Parceiros da Fauna e da Flora

William Menq, ornitólogo, mestre em Zoologia pela Universidade Estadual de Londrina

Deve haver uma teoria e certamente nós simplesmente ainda não nos demos conta dela de tão evidente, manifesta e incontestável que deva ser. Devemos estar aguardando apenas que surja um naturalista para dizer que a explicação está diante de nossos olhos, nós é que não a vemos pois nos falta desprendimento para constatar o que é por demais óbvio (óbvio ululante, diria o outro). Tão palpável e perceptível quanto a teoria da origem das espécies por meio da seleção natural. Refiro-me a uma teoria que explique a razão pela qual todo biólogo é gente boa. Durante a pandemia, por exemplo, surgiu do nada a pessoa do Atila Iamarino, um completo desconhecido, um ilustre anônimo. E em dois minutos, ele se tornou o queridinho de todos. No YouTube, na TV convencional, nos canais pagos, nos jornais, nos podcasts do Xadrez Verbal. Aonde quer que ele fosse, virou a voz da razão, informada, tranquila, despojada, que todos queriam ouvir.

O primeiro biólogo que conheci atendia pelo nome de Paulinho McCartney. Era assim tratado, imagino, única e exclusivamente por causa da coincidência do nome já que, ainda que também se interessasse por besouros, não se tratava particularmente de nenhum fã dos Beatles. O encontrava todo dia às 6h50 da manhã na Leopoldo Miguez em Copacabana a caminho do cursinho pré-vestibular. O encontro acontecia cedo, porque o Paulinho precisava fumar o seu baseado antes do começo de cada turno de aula. Era um adepto das drogas alucinógenas, assim como o Bruno Torturra. Mas sem pose, sem maiores explicações. Era assim, porque era assim e ponto final. Eu não compartilhava o interesse pelas drogas que ele consumia, mas a companhia do Paulinho era inspiradora. Gostava de poesia e tinha Fernando Pessoa e Pablo Neruda como seus autores favoritos.

Nas areias do posto cinco, durante as peladas de sábado à tarde, seu passe vivia sendo disputado pelos donos dos times, pois era um craque do futebol sem chuteiras. Discreto e reservado, nas férias gostava de ir pra Saquarema colher papoulas, cogumelos e preparar seus chás que consumia ao som de Jimmy Hendrix, Allman Brothers e que tais. Foi pai muito jovem, aos 17 anos. Aos 35, já tinha partido. Sofria como sua mãe, com quem morava na rua Souza Lima, de uma doença degenerativa que a levou cedo e depois se manifestaria e consumiria seu único filho.

Depois do Paulinho, vim a conhecer alguns outros exemplares típicos dessa classe nobilíssima dos entendidos em assuntos da natureza. Um deles era o Fred, professor de um cursinho onde trabalhei. Dedicadíssimo, visitou o Museu de História Natural em Nova York e voltou com um álbum de fotografias em que documentava tudo o que viu, literalmente, da entrada até a saída. Além de seu campo de estudo, prestava reverência a uma outra paixão: o rock regressivo paleontológico dos primitivos e descabelados homens das bandas de heavy metal. Era receber o salário e correr para a Headbanger, a Subsom, a Darklands, na Praça Saez-Peña, e voltar com uma pilha de cds barulhentos que levavam todo o seu vencimento. Quando visitou a Tower Records em Nova York, confessou que, ao passar ao fim de suas compras o cartão de crédito, chegou a sair fumaça da maquininha.

Também companheiro de lida diária como professor de um período mais recente, cito a pessoa do Edson Vollotão. Morador de Botafogo, fez amizade e conviveu com os artistas do Cinema Novo. Foi morador do prédio em que vivia a irmã de Glauber Rocha, a atriz Anecy Rocha, do antológico “Lira do Delírio”. Conheceu também artistas plásticos que frequentavam seu bairro como Iberê Camargo, cujo estúdio bagunçado chegou a visitar algumas vezes.

Finalizo a minha lista com mais dois exemplares da espécie com os quais travei conhecimento. Um deles é o Arapinga, que retratei em um conto que escrevi há alguns anos. Vivia nas pistas da Doutor Smith, na rua da passagem, e na Basement, na Galeria Alaska, antes de se mandar para o interior do país para pesquisar uma espécie rara de morcego. De lá seguiu para a Amazônia, onde veio a falecer repentinamente. Parte de sua história registrei ficcionalmente em um escrito publicado no site Overmundo e já republicado por aqui.

O último exemplar a cruzar o meu caminho foi um tipo raro de biólogo, pois se consagrou como dublê de jornalista e DJ. Carlos Albuquerque, ou Calbuque, como é chamado pelos amigos, sempre deixou, pela desenvoltura com que exerce a ocupação de crítico musical, estupefatos àqueles aos quais confessou a primeira e talvez maior de suas inclinações na vida. Seu falar baixo, tranquilo, sussurrado, é, no entanto, um sinal a nos revelar o seu pertencimento à classe dos biólogos-gente-boa.

William Menq esclarece tudo sobre os Tucanos

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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