Final de Ano com Paul Weller, o Recordista

Há um bom tempo dei por encerrada aquela farra de presentes de Natal. Sobraram algumas lembrancinhas especialmente para os sobrinhos e umas recordações simbólicas. Por conta disso, aproveitei a pequena trégua da covid e o velho e bom passeio até Búzios, para fazer uma visita à lojinha The House of Rock & Roll em um shopping no final da rua das Pedras, onde encontro inevitavelmente um regalo apropriado para cada um dos quatro sobrinhos que tenho (dois deles do primeiro casamento e dois de duas de minhas irmãs que se aventuraram pela odisseia de ter filhos). A loja sobreviveu bravamente à pandemia e continua em pleno funcionamento, o que é um sinal de alento em tempos de economia aos frangalhos.

Para minha alegria, esse ano ganhei como um recuerdo de uma interneteira que mora aqui em casa, uma assinatura do Spotify, algo que não iria adquirir nunca por conta própria. A era do streaming é um marco ecológico civilizatório para o mundo e varreu da face da Terra todo o lixo comercial e industrial que alimentou e fez a delícia da Geração Coca-Cola e das anteriores. O app do Spotify veio calibrado para uso com vários artistas de suposto interesse e entre os nomes foi inserido um The Jam pela fã da turma Mod old generation. Ao The Jam os algoritmos atrelaram imediatamente Style Council e Paul Weller. Passei desta maneira a ouvir coisas que tinham sumido completamente de minhas memórias, assim como muitas outras novíssimas. Confesso que não sabia que Weller segue lançando discos com extrema regularidade e já soma 16 trabalhos individuais desde o primeiro, em 1992.

Paul Weller com Leah, do casamento com Dee C Lee, a primeira de seus oito filhos, co-autora com o pai de “Shades of Blue”, música do disco “Fat Pop” do ano passado

Engraçado que vendo uma apresentação de mister Weller, gravada no Ópera de Sydney por ocasião do lançamento do album “A Kind Revolution” (2017), seu antepenúltimo projeto, fiquei surpreso ao constatar que muitas composições novas e desconhecidas eram tão boas que não davam saudade das antigas. Aliás, o repertório antigo raramente entra nos shows. As apresentações mais longas contam com uma “Carnation”, “A Town Called Malice” (em sets acústicos, com “That´s Entertainment” e “English Rose”), do The Jam, e “My Ever Changing Moods” e “Shout to the Top”, do Style Council, nada muito mais que disso.

Weller fala sobre paternidade com Jonathan Ross

Do Spotify fui à estante de biografias onde encontrei o “Paul Weller, My Ever Changing Moods” (Omnibus Press, 1996), do jornalista musical John Reed, da revista inglesa Record Collector, que adquiri em 1997 durante viagem à Inglaterra, viagem essa que tinha como um de seus propósitos ver Blur, no Brixton Academy, Oasis, no Wembley Arena (hoje, O2 Arena) e Foo Fighters e The Cure, os dois últimos no Shepherds Bush Empire. Nunca tinha lido o livro. Sabia que John Weller, pai do compositor, foi durante sua vida inteira único e exclusivo empresário do fundador do Jam, mas desconhecia o seu passado de taxista casado com a faxineira Ann Craddock na cidade dormitório de Woking, próxima de Londres. Achava que aquela preocupação toda com roupas e aparência só poderia vir de um aluno do Eton College e não de alguém que frequentasse a Sheerwater Secondary School.

John Weller tentou empurrar o filho em várias direções. Montou um time de futebol para o garoto e, como era um apaixonado por música, assim como sua mulher, deu uma guitarra para o pequeno Paul, tudo para vê-lo desanimado para entrar em campo e largando o instrumento para que acumulasse pó embaixo da cama. Isso apesar de Paul Weller já ser um fã de Beatles, Small Faces e Kinks. Depois de conseguir um amplificador para plugar a guitarra, algo quem ninguém na casa imaginou que fosse necessário, e de conhecer aquele que se tornaria um bem mais talentoso instrumentista do que ele na pessoa de Steve Brookes, Weller começou a ensaiar com o amigo em seu quarto já criando suas próprias composições desde o início.

Com Brookes assumindo a guitarra, (Paul Richard) Rick Buckler as baquetas e empunhando um Höfner semelhante ao do então cultuado Paul McCartney, baixo pelo qual trocara sua guitarra, Weller ficou com a posição de baixista nas sessões de improviso, as jams como todos as chamavam. Do quarto de Paul, elas passaram a acontecer na porta de entrada da casa dos Wellers, com a vizinhança como plateia. John Weller, atento à movimentação do filho, não tardou a agendar as primeiras apresentações em pubs e clubes locais. Quando o nome The Jam, a maneira como todos se referiam aos ensaios, foi aventado para a banda, a irmã de Paul Weller, Nicky, não tardou em lembrar a propriedade da escolha. Durante um café da manhã comentou que se havia um grupo chamado Bread, outro denominado Marmalade, nada mais natural que um Jam viesse se juntar a eles. Pouco depois, o ocupado Steve Brooks sairia do grupo e Bruce Foxton entraria de começo como guitarrista e em seguida como baixista.

“Speak Like a Child”, com título inspirado em tema jazzístico de Herbie Hancock

Das músicas do The Jam fico com as da fase final do grupo (“The Bitterest Pill”, “A Town Called Malice”, “Precious” e “Beat Surrender”) que já prenunciam o que viria com o Style Council. Caramba, como são boas as músicas do Style. Divertidas, bem humoradas, e ficavam especialmente hilárias nos clips dirigidos por Tim Pope. “Speak Like a Child”, “Shout to the Top”, “Solid Bond in Your Heart”, “Long Hot Summer”, “My Ever Changing Moods”, a lista é grande. Depois do namoro com o jazz de Herbie Hancock, com a cultura francesa e com a bossa nova, que o levou a cantar “Garota de Ipanema” com Tracy Thorne, do Everything But the Girl, veio o disco “Café Bleu”. Weller andava cansado com as músicas como hinos de torcida dos tempos do Jam que levavam os shows a se encerrarem como celebração de fim de jogo de futebol. Passamos assim as composições de acento cool e às músicas engajadas com toques de soul music, paixão que já aparecera na fase final do Jam nas versões ao vivo dos clássicos de Curtis Mayfield, Sam Cooke e Ray Charles. A soul music americana funcionaria como inspiração para composições autorais como “Money Go-Round” e as dançantes “Walls come Tumbling Down” e “Internationalists”.

“Walls Come Tumbling Down”, da fase engajada de Weller quando participou de eventos beneficentes e de apoio a causas sindicais ao lado de Billy Bragg

Hoje Paul Weller é um recordista. Tem nada menos do que 8 filhos de quatro casamentos. Só Gill Price, capa do single “Beat Surrender” e seu primeiro namoro firme, escapou. Com Dee C Lee, que fazia backing vocals no Wham! e com quem viveu por uma década depois de se conhecerem para a gravação de “Money Go-Round” no seu estúdio Solid Bond, teve dois filhos. A eles, se seguiram outros seis filhos do casamento com outras três companheiras. A filha mais nova (e última de acordo com ele), do casamento atual, está na faixa dos 5 anos. Os filhos pequenos não frequentam escola e tem lições em casa. Resquício da revolta do jovem Weller que completou com muitas faltas o ensino médio por odiar a disciplina escolar e a autoridade dos mestres, ainda que fosse elogiado por seu talento para escrever, especialmente poesia. O álbum mais novo é “Fat Pop” e tem parceria de Weller com a filha Leah, do casamento com Dee C Lee.

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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