O Romance Policial e seus Cultuadores

Um dos autores com o qual me ocupei muito em 2021 foi Tony Bellotto. Já tinha lido alguma coisa, mas passei em revista os dez livros que ele publicou. A constatação foi a de que temos um dos escritores menos reconhecidos da geração que está na casa dos 60 anos agora. Bellotto nunca levou prêmio algum, nem mesmo um Jabuti para colocar na estante, o que parece uma injustificável falta de consideração por parte de críticos e de seus pares. Talvez seja o estigma de não ser um escritor em tempo integral, já que ele é guitarrista dos Titãs. Pura besteira, Bellotto tem mantido uma regularidade na entrega de suas obras que poucos autores que se dedicam exclusivamente ao oficio conseguem apresentar. Sempre narrativas inovadoras, variadas, escritas com capricho, e até mesmo com uma boa dose de virtuosismo.

Seu personagem mais conhecido é o detetive Bellini, ao qual foram dedicados quatro de seus livros. São uma série de aventuras detetivescas que seguindo o modelo do gênero acabam cativando aqueles leitores que apreciam temas, situações e detalhes recorrentes, artimanhas com as quais os escritores gostam de marcar seus protagonistas para que façam a alegria daqueles que acompanham o desenrolar de suas tramas. Foi assim que convivi com interesse com Remo Bellini nos momentos de reclusão em seu apartamento no coração de São Paulo, invadido permanentemente pelo barulho da Paulista, nas idas ao bar Luar de Agosto na vizinhança para o café da manhã de pão com salame e queijo provolone (lugar em que fomos atendidos pelo observador e galhofeiro Antonio (e depois por seu filho)), ou batendo ponto no escritório da Agência Lobo de Investigações no Edifício Itália, espaço invariavelmente tomado pelo som dos violinos de Paganini e pela fumaça das cigarrilhas Tiparillo da chefona Dora.

São todos livros deliciosos. Nos levam do tema do espiritismo kardecista de “Bellini e os Espíritos” (Cia das Letras, 2005) a uma trama interiorana rocambolesca envolvendo dois irmãos de uma dupla sertaneja de Goiás, encontrada em “Bellini e o Labirinto” (Cia das Letras, 2014). Ou ainda ao basfond dos inferninhos e da prostituição de “Bellini e a Esfinge” (Cia das Letras, 1995). Todos, sem exceção, incensados por refinadas referências à tradição da cultura mitológica e literária gregas com diálogos espirituosos e frases matadoras. Bellotto não se cansa em encontrar um achado burlesco, chistoso, trocista, para concluir as ótimas e hilárias trocas de falas, assim como os pensamentos, de seus personagens.

Da saga de Bellini, o meu favorito é “Bellini e o Demônio” (Cia das Letras, 1998), segundo da série, que abre com citação do “Fausto” de Goethe e tem um especialista em demonologia no meio do caminho, não fosse Bellini um viciado no blues de Robert Johnson. Muito inventiva a busca por um manuscrito perdido de Dashiell Hammett (Hammett só escreveu quatro livros em vida; a interrupção em sua obra é um mistério para os cultuadores de seus escritos) que supostamente estaria no Brasil e que traz Bellini e um investigador americano ao mundo do Copacabana Palace, do Country e do Jockey Club do Rio de Janeiro. Os leva também ao subúrbio carioca de Parada de Lucas e a Teresópolis. Tudo entremeado por pistas plantadas por aquele que talvez seja apenas um colecionador de antiguidades ou um vigarista inescrupuloso. A procura pela obra perdida do criador do Continental Op, de Sam Spade e de Ned Beaumont, é intercalada pela solução de um crime com uma colegial paulistana encontrada sentada na privada do banheiro do colégio com a calcinha nos calcanhares e um tiro na testa (imagem que não foge ao pensamento de Bellini).

Pela leitura de suas obras, vemos que Bellotto tem paixão pela literatura ainda que não demonstre interesse por teoria literária, como aqueles escritores que gostam de, seduzidos por um conhecimento teórico profundo do assunto, tentar arriscar inovações crípticas. Vi, dentro da pós-graduação em ciência da literatura, pesquisadores investindo pesado na leitura de obras complexas de filósofos como Heidegger, Foucault, Derrida, para investigar obras de alguns literatos e deixando esquecida a tessitura pura e simples dos livros. Bellotto trafega no sentido inverso. Menciona e se aproxima de criações literárias em profusão e sem exibicionismo, como expressão, ao que tudo indica, de um fascínio pelo prazer de fruir as obras em si mesmas.

Minha única ressalva em relação às suas tramas é a de que, como leitor, gostaria de ver Bellotto abrindo mão da obrigatoriedade por inserir um crime em todas as suas narrativas e investindo abertamente por gêneros diversos daqueles que o tornaram um escritor conhecido pelos aficionados por literatura policial. Obras como “Machu Picchu” (Cia das Letras, 2013), “No Buraco” (Cia das Letras, 2010) ou “Lô” (Cia das Letras, 2018), por exemplo, não precisavam que aparecesse no meio da trama um crime. São narrativas que mostram que o autor tem lastro para investir por outros gêneros, como aqueles que optam por traçar exclusivamente um rico retrato da dimensão psicológica dos personagens e que exploram as relações afetivas, bem como incidentes que espelham o cotidiano (elementos que, na verdade, já são muito trabalhados e fartos em seus livros).

O anfitrião do saudoso programa “Afinando a Língua”, do canal Futura, também demonstra interesse por idiomas e a manifestação de suas extravagâncias, bizarrices e originalidades. O jockey aposentado e esquecido em uma clínica de Parada de Lucas só guarda na memória uma palavra para rememorar o auge de sua vida profissional: “Citilóf”. Que palavras em inglês poderiam se esconder na paixão do personagem Ervilha pelo nome de sua gloriosa montaria? O adolescente de “Machu Picchu” diz coisas como “Tu veio jantar hoje?”, apenas como gozação com o papai-sabe-tudo-da-família, para depois conjugar o verbo vir no pretérito perfeito sem titubear. O mesmo rapaz conversa com um Onipresente, Onisciente, Onipotente imaginário que se dirige a ele repetindo a última sílaba das palavras, “Porque Deus fala com eco, todo mundo sabe” e com “delay em três tempos”. No começo de “No Buraco”, a argumentação de um pretenso linguista tomando sol em Ipanema é para convencer o interlocutor que a palavra “boceta” deva ser escrita com “u”. Segundo ele, “o o não carrega o calor, a umidade e os aromas do u“, por isso ele desconfia de escritores que escrevam “boceta”. Como dá pra notar, os livros do cultuador de Bukowiski e Henry Miller são pra gente grande e escritos sem filtro.

“Os Insones” (Cia das Letras, 2007) e “Dom” (Cia das Letras, 2020), mais recente obra do escritor (virou série televisiva produzida pela Conspiração para a Amazon), são romances quase irmãos e tratam da realidade e da violência presentes entre a Zona da cidade do Rio de Janeiro e suas favelas. Fico com o primeiro deles, pois prefiro a fabulação livre e desimpedida e não me agrada tratar fatos reais com a pátina da ficção. E isso vale para o “Elza, a Garota”, de Sérgio Rodrigues, para o “Agosto”, de Rubem Fonseca, entre outros tantos. Enfim, são as manias e idiossincrasias de um leitor.

Bellotto me fez dedicar um bom tempo à literatura policial. Depois de passar por seus livros fiquei seduzido por frequentar o filão e o resultado disso é que o leitor deste blogue corre o sério risco de vir a se envolver em novos crimes em uma postagem futura. Garanto no entanto que já não haverá mais o perigo de ser alvo da antiquada Beretta 9 milímetros de nosso herói.

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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