
Lizzie Bravo não era pessoa de minhas relações, mas isso não impediu que recebesse minha primeira mulher, sua xará Beth Wester, e a mim com extremo carinho em seu apartamento no East Village, ali mesmo na conhecida vizinhança de lugares por onde circularam todos os nomes da vanguarda nova-iorquina (de Lou Reed e o pessoal do Velvet Underground, que gravitaram em torno da Factory de Andy Warhol, aos Talking Heads, Ramones, Blondie, Television e demais bandas New Wave e Punk que ocuparam o CBGB). Foi em janeiro de 1994, um daqueles invernos glaciais de Nova York.
Era a minha primeira ida à capital cultural norte-americana em seguida a uma passagem pela Europa e para quem estava acostumado a ver europeu fazendo festa com uma neve rala, contemplar, a partir já da janela do avião, uma cidade inteira coberta de gelo e castigada por nevascas seguidas, foi uma surpresa e um assombro. Em terra firme a beleza do visual se traduziria na luta para circular pelas ruas deslizando nas calçadas, caindo em poças gélidas e enfrentando tempestades que não te deixavam andar mais do que um quarteirão sem que se desejasse procurar urgentemente um abrigo aquecido para um café – lá, nos invernos mais rigorosos, não chove, desaba o mundo, e com rajadas de vento para as quais nenhum guarda-chuva dá jeito.
Pessoa simples e afetuosa, Lizzie vivia de forma despojada e sem luxos. Cuidava dos interesses de Milton Nascimento e de outros amigos músicos brasileiros nos Estados Unidos e alugava um dos dois quartos de sua residência aos viajantes que estivessem visitando a Big Apple. Acho que fui bater em seu endereço por intermédio de Maurício Valladares, namorado de uma de minhas irmãs. E Lizzie tinha a capacidade de, mesmo não te conhecendo, fazer com que você se sentisse em casa e completamente à vontade. A recepção não era meramente formal, vinha acompanhada pela alegria de uma cicerone que se oferecia para ajudar no que fosse necessário.
Lizzie e Gayleen rememoram o dia em que cantaram com Paul e John
Foi uma estadia curta, de poucos dias, pois íamos para um apartamento em uptown Manhattan de uma amiga cenógrafa que estava vindo tirar férias no Brasil. A brevidade da estadia, no entanto, foi suficiente para que Lizzie nos convidasse com crachá vip para assistir a uma apresentação do Duran Duran (com a inglesa James como banda de abertura) no Radio City Music Hall, com direito a festinha pós-show com os músicos. O Duran Duran de Simon le Bon estava lançado aquele que ficou conhecido como o “The Weeding Album”, que trazia as faixas “Ordinary World”, “Come Undone” e “Too Much Information”. Havia também no novo repertório a faixa “Breath After Breath”, uma música composta pela banda com Milton Nascimento e que contava com a participação de Bituca nos vocais. Por conta disso, Lizzie, amiga e agente americana de Milton (agente de verdade e sem frescuras, daquelas que levam o violão do músico para consertar), se aproximou de todos os integrantes do grupo inglês.
Marya, sua filha com Zé Rodrix, e a netinha, Morgana, também estavam vivendo em Nova York e viviam em contato com ela. O vizinho era um tal de Vicente José de Oliveira Muniz (ou Vik Muniz). Tinha tudo a ver com o lugar. Em frente ao edifício em que eles moravam havia um junkyard, mas um junkyard bem diferente, pois a sucata era convertida em objetos artísticos expostos à visitação.
Marya Bravo recria música de seu pai, Zé Rodrix
O contato com Lizzie foi ótimo, ainda que breve. Fiquei anos sem ter notícias suas. Há uns 3 anos, vim a vê-la no Theatro Net (hoje Claro) em mais um show de Os Britos de George Israel e Rodrigos Santos, em que recriavam, acompanhados por uma super banda de aficionados, as composições dos Fab Four. Nunca consegui ter uma cópia de seu livro, “Do Rio a Abbey Road”, que saiu com poucos exemplares e que não se encontra à venda em livraria alguma e nem mesmo na Estante Virtual.
Nele, Lizzie compilou seus diários dos dois anos em que fez com outras meninas ponto na entrada do estúdio em que os Beatles gravavam seus discos mais psicodélicos, “Sgt. Pepper´s” e “Magical Mystery Tour”. Trata-se dos dois álbuns que os afastariam da histeria das fãs do começo da carreira. Do alto dos seus 15 anos e acompanhada por outras dedicadas beatlemaníacas, elas ficaram passando seus dias nos anos de 1967 e 1968 alternadamente entre a entrada dos estúdios da EMI (depois se tornariam o conhecido Abbey Road Studios) e a porta da casa de Paul McCartney, a poucas quadras da gravadora inglesa, sem serem importunadas. Viam os músicos chegando, conversavam com eles e eram até mesmo tratadas com certa deferência por todo o staff da banda. Um grupo delas, as Apple Scruffs, seria lembrado com saudade tempos depois nos versos de George Harrison em música de seu terceiro disco solo, de 1970:
“Now I’ve watched you sitting there
Seen the passers-by all stare
Like you have no place to go
But there’s so much they don’t know ‘bout Apple Scruffs
You’ve been stood around for years
Seen my smiles and touched my tears
How it’s been a long, long time
And how you’ve been on my mind, my Apple Scruffs
Apple Scruffs, Apple Scruffs
How I love you, how I love you”
Entre os registros de “Do Rio a Abbey Road”, aparecem os detalhes sobre o convite para que ela e Gayleen Pease gravassem os backing vocals de “Across the Universe”. Como Lizzie gostava de fazer tudo por conta própria, perpetrou essa coisa que muito admiro que é a edição de livro pelo autor. Mas, se por um lado as edições autorais permitem que tudo saia como o autor, o maior interessado, deseja, por outro, elas tornam difícil uma maior difusão da obra. Uma hora terei a chance de reencontrá-la através de seus diários e suas sempre diretas, despretensiosas e interessantes narrativas. Enquanto a chance não chega, dá para matar saudade assistindo a uma de suas entrevistas em que fala de sua trajetória e da célebre história. Para ilustrar essa postagem, escolhi uma que considero das mais completas e ricas em informação, feita pelo músico paulista Rogério Baraquet.
Abaixo, a gravação de Lizzie e Gayleen com os Beatles no disco beneficente “No One´s Gonna Change Our World” do World Wildlife Fund, lançando em dezembro de 1969. A música seria remixada por Phil Spector na versão do disco “Let It Be”, de 1970.

