Por Mares Nunca Dantes…

“Cem Dias entre Céu e Mar” na Rádio Companhia

Amyr 1

Quando ouço as histórias do Amyr Klink, fico pensando na muito compreensível sensatez dos lunáticos. Já se foram 35 anos de sua travessia solitária do Atlântico Sul a remo. Desde a Namíbia até a chegada a Bahia, foram 7 mil km em 3 meses e uns poucos dias, um teste de resistência muito superior a qualquer quarentena. Tudo foi contado, e bem contado por sinal, com refinada estrutura narrativa e imagens ótimas, em um livro delicioso de se ler e de se ouvir. Há um ano, “Cem Dias entre Céu e Mar” (Companhia das Letras, 1995; 1a. edição da José Olympio, 1989) se encontra disponível também como audiolivro e agora, durante a pandemia, a editora Cia das Letras liberou a fruição da obra gratuitamente em sua página na Internet.

A invernada no Polo Sul, seguida do singrar do oceano Atlântico em direção ao Ártico, registrada no livro “Paratii – entre Dois Polos”  (Companhia das Letras, 1990), e a circunavegação da Antártica, narrada em “Mar sem Fim” (Companhia das Letras, 2000), são consideradas, com justificada razão por força da dificuldade insuperável que essas duas aventuras representaram, os maiores feitos de Klink. Mas, aos olhos dos que fogem a qualquer preço de desafios inexplicáveis, a travessia a remo parece de longe, dentre as três, a menos penosa e mais sublime. As outras lembram o esporte sem graça dos que se lançam a descer ondas gigantescas no mar de Nazaré, sabe-se lá por que.

Amyr Comenta sua Primeira Façanha

Ainda que remar oito horas por dia durante três meses não pareça uma escolha prazerosa, os momentos de calmaria em “mar de azeite” devem ter rendido contemplações maravilhosas do oceano e de sua fauna em ambiente bem menos inóspito do que no frio glacial antártico. É verdade que a agitação do mar, rendeu também seus instantes de aperto, assim como a aproximação de tubarões famintos, que queriam tirar os crustáceos do casco do bote I.A.T. (nome da empresa patrocinadora) de Amyr para atrair sua muito desejada refeição de dourados, e de baleias curiosas.

E pensar que o gosto pelo remo começou nas ruas da cidade a qual o navegador sempre esteve ligado. Aquelas mesmas que alagam com a subida da maré e nas quais, quando menino, Amyr, que mal sabia nadar, utilizava para dar seus passeios e cumprir até missões prosaicas como ir à padaria comprar pão. A paixão cresceria com sua iniciação no remo competitivo na USP durante o período em que cursava Economia em São Paulo. Seria acompanhada também pelo interesse em projetar canoas, barcos e organizar façanhas, bem como périplos inusitados globo afora.

Quando não está em sua casa sem luz e sem luxos em Jurumirim em um pedaço de terra onde só se chega pelo mar, Klink passa seus dias em seu escritório em São Paulo. Cercado por uma coleção encadernada da National Geographic, por remos feitos de forma artesanal por pescadores e por relíquias náuticas de suas expedições – como o sextante a que teve de recorrer para calcular seu posicionamento no Atlântico em época anterior a chegada do GPS -, ele cuida de sua rotina de palestras, novas expedições e livros.

Leitor dedicado, depois de passar pelos inevitáveis clássicos ficcionais que têm como tema a navegação, se viu dando preferência aos relatos reais. Independentemente dos humores de suas preferências, parece ter aprendido a se utilizar de recursos narrativos que conheceu e com os quais se entreteve. Seus relatos frequentemente rompem com a ordem cronológica, eventualmente nos lançam naquilo que os especialistas definem como narrativas in medias res, e exibem traços com ambições de narrativas literárias. Klink sabe ainda se valer de recursos como o do antropomorfismo e de apresentar os protagonistas de suas histórias de forma vaga atrasando sua caracterização precisa. Coisas de um leitor atento.

Além de seus livros, algumas de suas quase 3 mil conferências podem ser conhecidas no YouTube. Escutar o próprio autor fazer a leitura de “Cem Dias entre Céu e Mar” deixou neste ouvinte a vontade de uma iniciação tardia no mundo do remo.

Mar sem fim

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About Marcos Pedrosa de Souza

Marcos Pedrosa de Souza é professor da Fundação Cecierj. Tem formação em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e em letras pela Universidade Santa Úrsula. É mestre e doutor em letras pela Universidade Federal do Rio de Janeiro. Foi colaborador de O Globo e de outros jornais e revistas. Foi professor do IBEU, da Cultura Inglesa e da Universidade Estácio de Sá.
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