ainda maior do que aquele em que estamos.

O fato é que apesar de terem posições divergentes sobre como se deva dar o embate político no momento, os dois discutiram como amigos que se encontram em um bar e que discordam um do outro. Gregório está certo em defender a equipe de seu programa que faz um trabalho rigoroso e que foi atacada displicentemente no react cirista. Ciro por sua vez mostrou bem como o roteirista e apresentador parece estar tendo uma avaliação inexata sobre alguns dos aliados que se juntaram à sua campanha.

O Cabo Daciolo, por exemplo, que foi tratado como uma personagem folclórica nas últimas eleições presidenciais, tem tido uma atuação política ponderada e não deve ser desprezado como um parceiro no pleito deste ano, representante que é de uma parcela significativa do eleitorado (lembrem que Daciolo foi mais votado em 2018 do que Marina Silva). Temos ainda uma diferença grande entre o Daciolo e gente como Silas Malafaia e o Pastor Isidoro, por exemplo. Falar mal do Aldo Rebelo, ainda que tenhamos divergências com uma ou outra de suas posições no passado como naquele projeto de lei em defesa da língua portuguesa, é pura besteira do Duvivier. Aliás, o ex-militante do PC do B esteve no Canal Livre da semana passada e explicou direitinho qual a sua posição sobre comunidades indígenas já culturalizadas que querem se beneficiar do uso de suas terras. Ele viaja e conhece lugares em que o Gregório nunca esteve.

Se tivéssemos vários candidatos com as ideias e projetos de Ciro Gomes e que como ele se dispusessem a conversar com qualquer um sobre o que pensam e planejam para o país, a campanha presidencial apresentaria um outro viço e despertaria mais interesse nos eleitores. Deixo para fechar um segundo comentário de Henry Bugalho sobre o debate e que trata com seriedade jornalística o que pode ter representado a conversa entre Gregório Duvivier e Ciro Gomes. Lembrando que Ciro e Gregório concordaram pelo menos em um ponto. É preciso negociar até mesmo com os bolsonaristas arrependidos. O Brasil é um país politicamente complexo e soluções simplistas não nos levaram a lugar nenhum.

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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