Marilena Chauí e Vladimir Safatle e o Impasse da Racionalidade
Não chego a concordar com muitas das ideias apresentadas por eles, mas quem sou eu na fila da cantina da USP para incorrer em algo mais do que frivolas notas pessoais sobre as considerações de dois dos pensadores/autores que mostram bem quem são os vagabundos, os desocupados, os cretinos, neste país? É verdade que, desde o governo FHC (pude acompanhar isso de perto), os programas de pós-graduação entraram em um regime de produção a toque de caixa. É verdade também que a administração petista pouco fez para mudar esse quadro, ainda que tenha alterado radicalmente o cenário de ensino em nível universitário no Brasil. Mas nada se compara ao que estamos vivendo agora: a destruição de tudo o que se construiu de minimamente relevante nos últimos anos.
Em meio a governança de um plantel de mentecaptos, Marilena Chauí, Vladimir Safatle e toda sua turma uspiana seguem produzindo um conhecimento e vivência universitárias essenciais a qualquer projeto que queira dar continuidade a uma experiência acadêmica civilizatória neste país. Projeto que se iniciou com a criação da USP nos anos 1930 e que teve a colaboração de nomes como os de Florestan Fernandes, Lévi- Strauss, Antonio Cândido (entrou nos anos 1940 ao pleitear uma vaga que teve também Oswald de Andrade entre os candidatos), Sérgio Buarque de Hollanda, Umberto Eco (professor visitante assim como Strauss), Alfredo Bosi, e, mais recentemente, Walnice Galvão, Lilia Moritz e José Miguel Wisnik.
Neste encontro da pós-graduação, Chauí e Safatle mostram o poço sem fundo em que se atira o capitalismo e a sua radicalização em um liberalismo suicida. De quebra, atacam a patifaria do atual governo que fez nosso país refém do que há de mais raso e canhestro em nossa história recente. Até chegar lá, no entanto, passeamos por uma bem informada análise das mudanças por que passou a trajetória do pensamento no ocidente. Observamos finalmente o que este pensamento pode nos ajudar na discussão sobre o momento atual.
Não chego a ter a visão catastrofista de Chauí. Não vejo, por exemplo, grandes males na associação de reflexão universitária com alguma prática de mercado (se este for o interesse do pesquisador). Não entendo ainda que a Internet tenha esse poder todo de que nos fala a catedrática. E para colocar em dúvida essa visão, basta nos lembrarmos que a sociedade da informação nunca irá se sobrepor à sociedade do conhecimento. Consideremos também o que a Internet ajudou na disseminação de estudos e experimentos científicos de toda ordem. Por fim, o saber intelectual construído não corre o menor risco de desaparecer se os 10 servidores americanos e dois japoneses (segundo ela comenta) forem desligados. Antes da Internet, vivíamos muito bem com nossos livros e bancos de teses e dissertações de nossas universidades, que guardam um conhecimento que anda até mesmo um pouco esquecido em razão da dispersão interneteira.
O ex-comunista Olavo de Carvalho acha que o departamento de filosofia da USP é um antro de esquerdistas. Conhecia o Olavo bem antes desta excrescência que nos governa aparecer como candidato à presidência e tê-lo como seu mentor. E o tinha em boa conta pela introdução que escreveu para o primeiro volume da coletânea de escritos de Otto Maria Carpeaux. Anteriormente portanto, ao surgimento de sua ambição de ser guru de aloprados. Tinha visto há muito tempo em um livro o seu ataque a Marx, que ele classificava como um vigarista, e ao pensamento marxista. Achava bobo, mas encarava de qualquer jeito como parte do debate.
Agora, o que ele diz sobre Chauí, Safatle, a USP e o Golpe de 1964 é puro devaneio, ou pior, deturpação. Pra início de conversa, ele imagina que o governo petista, com o qual Chauí e Safatle têm identificação, foi um governo de comunista e socialistas (que em seu entendimento são uma única e mesma coisa). Diz ainda que a ambição de Safatle e de toda a esquerda, comunista, socialista, é entrar em guerra aberta contra a direita. Pois, segundo avalia, quando no poder, os esquerdistas não sabem ter uma convivência democrática uma vez que seu desejo é a extinção do adversário. Cita como exemplo o Golpe de 64, quando a direita chegou ao poder e a esquerda foi pegar em armas. É de rolar de rir pelo primarismo, parece mesmo quadro humorístico, uma vez que sabemos que Olavo não é um ignorante. Fiquemos portanto com nossos palestrantes comunistas, socialistas, esquerdistas, que dizem coisas sobre as quais podemos discordar, mas que não criam visões fantasiosas sobre a história.

