A Missa Manifesto

Registro da Cerimônia no Cristo Redentor

Foi justa e tocante a homenagem ao ator Paulo Gustavo na terça-feira passada com a celebração desta liturgia tipicamente brasileira que é a missa de sétimo dia com um requinte que nunca tinha visto. Além de chamar a atenção para o descalabro dos mais de 420 mil mortos pelo coronavirus na pessoa de um artista conhecido e do qual todos se sentiam próximos, a missa serviu para prestar deferência à trajetória de alguém que atualizou o que há de melhor e mais genuinamente característico em nossa cultura cômico-chanchadeira. A escolha do Cristo Redentor como palco para a celebração com sua vista para o Rio deu um ar especial ao ato litúrgico.

Tenho fé e sou um devoto seguidor de tudo o que é propalado por Richard Dawkins, mas jamais sairia por aí suplicando às pessoas um minuto de atenção para que ouvissem as sagradas palavras de Darwin. E isso talvez se deva ao fato de que meus pais, ainda que católicos, terem sido sempre católicos café-com-leite, sem nenhum fervor religioso. Batizaram os filhos e colocaram todos para fazer o catecismo apenas em respeito à tradição familiar, sem nunca levar o assunto muito a sério. Apesar de não ter uma crença religiosa forte e de me faltar convicção na fé católica, nutro, de qualquer jeito, admiração por aqueles que encontram conforto na religião e aprecio presenciar seus rituais.

Quando garoto durante as férias petropolitanas tinha uma tia modernosa (divorciada, fumava e dirigia carro), que, no entanto, era uma católica dedicada. Pois eu costumava acompanhá-la, como se fosse um passeio, nas suas idas às missas de sábado à noite na Paróquia do Sagrado Coração de Jesus em Montecaseros, aquela mesma da Editora Vozes e dos Canarinhos de Petrópolis. Fazia isso com gosto. O som dos sinos convocando os fiéis para a missa de domingo pela manhã na igrejinha de Nossa Senhora das Graças no Quarteirão Brasileiro também me agradava. Alguns tios subiam até a pequena igreja para o ritual. Por todos estes fatos, fico à vontade com a cerimônia ainda que não participe ativamente dela.

Que amigos, que família maravilhosa, tem o ator Paulo Gustavo. Déa Lúcia, mãe do histriônico comediante, acertadamente observou ao final da missa que seu filho “passou no Enem da vida”, reiterando o que havia sido dito durante a homilia pelo Padre Omar. Com sua arte, o intérprete de Dona Hermínia conseguiu, em seus curtos 42 anos de existência, movimentar o teatro, o cinema e a TV, de maneira exponencial à medida em que trilhava sua carreira. Tentem contabilizar o número de pessoas que conseguiram arranjar um ocupação e se projetar com a ajuda do ator-empresário? Um sucesso completo de um empreendedor que começou pedindo dinheiro emprestado para pagar as contas resultantes dos gastos que teve para encenar a peça que o notabilizou.

Expulso por duas vezes do Colégio Salesiano de Niterói, imagino que Paulo Gustavo teria se sentido mais em casa se tivesse frequentado uma escola como o Colégio Brasileiro de Almeida. Por lá, com algum esforço, ele no máximo conseguiria chegar à sala do professor Terdy, para nunca mais querer voltar por conta dos impropérios que ouviria do xerife da escola. Acho que só um aluno conseguiu a proeza de ser expulso do colégio. O calminho e tranquilo estudante cuidou apenas de jogar uma carteira pela janela.

Falei em postagem passada sobre os problemas das tais “escolas experimentais” que surgiram nos anos 1970. Mas houve também elementos positivos nestes projetos educacionais. Neles, tinha-se iniciação em culinária, em carpintaria, em música, e na minha 8a. série do Ensino Fundamental, às sextas-feiras, aulas de teatros que se estendiam das 10h30 até o encerramento do turno da manhã. Nada disso existia nos colégios tradicionais, fossem eles religiosos ou não e em muitos ainda não deve estar em suas grades curriculares.

Paulo Gustavo fez tanta coisa que Cacá Diegues chegou a tomá-lo por cineasta, o que ele nunca foi. O hiperativo ator não deixou no entanto de se associar a realizadores competentes (André Pellenz, César Rodrigues, Susana Garcia) que conseguiram ajudar a impulsionar o cinema brasileiro com filmes que tiveram bilheterias com recorde de público. Diegues tem predileção pelo 3o. filmes da série. Minha preferência fica com o primeiro deles, o mais precário, ainda que tenha adorado todos. A relação com a cidade de Niterói, para onde pegava barcas com regularidade para dar aulas no campus da Estácio de Sá e para participar de congressos e atividades no campus Gragoatá da UFF, explica a identificação. A ligação afetiva vem também do fato de frequentar na infância a casa de meus padrinhos de batismo, minha tia-avó Albertina (Betim para nós; irmã de minha avó materna) e meu tio Armindo, que moravam em Icaraí. Niterói foi também a cidade da rádio Fluminense FM, a Maldita, outro motivo para ter um carinho pelo lugar em que Paulo Gustavo nasceu, viveu boa parte de sua vida e que festejou com sua inventividade e talento.

Avatar de Desconhecido

About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
Esta entrada foi publicada em Sem categoria. Adicione o link permanente aos seus favoritos.

2 Responses to A Missa Manifesto

  1. Avatar de Margarida Maria Pedrosa Sa Freire de Souza Margarida Maria Pedrosa Sa Freire de Souza disse:

    Muito legal Kiko, juntou tanta coisa. Vou mandar para a Tuca, ela vai adorar. Além de leitura obrigatória para suas irmãs e mãe tietes.

    Curtir

  2. Avatar de ana ana disse:

    você foi muito feliz nesse texto sobre Paulo Gustavo. Concordo com tudo!

    Curtir

Deixe um comentário